sábado, dezembro 31, 2005

FELIZ ANO NOVO


Neste derradeiro dia do Ano não seja comedido com os doces, com os festejos, com os abraços e os beijos. Se tudo lhe correu mal há sempre um amanhã à sua espera em que o Sol vai sorrir para si com mais intensidade. Se vivermos a vida com medo corremos o risco de passarmos por ela sem que nos veja, sem que ninguém se lembre que um dia estivemos cá e fomos alguém. Viva, arrisque, erre ou acerte, mas viva, antes que morra e só aí se recordem de si.


Boas saídas e melhores entradas,
Um FELIZ 2006

sexta-feira, dezembro 30, 2005

EVASÕES (Marisa Cruz)

PANACEIA

É o cheiro do teu sexo
que guia cada um dos meus passos,
que ilumina a perversa obscuridade
dos meus anseios e receios
quando as mãos se soltam pressurosas
frémitas dum delicado despudor
nas asas maviosas duma imaginação
sem freio, lasciva, incestuosa.
É ao teu sexo qu'eu m'agarro como um bálsamo
quando a caneta galopa pujante
ousando desbravar um frondoso e obsceno Éden
de folhas imaculadamente virgens,
espelho diáfano dum rio que corre lento,
cá dentro, um lume brando que dilacera
o coração de quem por ti espera, desespera,
em promessas veladas dum amor sincero
protelando a improbabilidade do teu sexo
com regurgitantes devaneios
veementes delírios de cío.

PÉROLAS A PORCOS


Dá Deus nozes a quem não tem dentes, o governo aumentos p'ra quem tem fome, pensões de miséria para os velhos e doentes, sadismo de quem pode e manda; Basta! Cessem todas as diferenças sociais, toda a lógica mais ilógica, todos os sonhos mais proíbidos. "Não faças isto! Nem penses naquilo! Não toques nisso!", basta de fodas mentais e outras que tais! Há quem morra sem saber, há quem viva sem poder, quem sofra pelo que não tem, pelo que um dia não virá a ser... Feliz! Pôs-te alguém na minha vida, na de quem nunca vais sequer pensar, quanto mais amar amor como eu te amo, tu e eu, pérolas a porcos, dívina previdência de um Deus ateu; Eu aqui, tu nem vês, tão pouco, tão certo, ter-te perto e como louco pregar no deserto.

APENAS E SÓ

NÃO LEIAS O QUE PENSO NAS PALAVRAS QUE TE ESCREVO,
palavras, apenas e só, palavras
algumas mais ousadas, outras... nem tanto, cansadas,
salpicos d'ironia travestidos de poesia.

DISTÂNCIA


ao abrigo da distância que nos separa
a tua felicidade permanece intacta,
a esperança, nunca morta, esmorece
na fúria compacta do que aos olhos se escusa,
mas o coração sente, o sangue pulsa
e a saudade é por demais profunda.

terça-feira, dezembro 27, 2005

BONANÇA

Pois, passou o Natal e parece que a tempestade está também a passar. O meu sobrinho já veio da mãe e foi passar uns dias com o pai e o irmão. Vêm passar o final do Ano e deixá-lo e deixá-lo cá, porque as férias estão a chegar ao fim e a escola não tarda vai recomeçar. Com o aproximar dum novo ano talvez seja altura das pessoas começarem a entender-se, passar uma borracha por cima de mágoas antigas e usar da palavra em vez da ignorância de vinganças e outras atitudes mesquinhas que atingem sempre pessoas inocentes. Parece ainda que o spyware que me pôs num pânico genuíno desde a tarde de ontem está a afastar-se lentamente com o antispyware e o novo antivirus. Será isto bonança?

PERDOAR


Despe-te de preconceitos,
de falsas morais
e outras questões que tais.
Assume o erro, perdoa,
que amar é também saber perdoar.
Estende a mão, pede perdão
que o orgulho é parente
afastado da razão.
Ninguém é perfeito
nenhum homem é uma ilha
nenhum homem nasce sozinho
e só a morte nos leva
sem a ajuda d'outrém.
Ninguém manda, todos precisam
eu de ti, tu de mim
sem excepção. Sorri.
Só o ódio nos consome,
é frio, fere, dói,
mata sem matar
morres... sem saber.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

PORQUE ONTEM FOI DOMINGO...

Tudo o que hoje sou devo-o a ti, mãe, minhas virtudes e defeitos, a essência de uma personalidade que procurei moldar à medida do egoísmo das minhas necessidades, semeando ventos, colhendo tempestades, na certeza do porto de abrigo que são os teus braços, quais asas duma mãe-galinha cuja força serve de pêndulo aos devaneios da minha inconstância. Tu és tudo e eu sem ti... nada sou, não obstante o peito inchado de orgulho quando fazes alarde de qualidades qu'eu próprio já olvidei. Sinto-me então pequeno, tão pequeno, tolhido pela mesquinhez dos meus desejos insaciáveis, envergonhado por tudo qu'eu não te dei e mereces. Sei que as minhas palavras ainda são mudas, que os parcos elogios qu'eu arranco à força do âmago das minhas entranhas caem invariávelmente no esquecimento daqueles que não os ouvem. A verdade é que a minha relação com as palavras é uma guerra profícua em danos colaterais, feita na brandura de acções e palavras inconsequentes que teimam em deflagrar incessantemente nos dedos desajeitados de quem prime o gatilho, manchando-os com résteas duma pólvora seca de arrependimento. Escrevo sem saber como nem porquê. Donde vem?, como e quando é que surge esta força estranha que me guia a mão?, que a polvilha com mínguas duma mais que duvidosa inspiração e que a leva a escrever mesmo o que eu não quero? Como fechar esta torneira que me inunda a alma duma verborreia improfícua, que expõe a privacidade dos meus jardins secretos e me distancia dos comuns mortais com as suas vidas simples e banais - mas vidas - a que almejo pertencer? Aqui, deste purgatório onde expio cada um dos meus pecados, qual Madalena arrependida, renego àquele que com seu desprezo me dedica tão irónica dádiva, parente pobre da criação que é a arte de escrever apenas e só por escrever. Eu não sou um poeta, mãe, não quero ser poeta. Nada sei dos meandros da poesia, da inspiração, versos brancos, estrofes, odes... Eu não sei de nada, sinto-a apenas - à inspiração - como um vento súbito que chega sem bater, quando sofro, quando amo ou julgo amar - tão pouco quero amar -, quando sonho acordado, quando odeio, raramente quando a procuro. Aí, fogem-me as ideias, fico atolado em palavras que não fluem, ficam martelando, massacrando uma saída airosa: a dúbia eternidade num tosco aglomerado de frases a que, paradoxalmente, ouso chamar de poesia. É esse o meu fardo, destino ou fado, servir de intermediário a palavras que diàriamente me procuram como um flagelo a que não posso - ou não tento - escapar, conjugá-las em versos harmoniosos e lançá-las do escrínio obscuro das minhas memórias para a ribalta dum bloco de notas cheio de ideias desconexas onde se esvai a minha vida, submersa em castelos de areia e moinhos de vento, rascunhos de uma alma adversa de dor parida.
A vida não tem sorrido para mim, impávido que assisto ao conformismo sepulcral onde jazem todas as minhas convicções e revoluções. À minha volta ouço os conselhos experientes, o orgulho e a soberba de quem deixa andar, de quem pouco ou nada faz, dos que primam a sua conduta por um meritório egocêntrismo. Embora todos me critíquem o empenho exacerbado, sei que valho cada cêntimo que ganho e que sai do meu corpo, de cada poro, em suor e sangue. O meu orgulho está ferido mas é legítimo e a minha cabeça segue erguida apesar dos espinhos morais que nela se cravam. As pessoas, aquelas que temos por mais próximas, insistem em ser as primeiras a desiludir-nos, a deitar por terra todos os nossos sonhos, o futuro imediato. O presente é hoje um céu carregado de nuvens negras sobre os destroços ainda frescos dum passado recente, mas a esperança não é um sentimento vago, inócuo, apesar das "comadres" continuarem a "emprenhar" pelos ouvidos. As minhas chagas são mais que a soma de paus e pedras, mas eu não desisto. Não desisto enquanto houver pessoas que me surpreendam, daquelas poucas que falam e escutam com o coração e cujos nomes não preciso de enunciar porque elas sabem quem são. A vossa amizade devolve-me a fé, mesmo quando pareço carregar um fardo maior do que aquele que consigo suportar. Margarida Rebelo Pinto descreveu a solidão como "a maior e a mais estéril das prisões (...), à força de te protegeres dos outros, ausentas-te de ti mesmo, e onde estás agora? Qualquer dia olhas para dentro de ti e já lá não estás." É de prisões que costumo escrever, de algemas e cárceres psicológicos, de medos e normas pré-concebidas, tabus. É contra tudo isso que a minha voz se levanta à força de palavras, à força da poesia rude de quem sempre negou ser um poeta. Afinal, talvez um poeta não seja mais que um lobo que uiva para uma lua distante que só ele vê; um sapo à espera de um beijo impossível; alguém... que ainda acredita que a felicidade existe e que o Sol quando nasce... é para todos!

PAGADOR DE PROMESSAS


AMIZADE
Há um pote no fim do arco-íris de quem crê
a bonança no dealbar de tanta desventura
o acordar de dias soturnos com vontade de viver
crescer, participar - e porque não? - ganhar.
Jogo o meu dia mais feliz por tão pouco
esse gesto que tu dás sem nada pedir em troca
um sorriso que se espraia no inverno do meu ser
ilumina o olhar, aquece o coração
como pequeninas luzes fluorescentes
laivos de um natal antigo com renas voadoras
e velhotes balofos de vermelho vestidos
com alvas barbas dum algodão-doce imaculado
(sorte que tu gostas do encarnado).
É o grito de Ipiranga qual Fénix renascida
dos valores que se levantam na aurora da esperança
no olhar puro duma criança, um sorriso de verdade
nessa palavra com que me acarícias: Amizade.
os amigos não se vêem nas piores ocasiões. Estão sempre connosco...
no CORAÇÃO
para a Nucha

CARTA AO PAI NATAL - 26 DE DEZEMBRO


Querido Pai Natal,
Acharás estranho que te escreve hoje, 26 de Dezembro, mas quero esclarecer umas coisas que me ocorreram desde que te enviei a carta cheia de ilusões na qual pedia que trouxesses uma bicicleta, um comboio eléctrico, um nintendo e um par de patins. Quero dizer-te que me matei a estudar todo o ano, tanto que, não só fui dos primeiros da minha turma, mas também tirei 20 a todas as disciplinas e não te estou a enganar. Ninguém se portou melhor do que eu, nem com os pais, nem com os irmãos, nem com os amigos, nem com os vizinhos. Fiz recados sem cobrar, ajudei velhinhos a atravessar a rua e não houve nada que eu não fizesse e mesmo assim... que grande lata... ó Pai Natal. É que deixar debaixo da Árvore de Natal um cabrão dum pião, uma merda duma corneta e um caralho dum par de meias... foda-se... quem é que pensas que és... barrigudo do caralho. Pois é, porto-me como um camelo a merda do ano inteiro, para vires com essa merda de prendas e como se não bastasse, ao paneleiro do filho da vizinha, esse otário estúpido como caralho que grita com a vaca da mãe e é um pandemónio lá em casa, tu deste-lhe tudo o que ele pediu. Agora quero que te fodas e que venha o caralho dum terramoto e nos engula a todos, porque um Pai Natal incompetente como tu, não faz falta a ninguém. Mas não deixes de regressar no ano que vem, porque vou rebentar à pedrada as putas das tuas renas e hás-de vir bater com os cornos cá em baixo, que te hás-de foder. Vou começar pela tua rena Rudolph, que tem nome de maricas, e hás-de andar a pé, já que a merda da bicicleta que pedi era para ir pra escola, que é longe comá merda. Ah!!!... É verdade... não me quero despedir, sem te mandar para a puta que te pariu, pois tu és um filho da puta. E aviso-te que para o ano vais saber o que é bom, pois vou foder o juízo a toda a gente o ano todo.

P.S. Quando quiseres, podes vir buscar o pião, a corneta e as meias, mas acorda-me para eu te enfiar essas merdas todas pelo cu acima.

VOLTA!!!


Passei os últimos dois dias com o olhar perdido na janela do meu quarto, os ouvidos atentos no silêncioso vazio da ausência, o coração inundado de lágrimas secas, como sempre. Foram dias de guerra num tempo de paz, de um ódio que eu não concebia, mas que me encontrou de mãos e pés atados numa espera dilacerante, interrompida um sem número de vezes pelo soar do telemóvel... mais uma mensagem de boas festas. Boas festas... quando a palavra dos Homens equivale a um castelo de areia que se desmorona à primeira onda mais forte. Sexta-feira a minha cunhada levou o meu sobrinho para passar a noite e a manhã seguinte com ela, ficando de o devolver sábado a início da tarde, onde o esperavam avó e tio, pai e irmão e um monte de prendas compradas com muito sacríficio mas muito mais amor. à última da hora, essa mulher que se diz mãe, mas que é capaz de usar o filho como arma à falta de outros argumentos, avisou que não iria devolvê-lo antes de segunda-feira. Essa mesma mulher que morando perto do filho é capaz de passar semanas sem ir visitá-lo e que não lhe telefona porque as chamadas de telemóvel são caras lembrou-se de usá-lo numa luta pessoal, indiferente ao sofrimento de quem o ama diáriamente, de quem o veste e alimenta, de quem o leva à escola e o ajuda nos trabalhos, de quem o trata de cada vez que fica doente. Esperei. Não podia haver alguém tão mau e desprezivel, pelo menos nesta época. Só que os carros não pararam debaixo da janela do meu quarto e o telemóvel não tocou a avisar da sua chegada. Não, desligou o telemóvel quando o pai falava com o filho para lhe desejar as boas festas. E o irmão, sem saber o que se passava perguntava por um irmão que não o esperara para juntos abrirem os presentes, por que tanto ansiara. Hoje, não vou querer conversas, por não saber como iria reagir. Tive o Natal estragado, não importa! Amenizei a dor com a presença do meu outro sobrinho. Já estamos a 26, devia ser já 1 de Janeiro, poder esquecer os últimos dias e preparar-me, só isso - por agora - para o abraço apertado com que espero receber a pessoa mais importante da minha vida daqui por algumas horas.

sábado, dezembro 24, 2005

PARA UM NATAL ESTRAGADO

Destruímos sempre aquilo que mais amamos
em campo aberto ou numa emboscada;
alguns com a leveza do carinho
outros com a dureza da palavra;
os cobardes destroem com um beijo,
os valentes, destroem com a espada.
Oscar wilde

sexta-feira, dezembro 23, 2005

PORQUE HOJE É BEBÉ


Não quero deixar passar este dia sem desejar um feliz aniversário a um excelente profissional, mas principalmente um amigo do seu amigo que é o Lucas. Desejo-te um dia com tudo de bom, continuação de boas férias, um feliz natal e um próspero ano novo para ti e para os teus. Depois explicas-me como é que consegues ir de férias nesta altura! Um abraço!

quinta-feira, dezembro 22, 2005

ESTOU DE RASTOS

Até poucas horas atrás pensei chegar a casa e escrever que faltavam quatro dias para o Natal e juntar uma imagem alusiva a acompanhar. Poucas horas atrás, porém, uma morte veio afectar radicalmente o meu âmbiente de trabalho e o meu modo de encarar hoje a data que se aproxima. Uma mulher que muito provávelmente apenas conhecia de vista caiu ao mar e todas as diligências que imediatamente se fizeram no sentido de a resgatar com vida foram infrutíferas. Neste momento, não interessa o seu nome, sexo ou idade, profissão ou estatuto social. Numa época em que já se fazem inúmeros votos de boas festas e um ano vindouro mais próspero, há que lembrar que o reverso da medalha também existe para incontáveis famílias para as quais este ou outros natais ficaram marcados pela tragédia de um familiar ou amigo, por despedimentos, pela falta de comida e de dinheiro, quando outros se banqueteiam. Amanhã talvez não me lembre mais deles, mas hoje, vai para eles o meu sentimento profundo de respeito. Uma palavra ainda de conforto e amizade para um colega que, por estar directamente envolvido no drama das últimas horas, estará certamente a passar um mau bocado. Que o ano novo lhes traga a eles e a todos nós não apenas prosperidade mas serenidade para enfrentar os maus momentos e paz, muita paz.

terça-feira, dezembro 20, 2005

FALTAM 5 DIAS PARA O NATAL


vamos encher este natal de calor humano...

QUE QUERES QUE TE DIGA C'UM POEMA?


Que queres que te diga c'um poema? senão das saudades da chuva miúda no lancil da janela do teu quarto onde nunca estive e todavia não esqueci? Como posso sentir a falta de alguém que nunca tive, das palavras de carinho que jamais me disseste, ou do volume do teu corpo na minha cama de solteiro onde tu nunca te deitaste? Como podem sentir as minhas mãos a falta das tua e a casa ficar vazia, escura e triste sem a alegria da tua presença? Que queres que te diga c'um poema? que à noite ajeito na cama o corpo no espaço certo do aconchego dos teus braços? ou que ontem ao acordar te procurei sob os lençóis desalinhados e manchados de solidão? Que queres mais que te diga num poema se os dias são cada vez mais longos e as noites cada vez mais frias, e que na memória ficou gravado até o jeito de abrir dos teus braços ao despertar e do modo tão peculiar, tão teu d'enroscar o corpo d'encontro ao meu antes de adormecer, depois do amor, esse amor que nunca me deste e cuja lembrança já não sai do meu sorriso mais feliz.

ESTA ESTRANHA FORMA DE AMAR


Esta estranha forma de amar
como eu te amo - E SE TE AMO!
vem do ventre de palavras que não saem,
da ironia de segundos sentidos,
da distância de palavras escritas
onde a minha alma - quase - se desnuda;
é feita de promessas não cumpridas,
é filha do medo e das provocações,
de intenções que se quedam
a meio de uma viagem onde náufrago
num denso mar de frustrações
e de sonhos e desejos inconfessáveis.
Estranha forma - a MINHA - de te amar,
coração na palma das mãos
num caminho que me traz
perdido em espirais
encontrado...
em nenhures.

O MÉRITO A QUEM O MERECE


Não quero deixar de agradecer àqueles que dia a dia continuam a agraciar-me com a sua atenção e amizade, pois são eles que, com as suas palavras e atitudes ajudam a soprar e a afastar as tempestades que não poucas vezes ensombram os nossos dias. Agradeço uma vez mais ao meu amigo Paulo Tadeu pela sua persistência nas visitas a este blog e pelos comentários sempre animadores. São pessoas como tu que elevam o nível deste meu cantinho.
Obrigado também à minha amiga Nusrat pela sua amizade e alegria permanentes, que ajudam a esquecer e perdoar algumas tropelias. Recebi hoje o livro que me mandaste. Sei que vou gostar.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

VIAGEM AO MUNDO MÁGICO


Apetecia-me silenciar as palavras e trocá-las por sonoros aplausos entoados a compasso, porque é de aplausos que vive um circo, e de gargalhadas cristalinas e olhinhos esbugalhados e embriagados de êxtase e admiração, enquanto um crescente nervoso miúdinho nos toma de assalto e o suspense baloiça perigosamente sobre a rede de um trapézio. Mas é com palavras que eu melhor sei expressar-me, é nelas que crío asas e me sinto parte de um mundo que construo a meu bel-prazer, por vezes dramático, outras mágico como uma tarde de dezembro no Circo Victor Hugo Cardinali, que me levou de volta a uma infância já esquecida, quando ainda não pensava, apenas sonhava e todos os sonhos eram permitidos.

domingo, dezembro 18, 2005

PORQUE HOJE É DOMINGO...


Passam hoje 25 dias desde as minhas primeiras linhas neste blog. Nesse dia, com o coração cheio de dúvidas fiz o que não costumo fazer: arrisquei. Não sabia se o fazia para minha auto-satisfação ou para dirigir-me aos outros da maneira que melhor sei, p'las palavras que escrevo. Não sabia quantos dias iria resistir até que o desapontamento dos primeiros revezes me vencesse, como não sabia também se conseguiria responder ao tempo que um blog consome na sua criação. Hoje subsisto repleto de dúvidas porque descobri que a nossa ignorância é sempre proporcional à nossa sabedoria. Quanto mais aprendemos mais nos damos conta do muito pouco que sabemos. Alguém disse um dia "só sei que nada sei", e no pouco que sabia era um sábio. Quase um mês decorrido aprendi que um blog é muito mais que um monólogo inconsequente em que UM fala o que quer e lhe apetece na certeza de que ninguém o ouve. Nada mais errado. AQUI até as paredes têm ouvidos. Aprendi também que o desenvolvimento da nossa civilização como hoje a conhecemos terá sido similar à elaboração e manutenção de um blog, pois que, por mais que façamos nunca estaremos satisfeitos com os resultados obtidos e como tal não nos daremos nunca por saciados, procurando sempre mais e mais. Mas ao tempo que eu chegava a estas conclusões, outras questões "martelavam" o meu cérebro: Será certo perder tempo com os nossos sonhos indivíduais, mesmo quando esses sonhos nos parecem tão sem importância? É bem possível que, com algum trabalho consigamos agradar aos outros um, dois, três dias numa semana, mas nunca todos os dias. Aí esmoreço, porque se não captar a atenção de quem me lê, todo o meu esforço será em vão. É difiícil agradar a gregos e troianos e mantermo-nos ainda assim fiéis aos nossos princípios, sem necessidade de vendermos a alma ao Diabo. A verdade é que o nosso maior desejo é mesmo agarrar a expectativa de um indeterminado número de gente e se possível extrapolá-lo vezes sem conta, porque um blog, como qualquer bom segredo ou acção que façamos só valerá a pena quando o fizermos chegar aos olhos e ouvidos de quem possa dar-nos o mérito de que intimamente nos julgamos credores. E como segurar esse público? Deturpando as bases do nosso empreendimento, desvirtuando a sua identidade a troco de um pouco de atenção, dos nossos "quinze minutos" de fama. Não vamos dar-lhes só poemas, só humor, só polémica ou sexo, mas um pouco de tudo e algo mais que se possa inventar. Transformamos então a nossa "sopa de pedra" numa amálgama de condímentos em que a pedra deixou de ser fundamental. É essa a minha dúvida mais premente, se devo ou não mudar o curso inicialmente tomado apenas para agradar aos outros ou, pelo contrário, arriscar-me a um isolamento precoce em que acabamos falando para as paredes. E não é de blogs que vos falo hoje, aqui, mas da vida e das decisões que todos teremos, um dia, de tomar.


Tenham uma noite descansada e uma semana profícua.
Façam o favor de serem felizes!

BESTA


E a besta irrompeu castelo dentro, disfarçada de peão, semeando caos e confusão entre as ameias dum reino sem raínha, profanando mitos duma suspeita valentia; desceu o seu manto gélido descobrindo as trevas, engolindo uma moralidade abstracta e fictícia, fez o leão balir como um cordeiro, fez-me caír do alto da minha própria altivez e arrogância; os pés de barro turvos, enlameados, fétidos, anjo há muito caído (em desgraça), cansado de calcorrear sozinho as vielas obscuras da perversão, velho pugilista de corpo moído, o orgulho ferido antes, muito antes do fim do primeiro assalto, sob o tremor duma insegurança mal-contida, dançarino na corda bamba, cabisbaixo, como um touro de raça prestes a ser capado; rola a cabeça como um troféu num chão escarlate dum castelo que tinha por meu, fendas morais por onde a coroa da minha soberba se perdeu. Sobrevivo exangue a uma morte precoce, abespinhado duma vingança nasciturna de quem quer e não se ergue, o medo, besta negra que s'encobre na bruma densa da cobardia e me encontra cativo em meu próprio corpo.

FEZ ONTEM TRÊS ANOS...

Foi a 17 de Dezembro de 2002, no Terminal da Transtejo em Cacilhas, pelas 10.45 que fui vítima de uma agressão bárbara e cobarde, ao interpelar um indíviduo que tinha entrado na sala de embarque sem título de transporte. Apesar de se saber quem foi, a polícia nada fez, por falta de testemunhas do acto em si. Como resultado foram-me substituidos vários dentes e fui obrigado a passar quase ao lado das iguarias da época natalícia. Hoje, o desejo frustrado da vingança esmoreceu, mesmo que, quase que diáriamente tenha de encarar o animal, que à falta de argumentos racionais apelou para a violência.

sábado, dezembro 17, 2005

sexta-feira, dezembro 16, 2005

SUGESTÕES

Que posso dizer de um livro que nos últimos dois dias consumiu todos os meus tempos livres, adulterando a minha vontade própria e outras actividades prioritárias que tiveram de ficar para trás? Foi o que sucedeu com O Alquimista. A escrita de Paulo Coelho consegue ser simples apesar do profundo teor dos conhecimentos que aceita partilhar com o leitor. A sua leitura é fácil e apelativa, merecendo todavia, de quem lê, mais tempo para apreender toda a sua sabedoria. O Alquimista é um livro intenso que se debruça sobre a forma de olhar para o mundo à nossa volta e de perseguir os nossos sonhos, usando o coração.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

FALTAM 10 DIAS PARA O NATAL!!!

NOITES VAZIAS





Toma o meu corpo, possui-o! Toma esta carne sem freio, todo este calor, esta ânsia, esta febre! Se és tu, qualquer uma, tanto faz! Toma-o na longa eternidade das minhas noites vazias, recebe as fraquezas do meu ser na força bruta do teu querer! Toma a razão sem razão e todavia razão dos meus ímpuros devaneios; toma a demência dos meus poemas e a indecência dessa castidade atroz! Violenta-me a inocência, saboreia da mente a perversidade, toma o meu corpo faminto, quiçá sedento de vida vivida, dum beijo mesmo beijo, do aconchego dum abraço, do estertor dum orgasmo.

JÁ NÃO HÁ


Já não há tempo para sonhar, não há castelos de areia junto ao mar nem cavalos de madeiras, daqueles, onde nas praias da minha infância se tiravam às crianças fotografias a preto e branco. Já não há fado castiço, não ha Alfredo, não há Amália, há má fama em alfama. Já não há cowboys, heróis de capa e espada, Sandokans. Hoje todos são bandidos, ninguém mais quer ser mocinho. Já não roda o pião, não desce o aro rua abaixo, já não grita o ardina de saco às costas as novas do dia. Já não há beijos às escondidas, nem olhares mais corados, já não há varinas, calaram-nas, às varinas que à porta nos traziam pregões e sardinhas fresquinhas. Já não há poesia como Camões a escrevia, nem colecções de caricas, nem vitórias europeias do Benfica. Já não há idade para a inocência, não há mais virgens no altar, não há nada... nada mais que a saudade.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

VIAGENS


Sigo a estrela lá no céu, à procura do meu Eu, sigo por essa ponte sem portagem até à virgem no altar, procuro luzes de calmaria em olhares apagados, cheios de nada, do muito que lhes vai na alma. Procuro-me em lugares onde nunca estive e que jamais irei esquecer, procuro o perdão do pecador, essa voz em mim que fala de amor. Perde-se a gaivota no horizonte mas nunca o horizonte em si; procuro e encontro (dentro de mim) a delicadeza da pedra mais dura, a esperança no infortúnio, o raio de sol na tempestade, todos os arco-irís da vida, poesia, que Tu escreves sem papel.

DUAS VIDAS






Seremos sempre dois
duas vidas separadas
dois destinos sem sentido
dois sentidos, sonhos ilegítimos.
Um mais um são sempre dois
e como podem dois viver tão sós,
dois caminhos sem união
paralelos sem um toque,
nossas vidas tão distantes
e tu em mim sempre presente.

ANJOS & DEMÓNIOS

A intuição feminina é: o resultado de milhares de anos sem pensar.


O silêncio é a fronteira final de uma mulher. Que se saiba ainda nenhuma mulher conseguiu lá chegar.

terça-feira, dezembro 13, 2005

PAUS & PEDRAS


... e num país que já foi de poetas as palavras são agora paus, as palavras são agora pedras, que ferem na alma o mais incaúto, aquele que delas se dizia amado amante. A devassidão dos meus pensamentos ímpios leva-me a questionar a noção do pecado: será a causticidade das minhas palavras menos digna que a verborreia improfícua daqueles que sobre nada escrevem ou falam? "Se soubesses não falavas, mas tu falas sem saber, falas de cor como um erúdito, escreves muito, não dizes nada." Deleito-me na loucura do juízo final, na falência de afinidades que me atraem e me conduzem invariavelmente ao sentimento, sempre, em correrias inconsequentes. Com a alma mártir de profundas chagas grito na eloquência de palavras dúbias, despidas dum contexto moralmente sóbrio, políticamente correcto, indubitávelmente ético; palavras que flagelam como paus... como pedras.

PENSAMENTO DO DIA

As estrelas são os poetas que fazem descer até nós versos de luz. Nos dias tristes, depressivos, os versos perdem-se nos negros e cinzentos. E eu sem poesia perco-me nos labirintos da angústia. - Augusto Gil

domingo, dezembro 11, 2005

EVASÕES (Jennifer Love Hewitt)

DESABAFOS DE UM REJEITADO (5)

Fui ao médico.
- Doutor, todas as manhãs quando me levanto e olho ao espelho fico com vontade de vomitar. O que é que se passa comigo?
Ele disse:
- Não sei, mas a tua vista está óptima.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

SUGESTÕES

O que acontece quando um estrangeiro chega a uma pequena localidade de gente pobre e trabalhadora e promete dez barras de ouro à população desde que, no espaço de uma semana, se dê um assassinato? Este é o mote de "O Demónio e a Senhorita Prym", o livro de Paulo Coelho que actualmente me acompanha para onde quer que vá e que trata da eterna luta entre o Bem e o Mal, Anjos e Demónios, Céu e Inferno. O mundo terá ainda salvação? Será o Homem capaz de cometer um crime sobre um familiar, um vizinho ou um amigo - mesmo que sem outro motivo que não seja o da riqueza? Uma leitura fácil a merecer a vossa atenção.
Hoje aconselho uma vista de olhos por dois blogs, cujo tempo não irá dar por perdido: http://onovoaroma.blogspot.com é um recém chegado a esta imensa blogosfera, que, apesar de estar a dar os primeiros passos surpreende pela sua maturidade e bom gosto, com uma sensibilidade peculiar a abrir expectativas em relação ao futuro. O meu destaque, porém, vai para http://marius70.blogs.sapo.pt, que me surpreendeu pelo seu conteúdo e grafismo, apelando a um magnetismo audiovisual bastante forte.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

SABES LÁ


Sabes lá tu do que se diz por aí, essa gente que se diz tão crente e que fala sem saber, sabes lá tu! Sabem lá eles o que é ser Gente! Há gente que se benze, gente que sente, gente que ri com vontade de chorar, crianças à fome e ao frio, sem lar, gente sem esperança, doente, gente decente, gente que apenas quer ser gente. Os outros... Sabes lá tu do que dizem, de ti, de nós, tu sabes!... Eu não. Porque a palavra brotou dos teus lábios como uma flor no deserto da minha insensatez, como um doce: "saudade", disseste, e eu nem sei se é verdade. Porque o que se diz por aqui... sabes lá!, do que falam de mim quando aqui não estás, sou o que se diz por aí, algo assim. Tu sabes, assim-assim, o que anda só, o que escreve daquilo a que chamam Poesia. Sabes lá do que se diz sem saber, de tudo o que se ouve sem querer, dói, sabes lá! Queres ignorar, mas não consegues... esquecer.


09FEV03

DESABAFOS DE UM REJEITADO (4)

"Lembro-me do dia em que fui raptado, quando enviaram um bocado de um dedo meu ao meu pai. Ele disse que queria mais provas"


"Uma vez quando me perdi... vi um polícia e pedi-lhe ajuda para encontrar os meus pais. Disse-lhe: Acha que alguma vez os vou encontrar?
Ele respondeu: Não sei, miúdo, há tantos sítios onde eles se podem esconder."

EVASÕES (Keira Knightley)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

DESABAFOS DE UM REJEITADO (3)

"Posso dizer que os meus pais me odeiam. Os meus brinquedos do banho eram uma torradeira e um rádio"


"A minha mãe nunca me deu de mamar. Ela dizia que só gostava de mim como amigo"


"Quando eu nasci, o médico foi à sala de espera e disse ao meu pai: - Tenho muita pena. Fizemos tudo aquilo que podíamos, mas mesmo assim ele conseguiu saír"

ET PLURIBUS UNUM


Um resultado brilhante permitiu a uma equipa do Benfica recheada de ausências mas heróica no estoícismo demonstrado eliminar uma constelação de estrelas oriunda de Manchester e prossegui contra as previsões mais optimistas a sua caminhada na Liga dos Campeões, através de dois golos de dois dos seus jogadores mais mal-amados pelos adeptos (Geovani e Beto) contra um de Scholes a abrir o marcador. Por este momento especial: Obrigado, Benfica!

terça-feira, dezembro 06, 2005

LÁ COMO CÁ



Antes do casamento Depois do casamento

PORQUE NUNCA É TARDE...

Queria deixar aqui o meu agradecimento especial ao amigo Paulo Tadeu, pelas felicitações aquando do meu aniversário e pela especial dedicação que devota a este meu humilde e tosco jardim literário. Espero poder continuar a ser merecedor de uma vista de olhos assídua não só da tua parte, mas de todos os que por cá já passaram. São vocês que me dão forças para prosseguir, para extrapolar as vossas expectativas dia após dia, tentando manter o vosso interesse e assim retribuir os incentivos que tenho recebido da vossa parte. Obrigado e um abraço do tamanho do mundo!

TENHO MEDO


Tenho medo do meu corpo, do teu, dos teus olhos nos meus olhos onde sem querer me perco da razão. Tenho medo da minha boca, da tua, e do meu nome nos teus lábios. Tenho medo do coração, faminto que anda de paixão e do que podem fazer as minhas mãos se as deixar (à solta p'lo escuro)... se as deixares (passear em ti)... Tenho medo do que sinto se tudo o que sinto for só desejo, se tudo o que sinto for só... tu sabes... tesão. Tenho medo do desejo, dum beijo que seja, das loucuras que fazemos quando não devemos e das mentiras que inventamos - e nas quais acreditamos - quando perdemos o medo do medo que temos.



15AGO03

DESABAFOS DE UM REJEITADO (2)

Tem sido um dia difícil. Levantei-me de manhã, vesti uma camisa e saltou um botão, peguei na minha pasta e a pega partiu-se... estou a ficar com medo de ir à casa de banho.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

FALTAM 20 DIAS...


Daqui por 20 dias vamos ter a mesa cheia de doces, a casa cheia de amigos, e estes vão trazer prendas que vão tornar mais coloridos os sorrisos das nossas crianças e mais brilhantes os seus olhitos, faíscantes de felicidade. Na noite de 24 para 25 vamos ter de escolher por onde começar, se pelo bolo-rei, se pelas filhozes ou pela torta, que vamos regar com champanhe e vinho do porto. No dia seguinte ainda haverá bolos e outras iguarias. E no outro, talvez ainda no outro a seguir... até que alguém diga que já não estão bons e os deitem fora, porque o final do ano está a aproximar-se e com ele uma nova remessa de doces. Nessa altura alguém vai falar de esperança num ano melhor, porque os nossos ordenados são baixos e o custo de vida elevado, porque há desemprego, políticos corruptos e há a camada de ozono. Vamos falar de consciência, de solidariedade, até em deixar de fumar. Vamos críticar os políticos e as promessas que ficam sempre por cumprir e por fim arcar ao governo as culpas por a nossa vida não ser melhor, apesar de toda a nossa inércia, de todo o nosso egoísmo. Porque para alguns, os problemas do mundo estão entre um aumento de 2 ou de 5% no ordenado, em trabalharmos horas extras que raramente nos pagam, em saber se este mês vamos poder comprar um ou dois jogos de playstation, em decidir se o almoço vai ser bacalhau ou bife com batatas.

EVASÕES

DO TEMPO QUE PASSA


Assisto ao tempo que passa com a serena amargura de quem se sabe impotente no seu resgate; tão inevitável como implacável o tic tac monocórdico dos ponteiros pende sobre a minha vida perdida como uma guilhotina afiada desmembrando o meu futuro. Tanta coisa por fazer, tantos lugares onde ir, o que quis ser e não fui, tudo o que ficou por dizer e o tempo tão curto passa frenético numa correria constante que me encontra invariávelmente parado, sistemáticamente... calado.

A VERDADE


A caneta desliza como uma bailarina embriagada no palco secreto de uma infundada esperança, as palavras às cegas, muito embora certas, a reboque de uma memória ainda fresca, que não quero ver tão cedo esquecida. Pela enésima vez repito-me, perco a graça, naquilo que escrevendo não ouso dizer-te, mas perto de ti sinto a premência d'encontrar palavras novas, d'inventá-las, d'adulterar um vocabulário assaz limitado no que ao adjectivar-te diz respeito. Desgasto-me baldamente em loas que fraquejam no intuíto desastroso de t'enredar na minha teia, porque a verdade é uma arma que nos mata e se não mata fere, e se fere afasta-nos.
30SET03

MORRER NA PRAIA


Quis morrer na praia, os pés descalços na areia ardente entre o céu imenso e o mar intenso, naufragar no fulgor dos teus olhos negros como duas conchas raras, nuas, prenhas duma felicidade latente. Quis mergulhar nas profundezas do teu corpo, conhecer-lhe os seus segredos, as correntes e os afluentes, afagar-lhe as formas, lamber o sal das das tuas feridas com o mel dos meus beijos, e abandonar-me ébrio ao sabor da maré p'ra desaguar no leito perfeito dos teus seios, onde amarro o meu barco ao cais, solto a âncora, fecho a porta e jogo a chave fora.

07MAI04

DESABAFOS DE UM REJEITADO (1)

No outro dia uma rapariga telefonou-me e disse:
- Queres vir cá a casa? Não está cá ninguém!
Eu fui lá a casa... ninguém respondeu. Não estava mesmo ninguém.

PENSAMENTO DO DIA

"Só os castos são verdadeiramente obscenos"
escritor holandês

domingo, dezembro 04, 2005

LAR

Tem que haver um lugar onde
alguém com quem
possa eu um dia ser feliz,
alguém com quem partilhar,
a quem dizer:
contigo estou vivo
e onde tu estiveres...
Estou em casa

RENDA ou SEDA (do lado errado da porta)


Para lá dessa vil fronteira que nos separa ouço os teus pés que me fogem andarilhos, como um vento que me fustiga a alma; sinto a lenta agonia de quem perde o melhor do dia (todos os dias), a oferenda de um corpo orgulhoso em todo o seu esplendor, liberto de quaisquer trapos, vestido de promessas, néctar dos deuses, colírio que nos faz crentes. No inquietante roçagar do tecido sobre a carne esvai-se-me o coração em lágrimas de sangue e eu pressinto o suplício de uma quimera vã, em que aos meus olhos surges já vestida, no despertar de uma estéril espera. Não, imploro, não te vistas!, ainda não! Não te cubras num despudor despropositado, não omitas a estes olhos por norma tristes e cansados a alegria da harmoniosa simetria das tuas formas, dos teus seios, de ouvir dizer e adivinhar, perfeitos, do fruto maduro e pronto a colher ousando sob o ventre desnudado, o gracioso embaraço de uma sardenta Vénus reínventada. Do lado de cá dessa linha que por instantes nos afasta em silêncio me declaro e expío, sofro calado por cada um dos meus pecados e suspiros mais ousados. Não, imploro, não te vistas! Não ainda! Não por mim!, se acaso algo conto, se acaso mereço, para ti o privilégio da cedência dos teus encantos. Não te vistas!, não me magoes uma vez mais com o desprezo em que a tua natureza é fértil, qué um tormento cada minuto desse tempo em que um pedaço do teu corpo do meu se esconde, atrás de portas e botões, generosos decotes de promessas que ficam por cumprir adiadas. Chega de fugir, de ter medo de ousar, satisfazer! Rasga os disfarces que te prendem à raíz do medo, faz-te à vida p'la vida, faz-te presente, despe a vergonha, o orgulho e o preconceito, fica livre, fica nua, sempre e só em pelo, na símbiose mais que perfeita de dois corpos que se precisam e se querem... conhecer. Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor, qué um sacríficio inglório, tamanho tormento imaginar-te às pressas, peça a peça, dos pés quase à cabeça, e em segredo imaginar-me renda... imaginar-me seda.


31AGO03

PEQUENAS COISAS


Há pequenas coisas em ti
pequenos gestos, pequenas palavras
momentos sinceros
de que não te dás conta
e que me fazem sentir tão grande, enorme
vivo.
Um sorriso, um olhar
que para ti nada vale,
o silêncio
o toque ainda que breve dos teus dedos.
E eu deixo-te fugir por entre as mãos
carícias breves, confidentes
abraços e beijos, o teu corpo (sonhado)
como um golo impossível
que todavia sofro,
um frango.
07ABR04

COISA POUCA, COISA NOSSA


Roubaste-me a incerteza expectante das manhãs em que enfiados na cama, desencontrados dos lençóis, libertava o teu corpo das amarras do teu pijama, confundíamos as nossas pernas, misturávamos os nossos sexos, masturbávamo-nos um ao outro vezes sem conta, como se o tempo fosse coisa pouca, coisa nossa. Levaste a luz diáfana do glamour da minha insensatez, quando te descobria íntima nos caminhos escusos da minha nudez, quando a inquietante ternura dos meus beijos húmidos lambuzava a tua boca dos restos de uma fálica sede. E tu fingias que gostavas, como fingias que me amavas, como as juras de amor levianamente sussurradas com que tantas vezes me levavas, me enganavas, deixando-me desmistificar os meus tabus, desbravar o sentido proíbido, fazer de herói... na tua selva como um Tarzan, primata no emaranhado dos teus cabelos púrpuros que acariciava sem despentear, quando me beatificavas em águas douradas saciando a minha sede e a minha fome na perene serenidade dos teus compassos como versos de uma poesia indescrítivel, como se o tempo fosse coisa pouca... coisa nossa.


30SET03

AINDA ASSIM


Ainda que por vezes a vida seja uma merda
(e tu sabes que é)
e que o amor seja mesmo como dizem
(fodido)
ainda assim estarei contigo,
estarei sempre à tua espera.

sábado, dezembro 03, 2005

APRENDER A CAMINHAR


É tão difícil aprender a caminhar quando caíndo nos levantamos sabendo que voltaremos a caír; é tão difícil fazer de conta que somos donos de nós mesmos, sem dados nem peões, sem dinheiro de brincar; é tão difícil decidir, fazer, trabalhar, comprar e gastar sem ter com quê, poupar sem ter o quê, sofrer, dos outros o jugo nem sempre justo de tudo que em boa fé fazendo se volta invariávelmente contra nós; é tão difícil viver sem um manual na mão, às cegas na corda bamba sempre com o medo de falhar; é tão difícil saber o qu'é de saber, quem somos, p'ra onde vamos, o que queremos fazer, acordar sem saber porquê, dormir sem saber quando, ter de trabalhar naquilo que não gostamos; é tão difiícil mentir só p'ra agradar, baixar a cabeça, agradecer, agradecer sempre, morrer, pouco a pouco numa overdose de submissão; é tão difícil gostar do que vês ao espelho, as primeiras rugas, os cabelos esbranquiçados, a pele flácida, o sorriso forçado, os dentes caríados, o corpo mole, um dia a mais que ontem e os sonhos recentes há muito perdidos no vazio imenso de quatro paredes de tinta suja, já escassa. Onde páram eles?, os amigos mesmo amigos, as promessas que ficaram por cumprir adiadas, a ambição, a esperança e a fé? Onde pára o sorriso?, esse, que sem saberes enchia de luz o breu intenso dos meus dias soturnos e tristes. É tão difícil acordar, caír, assentar os pés no chão, quando toda a vida sempre andámos de cabeça nas nuvens, ideias ao vento e asas nas mãos!


OUT03

sexta-feira, dezembro 02, 2005

PENSAMENTO DO DIA

UMA GOTA NO OCEANO


Um calor que me incendeia
sucede às chuvas de Maio,
do granizo ao suor
que me lava até à alma.
Como se pudesse!...
Toma o céu tons de fogo
que se estende até à praia,
é tarde para salvar o Sol.
Esconde-se em densas trevas
onde dançam estrelas miúdas
no sussurrar da maré.
Sinto-me às vezes tão pequeno
... como uma gota no oceano.
1995

NOITE ESCURA

Noite escura, companheira vadia de velhas vielas e do frio nas costelas; plangem guitarras tristes, gemidos ardentes duma voz castiça, fado de canalhas e coristas; procuro num corpo aconchego e num corpo de meretriz poesia; nos ladrilhos da minha rua já não roda o pião, joga-se vida e morte, azar e sorte, esconde-se o ás; esposa fiel e amada em noite escura deitada nua noutra cama que não a sua; sobe a parada, uma bala perdida, ferida rasgada em peito aberto, vida roubada... desce o pano, vence a morte. Fosse minha doce sorte e meu medo menos forte, de morte matada mataria, de morte morrida morreria, do que envolto em noite escura, fugitivo sem qualquer destino. Houve um dia... todos nós fomos heróis, matámos índios, fomos cowboys, fomos polícias e ladrões, fomos crianças com ilusões.


1994

quinta-feira, dezembro 01, 2005

SEM COMENTÁRIOS

SEM TI

Sem ti sou um corpo cheio sem vazão,
um coração enfermo sem razão,
uma causa na gaveta esquecida,
um filho bastardo da desdita.
Sem ti sou um Che sem Cuba nem revolução
perdido à sorte p'las ditaduras da vida
como num beco escuro e sem saída,
um barco já sem remos, à deríva no mar
sem saber como amar, um velho tonto,
cansado, amargo, um ébrio céptico
nos braços duma ilusão, uma pedra
à toa p'lo chão
18ABR03

EM SEGREDO


Mentiria se dissesse que não me dá prazer olhar-te, observar-te em segredo, de soslaio, imaginar-te, os teus braços e as tuas pernas como amplexos, embrulhados nos meus braços, nas minhas pernas, as bocas síamesas, as línguas esfomeadas dum tesão sem travão, num duelo devasso p'lo sofá, p'lo chão da sala, numa cozinha mal-iluminada, p'los lençóis anelantes de uma cama desarrumada, bandeira branca que tu ergues, desfraldada, querúbinica musa qu'ao poeta se entrega entre odes, suspiros e estrofes. Invento-te, uma e outra vez no deleite de uma febre que me consome, no lânguido roçagar da tua nudez na minha tez. Calo-te do meu corpo frio, duma memória ainda quente onde sem saber estiveste presente; calo-me das mãos suadas e da ausência do teu corpo no meu, da guerra que ninguém venceu. Em segredo, largo um beijo húmido no vazio do teu sexo.

5JAN03

TENHO UMA CANETA

Sou um amante de amores imperfeitos,
um náufrago à beira da praia, afogado;
não tenho bandeira, não tenho namorada,
tenho uma caneta, invento amor.
Sou um rebelde sem causa, sem arma
e com palavras carregadas de fel
com que a pena pinta a minha vida.
Não tenho metas, não busco compromissos,
tenho uma caneta e invento a minha história.