sexta-feira, junho 03, 2016

FEIOS, PORCOS E MAUS... E AINDA POR CIMA DESDENTADOS (ou uma viagem do Portugal profundo ao Brasil dos morrtos e favelas, passando pela lua até à India)

Num comentário ao que de mais relevante me marcou esta semana começo pelas mais de três dezenas de selvagens que violaram uma jovem de 16 anos no Brasil e não satisfeitos, ainda publicaram o vídeo da sua façanha (?) nas redes sociais. Já as habituais vozes se levantaram a dizer que foi consensual, que a rapariga agira ou vestia de forma a instigar tal comportamento repugnante e ultrajante, mas que não é mais do que um daqueles crimes sem perdão para os quais qualquer castigo por mais doloroso será sempre pouco. Afinal que mundo é este que trata as mulheres como objectos sexuais, como se fossem seres de segunda e não merecedores dos mesmos direitos e respeito que os homens? Evoluímos, dizem alguns, deixámo-nos dos preconceitos e falsos moralismos do passado, inventámos a roda e a matemática, aprendemos a diferença entre o certo e o errado, fomos à lua. Então o que motiva comportamentos como estes? Não somos selvagens só porque nunca vimos o mar ou sentimos a neve no rosto ou por sermos desdentados. Não somos melhores ou piores por termos educação, mais ou menos dinheiro, por sermos brancos ou negros, homens ou mulheres. Natureza humana? A verdade é que à primeira tentação damos primazia aos nossos instintos mais básicos e selvagens como se ainda vivessemos em cavernas fazendo fogo com dois pedaços de madeira. Deve a mulher em alternativa deixar de se cuidar, tapar-se até ao pescoço, esconder as formas porque de outra forma estará a incentivar a violação? Mas o piropo é que é crime. Envergonhem-se os senhores da justiça e do progresso! Não pode uma mulher entrar num autocarro repleto de homens sem correr o risco de ser violada ou assassinada? Homem que é Homem não se deixa guiar pelo instinto, não bate na mulher, não impoe a sua vontade contra a vontade alheia, não viola, não se escuda em acções injustificadamente incontroláveis para satisfazer desejos egoístas. Que sociedade é esta sem moral, tão depravada, conspurcada por um desejo insaciável de ambição, de corrupção, de direitos isentos de deveres, de uma sede egoísta de poder que não vê limites e que continua a passear-se incólume e sem remorsos sobre um mar imenso de crimes hedíondos e pecados atrozes, enquanto as beatas criticam decotes junto ao altar.

terça-feira, março 15, 2016

UMA TORRE SUECA EM PARIS


 Zlatan Ibrahimovic não é apenas um jogador de futebol. Não tanto amado mas admirado por muitos e odiado por outros tantos, o sueco é uma das personalidades mais egocêntricas do mundo do desporto e não só. Mas são as suas qualidades técnicas, enormíssimas como o seu ego que dão realce às suas palavras, exageradas ou não, mas que não poem em causa um craque a que apenas o duelo duradoiro Messi-Ronaldo tem ofuscado injustamente o brilho enorme deste jogador de 34 anos. Ibra ainda não recebeu uma Bola de Ouro, mas isso pouco importa, pois o seu talento ficará na história do futebol para a imortalidade, diga ele o que disser. O PSG acabou de ganhar mais um título, mas isso é irrelevante de tão normal, como os quatro golos marcados, quando comparados com a resposta à pergunta se continuará em Paris na próxima temporada. "Se substituírem a Torre Eiffel por uma estátua minha fico no Paris Saint-Germain", respondeu.

 Não é a primeira vez que Zlatan dá largas ao seu ego do tamanho do mundo - o que em Ronaldo muitos descrevem como realismo no sueco é uma afronta. O patriotismo muitas vezes tem destas coisas e o coração prevalece tantas vezes sobre a razão. Para mim são três jogadores (sueco, português e argentino) são jogadores ímpares. Mas ficam outras outras palavras de Ibrahimovic para a história:

"Wenger pediu-me para que passasse por um período de testes no Arsenal, aos 17 anos. Recusei. Zlatan não precisa de testes" (sobre a transferência falhada para o Arsenal).

"Não preciso da Bola de Ouro para saber que sou o melhor. Isso importa mais para alguns jogadores" (Sobre nunca ter ganho a Bola de Ouro).

"Não havia lugar para uma personalidade como a minha no pequeno mundo de Pep Guardiola" (sobre a sua relação conturbada com Guardiola).

"Um Zlatan lesionado é algo muito sério para qualquer equipa".

"Uma coisa é certa: O Mundial de futebol sem mim não merece ser vista. Então nem vale a pena ficar à espera [da Copa do Mundo 2014]" (sobre o falhanço da Suécia em apurar-se para o Mundial2014).

"Ibrahimovic, qual é o presente ideal de aniversário para a sua mulher? Nada, ela já tem Zlatan" (sobre o Dia dos Namorados).

"Quem vai ganhar o jogo: Suécia ou Portugal? Só Deus sabe. É difícil perguntar a ele? Porquê? Saiba que está o olhar para ele agora (conferência de imprensa antes do empate com Portugal, no play-off de acesso ao Mundial2014).

"Gay? Venha até a minha casa e vai ver se sou gay. E traga a sua irmã também" (questionado sobre um abraço mais ternurento a Piqué, no Barcelona).

"Se Rooney ainda quiser sair [do Manchester United], peço-lhe para vir [para o PSG]. Terá que se acostumar com o facto de Zlatan marcar mais golos do que ele".

"Marco muitos golos difíceis de reproduzir. Estes são os tipos de golos que elevam os espíritos das pessoas (aquando da sua passagem pelo AC Milan).

"França é um país de m..."

"Coloquei a Suécia no mapa do futebol mundial e agora fazer o mesmo com a França" (Quando chegou ao PSG).

"E então Guardiola começou a filosofar mas eu nem sequer estava a ouvir. Porquê tinha de ouvir? Era qualquer coisa sobre sangue, suor e lágrimas" (aquando da sua passagem pelo Barcelona).

"Não acho que se possa marcar golos tão espetaculares quanto os de Zlatan em videojogos".

Entretanto, via twitter, a Torre Eiffel "respondeu":  "Gosto muito do teu sentido de humor Ibrahimovic. A vista de Paris é muito bonita daqui... mas a torre sou eu.

domingo, setembro 06, 2015

FILHOS DA GUERRA - ANJOS CAÍDOS



 I

Podia começar por falar em destino, mas o destino não tem nada a ver com isto. Nem o destino nem a sorte ou o azar de ter nascido na Síria, no Iraque, na Palestina, como na Bósnia ou na Ucrânia, etc etc etc. Continuo a pensar que o destino somos nós que fazemos e esta criança não teve tempo para sonhar, muito menos para fazer fosse o que quer que fosse com a sua vida. Ninguém planeia morrer aos três anos numa praia da Turquia... ou noutra qualquer. Aylan é um de tantos filhos da guerra, anjos caídos, uma das mais recentes e provavelmente a mais mediática vítima entre os refugiados de mais um dos inúmeros conflitos que assolam este nosso planeta azul, que, tal como a lua é cada vez mais - e apenas - bonito e inspirador se visto ao longe. Não que o nome interesse. Não interessa nesta idade como não interessará aos vinte anos, assim como no ocaso de uma vida "normal", para lá dos 70's. No fundo, só importa aquilo que fazemos. Nós não escolhemos o nosso próprio nome, não escolhemos ser bonitos ou feios, altos ou magros, louros ou morenos, de olhos azuis ou castanhos. Também não escolhemos ser homens ou mulheres, brancos ou pretos, europeus ou americanos, árabes. E no entanto sabemos como esse destino em que não acredito está tão interligado à importância dita menor destes detalhes que de pormenores nada têm. Pormaiores, talvez. Ninguém escolhe nascer no meio da guerra ou da fome. Aylan não teve nas suas mãos o poder da escolha, aquilo que realmente importa que é o que fazemos da vida. Cada escolha, cada decisão, leva-nos ao que queremos ser e fazer pelos outros, por um mundo melhor ou pior, faz-nos ser bons ou maus, cair e levantar, deixar uma marca, memórias, vivermos para além da nossa existência física. Este menino a quem a infância - muito provavelmente limitada e atribulada - foi roubada em tão tenra idade não teve tempo para muito, porventura para brincar tampouco, mas a sua imagem largado das águas naquela praia da Turquia, para lá de qualquer questão moral, poderá ajudar a mudar consciências, a sensibilizar todos aqueles que podem mudar - todos nós - muito ou pouco, sendo que o pouco é melhor do que o desagrado geral das vozes que protestam e dos braços que se quedam invariavelmente cruzados sem nada fazerem porque podem pouco. O mundo não evoluiu com um cruzar de braços, a roda e o fogo não nasceram da inércia. Não basta ficarmos chocados a assistir enquanto milhares de Aylan's vão desperdiçando as suas vidas escorraçados de suas próprias casas, ao sabor das balas, da violência e do ódio, para longe das suas raízes à procura de um futuro cujo prazo de validade seja superior a três anos. Será que a humanidade atingiu um ponto em que continua a ser normal criar barreiras, hostilizar, discriminar tudo o que nos é diferente, pessoas, religiões, ideias? Será que após anos e anos de "evolução" continua a imperar o espírito das cruzadas, dos campos de concentração para aqueles que não são de raça pura, a perseguição das bruxas pela inquisição, o klu klux klan? Se o amor, o respeito e a compreensão são palavras vãs deveria ser proibido nascer nos países em guerra...

quinta-feira, janeiro 09, 2014

DOS CHEIROS E SONS DA ESCRITA

 
Já não escrevo como escrevia, pensei, após meia dúzia de linhas escritas quase à pressa. Faltam-me os cheiros como me faltam os sons, do que antes parecia uma obrigação e era apenas prazer, necessidade. Bate-me hoje forte a saudade de escrever directamente na folha branca ou, como mais tarde o fazia, do martelar sincronizado das teclas da máquina de escrever, de ver cada folha por mais alva tingir-se, não de palavras, mas de sentimentos, de sonhos desfeitos pelo tempo, de sonhos a tempo de serem bem mais que sonhos, de esperança, riso e lágrimas, de vida, umas vezes vivida, outras... apenas pensada.

terça-feira, dezembro 31, 2013

FELIZ 2014

Não é que o ano de 2013 tenha sido muito mau para mim - exceptuando a crise e todas as roubalheiras inconstitucionais de que não apenas eu, mas todos nós temos sido alvos - mas a verdade é que a vida é uma estrada de sentido único em que parar é ficar irremediávelmente ultrapassado. Sigamos pois em frente, na vida, nos sonhos, na interminável luta pela felicidade, de partilhas diárias, de pequenas mas significativas conquistas que nunca devem ser deixadas para um amanhã tantas vezes apenas imaginado. Sonhem como se fossem viver para sempre, vivam como se morressem amanhã, disse James Dean num iluminado momento da sua curta existência ou, por outras palavras, mais vale um ano feliz, intenso do que uma vida longa com a felicidade a duodécimos, emocionalmente controlada, despida de vida vivida, plena de sonhos que ficam irremediavelmente por concretizar num porvir que nunca mais chega ou chega tarde. A época é de desejos pessoais ou não, de consumo ou não, feitos daquela massa tantas vezes repetida de amor, riqueza e saúde das quais não sou excepção. Não precisamos de muito para sermos felizes - que se pode oferecer a quem tem quase tudo? Quero tudo isso, para mim e para os meus, quero um trabalho estável com um ordenado que não diminua de mês a mês, quero tempo para ser e fazer os meus mais felizes, tempo para amar - ainda mais -, e dinheiro - o suficiente - para que não só eu como os meus, familiares e amigos, todos no geral possamos ter um ano muito melhor do que 2013. Não me fico por aqui no que aos desejos diz respeito, quero emagrecer, ver o Sporting campeão, ver mais filmes do que vi este ano e outros - daqueles que temos receio de pronunciar em voz alta com medo que não se concretizem, e que não são menos prioritários do que os outros. E como o novo ano se aproxima a passos largos, indiferente às minhas extensas divagações termino desejando um bom e feliz ano de 2014 ou como diria um velho e saudoso jornalista: Façam o favor de ser felizes.

quinta-feira, março 28, 2013

DE SÃO E DE LOUCO...


qual será a nossa verdadeira natureza?
Hoje, recordei aquela antiga teoria de que qualquer um de nós pode matar outra pessoa, associando-a a histórias como a de Jekyll and Hyde e tantas outras, verosímeis ou não que nos deixam sempre de boca aberta, tal a capacidade do Homem em espantar-nos com atitudes indignas mesmo do nosso antepassado e primitivo habitante das cavernas. Seremos essencialmente bons ou maus? Qual será a nossa verdadeira natureza, os nossos instintos mais latentes? Nos Estados Unidos, uma mãe matou o próprio filho, de três meses, porque o choro da criança estava a incomodá-la, enquanto jogava ao Farmville. Ela confessou às autoridades ter abanado o bebé, fumando um cigarro em seguida, na tentativa de se acalmar, mas tornando a abaná-lo até ao desfecho fatal. Talvez seja mesmo verdade que qualquer um possa matar, como até roubar. Experimentem ter uma família sem recursos de subsistência, perderem o trabalho, verem os filhos doentes, chorando com fome... Uma das consequências do agravamento do poder de compra e de uma crise cujo fim não se vislumbra - antes pelo contrário - será, certamente, fazer aumentar a criminalidade. Simples lógica dedutiva. Matar não será acto de uma sequência tão racional - na maior parte das vezes -, obedece sobretudo a motivações, fruto de um instante, de uma loucura que nos tolda os sentidos e nos traz à flor da pele os impulsos mais irracionais e primitivos, que julgávamos não existirem, depois de anos e anos de evolução e educação. Culpar o Facebook e os seus jogos soa-me a uma desculpa tão frágil como associar a criminalidade à violência dos filmes. Resta sempre o stress, tão conveniente para justificar todas as nossas emoções mais instáveis, as fúrias súbitas, o mau humor e a falta de paciência, a luta diária por uma vida - ou sobrevivência - pelo menos no limiar da dignidade. Sei que os dias parecem cada vez mais curtos, independentemente da mudança da hora que aí vem, que o tempo que temos se transformou numa corrida diária, de tarefas cronometradas ao segundo. São os transportes,  as relações, as refeições já sem a família toda junta, sem tempo sequer para nos sentarmos, o fast-food, o fast-fuck, a televisão a silenciar o diálogo, os relógios de ponto e o medo do futuro, tudo num ritmo vertiginoso - time is money - como uma volta num carrocel que teima em não parar, onde qualquer descuido, qualquer falta de atenção podem ser suficientes para um game over. Uma espécie de tortura psicológica, em que matar ou morrer chega a parecer para muitos natural e razoável, mesmo lógico. Não para mim. Natural, razoável é jogar um jogo na internet de vez em quando como forma de distracção, assistir a um bom filme, mas sem usar esses devaneios como uma concha onde nos escondemos e sentimos imunes e tantas vezes impunes, sem cair no vício de aí permanecermos horas e horas, especialmente quando há uma vida que tantas vezes nos passa despercebida, de pormenores, de convívio com pessoas reais, amigos, família, que não têm culpa do ritmo frenético, dos humores inconstantes e que não têm por isso de ser transformados em reféns de uma guerra interior, invisível, tendo de chorar ou preencher formulários por um pouco da nossa atenção e boa disposição. Um jogo não é mais do que isso mesmo, algo onde ganhamos ou perdemos, morremos e recomeçamos, onde temos a opção de carregar no pause de cada vez que quisermos. A vida não tem essa opção, por isso cada minuto conta tanto, cada minuto deve ser valorizado como um milagre, uma benção. Um passeio ao ar livre, uma ida ao cinema, um jogo de computador - em família, dialogar, amar, podem fazer muito mais por nós que uma embalagem de Valium ou de Xanax.

O MUNDO É UM DIA ATRÁS DO OUTRO...

... onde acordar, o simples facto de estar vivo pode ser o maior acontecimento do dia.


O despertador toca às 5h20 e apanha-o acordado desde as 5, fazendo tempo para se levantar, o que só acontece pelas 5h30, dia sim dia sim. Os breves rituais de limpeza não costumam exceder os 10/15 minutos, excepção para aqueles dias em que a máquina de barbear fica sem carga e o deixa mal-humorado, pelo inesperado da situação. Não gosta de surpresas. Às 5h50 está já fardado e pronto a sair de casa. As poucas pessoas que encontra pelo caminho são já caras conhecidas, embora não haja trocas de palavras entre eles. Ainda com tempo, toma o primeiro café da manhã no local do costume, passando a vista pelo jornal, o mesmo que compra desde que começou a ter dinheiro para as suas próprias despesas. O relógio de ponto responde com um inexpressivo "obrigado" à picagem de "entrada ao serviço", que espera vir a decorrer dentro da normalidade, de gestos que se repetirão durante as oito horas seguintes e que conhece já de cor, mesmo as reacções quase sempre imprevisíveis do chamado factor humano, mas que ele aprendeu a prever, como um bom psicólogo. Um bom dia de trabalho para um funcionário competente é aquele que não traz surpresas. O relógio volta a ditar as suas leis, quase ininterruptamente, porque tudo tem uma hora certa, mesmo o intervalo para a refeição, cronometrado quase ao segundo. Quase se deixa apanhar desprevenido pelo tempo para o lazer, maioritariamente partilhado pela família, que o obriga a fazer concessões a um descanso merecido mas constantemente adiado pela azáfama do lar. Quase sente saudades do trabalho. Ouve o telejornal, que, conjuntamente com aquilo que ouviu de amigos e colegas no trabalho, desconhecidos na rua e o relatório sobre as novidades da vizinhança, diariamente transmitidas pela esposa, vão formar a sua opinião, acostumado que está a tomar como verdade inquestionável tudo o que lhe dizem, tudo o que ouve. Pensar exige muito trabalho e tempo que não possui. Tem consciência dos poucos minutos que dedicou aos filhos, mas não quis incomodá-los enquanto gastavam largas horas do seu tempo lúdico em frente ao computador e à playstation, com os seus inúmeros amigos mais ou menos virtuais. Vai-se deitar pelas 23h00, sozinho, depois de um beijo rápido à esposa, que "agarrada" à televisão mal deu por ele. Durante a semana as telenovelas acabam mais tarde, pelo que a necessidade de descanso obriga a que só possa fazer sexo aos feriados e fins de semana, quando está de folga no dia seguinte ou uma rapidinha quando não está e nem dói a cabeça à Maria.
Há pessoas assim, fechadas no seu mundo perfeito, avessas ao pensamento próprio, às mudanças, às surpresas e aos sonhos, que provavelmente trariam desilusões. Quem não sonha dificilmente sofrerá, por não ter expectativas. Poderiam descrever os seus dias numa tabela, como num horário escolar em que cada disciplina obedece a um horário próprio; Pessoas para quem a vida é um jogo com princípio, meio e fim, onde depois de transpostos alguns níveis mais ou menos exigentes (infância, escolaridade, namoro, serviço militar, profissão, casamento, filhos), se protegem na saída fácil da rotina diária e sem surpresas, onde os maiores picos de excitação são as "discussões" sobre os resultados da bola, as peripécias das telenovelas ou o dia a dia de uma vizinhança com mil defeitos. Há pessoas assim, adormecidas em vida, daquelas que não fazem acontecer, adaptam-se simplesmente, deixam-se levar pela maré, um exército imenso de "yes man", pouco mais que máquinas, num mundo cada vez mais globalizado, a matar o génio, o livre-pensamento e a individualidade.

O PAPA DO POVO

Acho que o povo deve ser a melhor coisa já criada pelo Homem ou por qualquer Deus, uma força omnipresente em que raramente acredito, mas que mesmo assim não deixo de respeitar. Pelo menos, seria esse o meu pensamento se fosse um ser alienigena acabado de chegar a este nosso planeta azul, minado por revoluções, guerras. pobreza e fome, como se o povo - esse do qual te dizem Papa, seu representante - não fosse ele próprio constituido por homens e estes, como seres imperfeitos que são, não fossem movidos quase sempre por fartas pitadas de egoísmo e inveja e uma acentuada falta de carácter. Mas tu, Francisco, o primeiro, afável, de palavras bonitas e sonhos tão puros, quiçá ingénuos - o mesmo Francisco que tão bem se moveu nas areias movediças do regime opressor do ex-presidente argentino Jorge Rafael Videla -, és do povo, como antes fora Diana, pessoas ímpares de sentimentos nobres. Falas em mudança, um discurso semelhante ao de Obama antes da primeira eleição, como qualquer político antes de ser eleito, conhecedor exímio de todos os defeitos da sociedade e com o regaço cheio de ideais e boas intenções. "São rosas, senhor, são rosas". Discurso de oposição - chama-se -, em contraponto com o do governo, quem quer que esteja num como noutro. Foi sempre assim, Francisco, sempre será, a não ser que sejas o que pareces, característica pouco comum entre os homens. Quero com isto dizer que o Papa é um político? Não somos todos? E pior, economistas, uns piores do que outros. Somos quando fazemos opções, quando consumimos, a toda a hora. Não gostaria de te ver outro Pedro Mota Soares, tu sabes, aquele que entrou de mota e já se move num carro topo de gama, inacessível à maioria dos mortais. Será que também tu, Francisco, vais ceder , senão à luxuria do Vaticano, às exigências e interesses daqueles que realmente mexem os cordelinhos? Torço por ti, mas espero para ver. Quero acreditar, senão em Deus, em ti, num homem que não use máscaras de cada vez que se dirige a um seu semelhante, que não seja movido por outros interesses que não o amor ao próximo. Obama aprovou recentemente uma lei com a qual discordava, em nome dos interesses financeiros e ideológicos de uma América melhor. Contrapartidas, o sapo sempre difícil de engolir, o passo atrás antes dos dois em frente. Não foi a primeira vez, nem dele, nem de tantos outros políticos e cidadãos anónimos, vergados à impopularidade de tantas decisões difíceis e incompreendidas. Caro Francisco, não vai demorar a saber que é mais fácil prometer do que cumprir e que os sonhos são tão frágeis que até o vento os leva. Ao contrário do que diz a canção, não é o sonho que comanda a vida, mas o poder económico capaz de sustentar e erguer os sonhos de uns quantos, esse vil metal que sem ele os sonhos sucumbiriam como um castelo de areia à primeira onda mais agreste. Os políticos, patrões, banqueiros e afins são como nós, são homens, limitados pelas suas imperfeições e desejos, uns mais competentes do que outros, mas poucos com firmeza de carácter capazes de fazerem frente a um mundo capitalista, prático, insensato, imperfeito, onde só os fortes sobrevivem e os fracos padecem. Ingénuos esses poucos, curtas carreiras, trucidados sem dó nem piedade por uma máquina implacável despojada de sentimentos.


 Os milagres sobre cujos alicercers se ergue hoje a tua igreja são tão frágeis, tão inverosímeis como as soluções mágicas para acabar com a crise. Em que fé te baseias, Francisco? Um demagogo, um impostor ou um mágico, para nos resgatar a esperença perdida na humanidade? Não a mesma que tinhamos nas instituições financeiras, nos puros ideais políticos do socialismo ao comunismo, da social democracia, já tantas vezes conspurcados por mãos inábeis e mentes ávidas de poder. Não a mesma que tinhamos na amizade e na solidariedade, palavras vãs onde o respeito e a lealdade, a ética e a moral não têm mais lugar. Em que acreditar? Na cura para o cancro? No champô que vai acabar com a caspa, na lâmpada que não se gasta, no computador que não se avaria, no mecânico da oficina, no amor que não vai acabar? Líricos. Uma solução definitiva acaba com empregos e empresas. Quantos milhares de pessoas estão ligadas directa ou indirectamente a estas indústrias? Qual a repercussão que teria a descoberta da cura definitiva para a sida? Infelizmente, Francisco, vais descobrir que o preservativo salva, mas que ao fazê-lo está a originar um problema ainda maior que é o da sobrelotação, da escassez cada vez maior de alimentos e recursos naturais a que só as guerras ainda conseguem atenuar. Se soubesses quantos empregos são criados pela guerra, quanta gente que vive da morte... O mundo em que vivemos é um mundo hipócrita, que vive de mentiras, interesses e contrapartidas desde o aparecimento de Adão e Eva. Ninguém dá a outra face, ninguém poe a mão no fogo. Vivemos na corda bamba, na incerteza dos dias, cavando estradas com colheres de chá, usando máscaras para não nos tomarem por parvos, gritando de vez em quando só para sabermos que estamos vivos... e cada vez mais aflitos. Tu que viveste a ditadura de perto sabes que mais vale ser um cobarde vivo que um herói morto, que dar esmolas - mesmo quando temos os bolsos cheios - é melhor do que não ter nada para dar e que a melhor maneira de ajudar os pobres é não se tornando um deles.


Faz-me acreditar, Francisco, faz-me acreditar que ainda há esperança, que eu estou errado e tu estás certo.

sexta-feira, março 08, 2013

ADEUS PRESIDENTE

João Rocha já não está entre nós. Ele foi não só o primeiro Presidente do Sporting de que me recordo, mas também o melhor. Recordar João Rocha é recordar Manuel Fernandes, Jordão e Oliveira, Fraguito, Meszaros, Freire e tantos outros. É lembrar-me de títulos, do futebol ao atletismo de Lopes e Mamede, passando pelas noitadas gloriosas do hoquei, das modalidades. É recordar um Alison boémio e bonacheirão, um vencedor, os 3 a 0 ao Zagreb na noite mágica de Oliveira e de quando quiseram tirar a braçadeira ao Manel de sarilhos. Grande capitão, enorme a resposta naquela final da taça frente ao Braga com Quinito vestido a rigor e nos quatro golos ao eterno rival da luz. Outros tempos, grandes jogadores, grandes homens, grande Sporting, grande João Rocha. A ti o meu obrigado por tantos momentos felizes.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

PEDRAS NO CAMINHO

O caminho parece fazer-se de muitas pedras, muitos obstáculos, de tal ordem que o castelo que vou erguendo e a que chamo de vida se vai compondo, com os alicerces bem fortes, sólidos. Não é qualquer tempestade que o derruba. Nem que chovam pedras. Um dia ainda vou encará-los de frente, a esses que gostam de atirar as pedras e que se escondem sob as máscaras das leis e das percentagens, dos regulamentos e que de sentimentos nada sabem, não conhecem. A esses vou mostrar o meu castelo, o muito que se pode fazer com pouco e talvez comece a cantar também o Grândola Vila Morena.

domingo, janeiro 13, 2013

POTENCIALMENTE PERIGOSO

Este cão matou um menino de 18 meses, motivo pelo qual está agora preso, na antecâmara de uma morte anunciada. O cão, um pitbull terrier arraçado, é, mesmo antes de fazer qualquer coisa nesse sentido, considerado como uma raça potencialmente perigosa - culpado mesmo antes de ser julgado - pela justiça dos Homens. Este cão que em mais de meia dúzia de anos nunca teve um gesto ameaçador para ninguém, o que não evitou que lhe tivessem sido cortadas as orelhas e sabe-se lá que outras atrocidades lhe foram feitas. Matou, é certo, uma atitude condenável por todos e a cujo assunto também não fujo. Matou uma criança que durante a noite, às escuras, estava - não se sabe como nem porquê - no mesmo local onde o animal costumava estar e onde inadvertidamente assustou o cão ou foi confundido pelo mesmo como uma pessoa estranha e perigosa. Onde estavam os donos do animal, os familiares desta criança inocente de 18 meses naquela altura? Dizem que já tinham pensado em desfazer-se do bicho, bem antes, porque era velho, ou porque era grande.
Pergunto eu: E que tal abater também certas pessoas, desde assassinos a violadores, racistas, xenófobos, homens que maltratam mulheres e vice-versa, mães que abandonam filhos recém-nascidos, pessoas que maltratam animais e seus semelhantes e tudo sem ser pelo instinto de sobrevivência, apenas e só por prazer. E que tal desfazermo-nos dos velhos e de todos que um dia nos foram úteis e agora só nos estorvam, dão trabalho? Não o fazemos já? Haverá raça potencialmente mais perigosa do que o próprio Homem?

segunda-feira, dezembro 24, 2012

MAY ALL YOUR WISHES COME TRUE

O lADO B DA VIDA e restantes blogues do autor desejam a todos os visitantes e amigos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, com muita paz e amor, saúde e prosperidade. Que neste 2013 consigam apelar à imaginação - crise a quanto obrigas - e vontade, de modo a serem (ainda mais) felizes, realizarem os vossos sonhos e dos vossos entes mais queridos, pois o trajecto não tem necessariamente de se fazer de paus e pedras, raiva e lágrimas. Vivam, ousem, desafiem e sejam muito, muito felizes. Um grande abraço deste vosso amigo.

segunda-feira, novembro 26, 2012

UM HOMEM DE IDEIAS

José Rodrigues dos Santos é, não só um excelente profissional de televisão como também um conversador entusiasmante e uma pessoa extremamente lúcida nas suas opiniões sobre tudo o que o rodeia. Hoje, na apresentação do seu novo livro, A Mão do Diabo, num diálogo bastante interessante com Manuel Luis Goucha, o também escritor deixou várias ideias que revelam o seu modo de ver a política nacional e internacional, sabendo evitar as normais posições radicais, mas guardando uma certa distância que lhe permite defender um lado mas também compreender as demais opções com as quais pode ou não concordar, reservando-se de um sentido crítico por vezes acutilante mas sereno. Defende ele que, ao contrário da maioria, não acha que baixar os salários aos políticos seja a melhor maneira de resolver os problemas, pois quem gere tanta riqueza e responsabilidade deve ganhar bem, de forma a não ser - como são - tantas vezes tentados por uma corrupção, descrita no seu livro e onde segundo as suas palavras, certamente os nossos políticos se revêm, de forma activa ou passiva. A solução estará então em aumentar os vencimentos do povo. Outro aspecto importante no seu livro e nas suas palavras estará na vontade ou falta dela, que a justiça tem em encontrar os verdadeiros culpados da actual crise, não pela dificuldade de tal empresa, mas precisamente pelo medo de os encontrar. Estas apenas algumas das ideias de um homem, profissional de televisão, escritor, crítico, um observador do mundo que sabe o que diz e vale a pena ouvir, concorde-se ou não.

quarta-feira, novembro 07, 2012

OCASIONALMENTE

Ocasionalmente... rimos,
temos prazer quando sóbrios, fazemos sentido,
somos criativos, construímos,
sonhamos mas também agimos.
Ocasionalmente fazemos dieta, ginástica,
aprendemos, celebramos,
temos dias, datas marcadas, damos,
somos quem realmente somos,
quem queremos ser.
Ocasionalmente damos beijos, abraços, carícias,
dizemos "amo-te", "obrigado" e "desculpa",
gostamos da imagem reflectida no espelho,
Ocasionalmente somos pais, filhos,
casais e amantes, irmãos,
gente que sente, humanos.
Ocasionalmente fazemos amor,
não apenas sexo, pensamos, agimos,
procuramos o certo,
somos solidários, partilhamos.
Ocasionalmente, mais do que respirar, vivemos.
Ocasionalmente... nem sempre.

domingo, outubro 07, 2012

VIRADOS DO AVESSO

Realmente, não sei como ainda me surpreendo com o estado a que chegaram as coisas não só em Portugal, como na Europa e não só, ao nível da política, do estado social, como ainda das mentalidades. Está tudo virado do avesso, à imagem da bandeira que tanto nos diz, hasteada negligentemente por duas pessoas com tão altas altas responsabilidades e que não tão poucas vezes primam por meter os pés pelas mãos. Mas não é apenas o mau presságio e a pulga atrás da orelha que fica de cada discurso de Passos Coelho, ou o efeito xanax dos monólogos de Vitor Gaspar, de consequências tão terríveis e funestas como o atentado de hiroshima, que me trazem hoje preocupado como ainda revoltado. Grandes poderes trazem sempre grandes responsabilidades, mas infelizmente, aqueles que têm o poder e a disponibilidade dos meios de comunicação pecam na maioria dos casos por não servirem de exemplo a ninguém, deixando no ar a ideia de que o barco em que o nosso futuro navega anda à deriva, no completo desnorte daqueles que mandam por mandar, cegos a alternativas que não sejam as suas ideias egocêntricas e quase sempre infrutíferas como tiros de pólvora seca. Tiros no pé, foram dados aqui tão perto de nós, por um conselheiro do governo espanhol, de 71 anos, que disse apenas esta pérola de sabedoria: "As mulheres são como as leis, foram feitas para serem violadas". Meu caro José Manuel Castelao Bragaño, permita-me, num dos poucos direitos adquiridos que ainda não nos foram espoliados, o da liberdade de expressão, afirmar que o senhor é um ignorante, e que o facto de ter apresentado demissão pouco depois destas afirmações de nada lhe vale nem limpa a nódoa da verborreia de que foi acometido em tão infeliz momento. Meu caro senhor, em 2012, nos antípodas da idade da pedra e dos instintos mais básicos, as pessoas regem-se por regras, usam as palavras como armas e cospem nas violações, de leis, mas principalmente de mulheres. Por onde andou enquanto o mundo evoluía?

quarta-feira, setembro 05, 2012

MORRER POR AMOR?


MORRER POR AMOR?


"A Millionaire's First Love" é o título de um drama sul-coreano, daqueles que deixam os nossos olhos marejados de lágrimas rebeldes, por mais insensíveis que queiramos parecer. É a típica história do rapaz rico e da rapariga pobre, que a princípio parecem não encaixar mas que acabam inevitavelmente por se apaixonarem. Como é previsível neste tipo de filmes, o final feliz encalha sempre num "mas", cujo fundamento costuma ser o de fazer o filme render durante hora e meia a duas horas. Geralmente esse "mas" é um terceiro elemento, o terceiro vértice de um triângulo amoroso. Não nesta história. Quando tudo parecia ter tudo para dar certo, descobrimos que a rapariga doce e frágil sofre de uma doença incurável e que as emoções fortes, como amar, podem apressar o seu trágico destino. É aqui que eu quero chegar, apesar do filme valer por muito mais do que apenas isto. Quanto vale a vida? Quanto vale um grande amor? Deveria o rapaz apostar tudo no sentimento que, unindo-os, iria acabar irremediavelmente por separá-los precocemente? Com que direito? Deverá o amor ser tão egoísta, ao ponto de se sobrepor à própria vida? E de que vale a vida se tivermos de abdicar dos sentimentos? Na ficção como na realidade, são muitos os casos de quem sacrifica a sua vida por amor, de quem abdica da sua felicidade em troca da felicidade da pessoa amada, mas será essa extrema demonstração de altruísmo ainda válida nos dias de hoje? Morrer por amor, como se não houvesse nada mais importante na vida. E matar? Será sensato ou sequer legítimo - e já não falo das mortes por ciúmes ou apenas baseadas em leves suspeitas - amar, mas amar de tal forma intensa, mesmo sabendo que, como no caso do filme, esse amor irá abreviar a vida de quem amamos mais do que a nós mesmos? Quanto vale a vida? Quanto vale o amor? Ficar ou partir, matar ou morrer (por não poder amar). Muito mais conhecido do que este filme é "A Walk To Remeber", baseado no romance de Nicholas Sparks, onde a filha do pastor de uma pequena cidade ajuda o protagonista a ensaiar para uma peça, na condição de que ele não se apaixone por ela, que sofre de leucemia e que, acaba numa corrida contra o tempo, de modo a conseguir concretizar todos os sonhos dela antes de morrer. Será amar então mais importante do que - não diria viver, mas antes sobreviver? Francisco Moita Flores disse o seguinte: "...a morte é a ausência do beijo, do abraço, do toque, do cheiro de uma pessoa...".


E eu assino por baixo. De que vale uma vida longa se o amor nos for negado?
 
(retirado de um texto meu em A Voz das Palavras)

Porque está triste Cristiano Ronaldo?

Numa altura em que a preocupação dominante de boa parte dos portugueses continua a ser o porquê da tristeza de Cristiano Ronaldo, deixo aqui uma imagem que, à semelhança de milhares de outras me preocupa verdadeiramente, enquanto nos deixa a quase todos indiferentes ou incomodados pela proximidade. AS fome, o desemprego, a miséria, a doença... A dor do Manuel, a tristeza do João ou da Maria não nos oferecem tanto mistério nem dão azo a grandes manchetes nos jornais, mas isso é apenas o reflexo preocupante das prioridades de muitos de nós.
 



terça-feira, abril 24, 2012

ONTEM, HOJE E AMANHÃ

"Ontem eras a menina mais alegre e mais bonita que eu já conheci"

Nasci antes do 25 de Abril de 1974, não muito. Não tanto que me possa recordar de quaisquer factos que se tenham passado naqueles dias tão importantes para a nossa história, que me permitam dizer com maior ou menor exactidão onde estava eu no 25 de Abril de 1974. O que sei, aprendi nos livros da escola e naquilo que fui perguntando aos meus pais e a conhecidos que viveram de perto esses dias. Quis saber o que sentiram, da importância, da razão das lágrimas nos olhos, da alegria e da tristeza, da luta sem sangue derramado por um futuro que me parece sempre adiado, cada vez mais escondido numa gaveta esquecida lá no Palácio de São Bento, tão presente nas minhas memórias, não pouco o tempo que passei numa casa dum prédio situado mesmo em frente, com uma vista privilegiada, que fomentava os meus sonhos do menino que fui... ontem. Do pouco que sei e do muito que ouvi, sei da cor viva de um País renascido, dos ideais de esperança de um povo até aí como o fado, cinzento e triste. A Revolução, os cravos, os militares que resgataram a crença em amanhãs melhores, são tudo imagens que fazem parte das minhas memórias. Foi bonita a festa, pá! Da opressão e da censura, da pide e do homem que governava sozinho até à tão ansiada liberdade foi um passo bem maior que o dado por Neil Armstrong em solo lunar, mas não menores em importância. Os militares libertaram um país descrente, os políticos tomaram o poder e criaram a democracia, a liberdade de expressão, deram-nos direitos e um motivo para sonhar. Ontem, o país tinha finalmente uma face alegre e bonita, resplandecente. Depois, não muito, entre os vivas à democracia e os feitos dos heróis recentes, já se ouviam alguns queixumes - não se confunda com nostalgia, mas queixumes - de que o país das maravilhas de Alice não era assim tão maravilhoso, nem o futuro uma estrada radiosa, sem sobressaltos. Quais velhos do Restelo, sussurravam já não entredentes como no antigo regime: "antigamente... antigamente havia trabalho para quem queria trabalhar, o pouco que se ganhava dava para comprar mais do que se compra hoje, havia agricultura e pesca, e até a comida tinha outro sabor. O Benfica e o Sporting ganhavam mais campeonatos." O país que era governado por um ditador estava agora dividido nas teias do poder político, entre a direita e a esquerda, norte e sul, poder e oposição, numa guerra onde o povo - pelo qual se fez a revolução - estava sempre ou quase sempre à margem, excepto nas campanhas eleitorais, nas promessas já tão gastas de tão repetidas, enquanto as nossas riquezas e recursos eram delapidados. Amanhã comemora-se uma vez mais uma festa que devia ser de todos, mas especialmente do povo, a consagração de tantas conquistas que nesse dia e nos seguintes se fizeram, mas o presente já não é tão colorido como ontem e o futuro é sombrio, carregado de medos e incertezas. Onde páram os ideais de 74, agora que até as suas figuras proeminentes se afastam das comemorações oficiais? Haverá ainda algum Salgueiro Maia, algum D.Sebastião renascido das brumas que nos devolva a esperança e tudo aquilo por que lutámos e um dia conquistámos? Onde pára a esperança de um amanhã melhor, um futuro para nós e para os nossos filhos?

sábado, novembro 05, 2011

Tive nestes últimos dias o prazer de ver pela primeira vez 36- Anti-corrupção, filme de 2004, de Olivier Marchal, conhecido ainda por ter realizado MR 73 e ter participado como actor não apenas nestes filmes como ainda em Diamant 13 e Não Digas A Ninguém, filmes que marcam o novo cinema francês de acção. Este 36 é um polícial que encontra referências nos conhecidos Heat ou mesmo Cop Land, com a corrupção e jogos de poder entre os polícias. Com uma dupla de peso como protagonistas, Daniel Auteuil e Gerard Depardieu, este filme tem todos os ingredientes para nos prenderem ao ecrã durante quase duas horas, nada entediantes. Uma boa surpresa, num cinema ainda não muito ou valorizado entre nós.

segunda-feira, junho 06, 2011

MUDANÇA

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
 
 
Mudança... de hábitos, de vontades, de ideias e de gente, imprevistas ou calculadas, mais ou menos radicais, irrefletidas ou mais ponderadas e conscientes, a nossa vida segue ao ritmo das mudanças. A insatisfação inerente ao Ser humano, a sua ambição, o fazer face às próprias necessidades ou simplesmente confortos induziram desde os primórdios dos tempos a uma mudança tão benéfica como tantas vezes perigosa. Recordemos que a pólvora não foi inventada para fins bélicos, por exemplo.
Muitas coisas mudaram desde a última vez que aqui vim. Ganhos e perdas, foi, é, será sempre assim e cabe a nós saber conviver com o resultado das nossas acções, das nossas escolhas. Acredito que fiz o melhor, o que nem sempre sucede, apesar das intenções serem sempre as melhores. De boas intenções - soi dizer-se - está o inferno cheio. Os dias parecem agora correr de forma mais célere embora mais preenchidos, plenos de vida, duma felicidade até agora desconhecida,  própria das coisas seguras, de certezas e planos que são agora mais que sonhos, realidades.
Ontem, o País - ou uma parte não muito significativa que apesar da descrença nos políticos e na crise insiste em ter fé numa eventual mudança - foi às urnas num dia mais convidativo para um passeio à praia, a fim de escolher um novo Primeiro-Ministro, e, ao contrário dos últimos actos eleitorais, a mudança foi inequivocamente a vontade da maioria. Do acerto da escolha só o futuro o dirá, na certeza absoluta de que tempos difíceis se aproximam, de um esforço que a todos, sem excepções, deveria ser exigido e que sabemos de antemão não ser bem assim. A tradição, em muitos casos, ainda é o que era, e há coisas que não mudam nunca, apesar da vontade e das boas intenções das pessoas.