quinta-feira, março 28, 2013

DE SÃO E DE LOUCO...


qual será a nossa verdadeira natureza?
Hoje, recordei aquela antiga teoria de que qualquer um de nós pode matar outra pessoa, associando-a a histórias como a de Jekyll and Hyde e tantas outras, verosímeis ou não que nos deixam sempre de boca aberta, tal a capacidade do Homem em espantar-nos com atitudes indignas mesmo do nosso antepassado e primitivo habitante das cavernas. Seremos essencialmente bons ou maus? Qual será a nossa verdadeira natureza, os nossos instintos mais latentes? Nos Estados Unidos, uma mãe matou o próprio filho, de três meses, porque o choro da criança estava a incomodá-la, enquanto jogava ao Farmville. Ela confessou às autoridades ter abanado o bebé, fumando um cigarro em seguida, na tentativa de se acalmar, mas tornando a abaná-lo até ao desfecho fatal. Talvez seja mesmo verdade que qualquer um possa matar, como até roubar. Experimentem ter uma família sem recursos de subsistência, perderem o trabalho, verem os filhos doentes, chorando com fome... Uma das consequências do agravamento do poder de compra e de uma crise cujo fim não se vislumbra - antes pelo contrário - será, certamente, fazer aumentar a criminalidade. Simples lógica dedutiva. Matar não será acto de uma sequência tão racional - na maior parte das vezes -, obedece sobretudo a motivações, fruto de um instante, de uma loucura que nos tolda os sentidos e nos traz à flor da pele os impulsos mais irracionais e primitivos, que julgávamos não existirem, depois de anos e anos de evolução e educação. Culpar o Facebook e os seus jogos soa-me a uma desculpa tão frágil como associar a criminalidade à violência dos filmes. Resta sempre o stress, tão conveniente para justificar todas as nossas emoções mais instáveis, as fúrias súbitas, o mau humor e a falta de paciência, a luta diária por uma vida - ou sobrevivência - pelo menos no limiar da dignidade. Sei que os dias parecem cada vez mais curtos, independentemente da mudança da hora que aí vem, que o tempo que temos se transformou numa corrida diária, de tarefas cronometradas ao segundo. São os transportes,  as relações, as refeições já sem a família toda junta, sem tempo sequer para nos sentarmos, o fast-food, o fast-fuck, a televisão a silenciar o diálogo, os relógios de ponto e o medo do futuro, tudo num ritmo vertiginoso - time is money - como uma volta num carrocel que teima em não parar, onde qualquer descuido, qualquer falta de atenção podem ser suficientes para um game over. Uma espécie de tortura psicológica, em que matar ou morrer chega a parecer para muitos natural e razoável, mesmo lógico. Não para mim. Natural, razoável é jogar um jogo na internet de vez em quando como forma de distracção, assistir a um bom filme, mas sem usar esses devaneios como uma concha onde nos escondemos e sentimos imunes e tantas vezes impunes, sem cair no vício de aí permanecermos horas e horas, especialmente quando há uma vida que tantas vezes nos passa despercebida, de pormenores, de convívio com pessoas reais, amigos, família, que não têm culpa do ritmo frenético, dos humores inconstantes e que não têm por isso de ser transformados em reféns de uma guerra interior, invisível, tendo de chorar ou preencher formulários por um pouco da nossa atenção e boa disposição. Um jogo não é mais do que isso mesmo, algo onde ganhamos ou perdemos, morremos e recomeçamos, onde temos a opção de carregar no pause de cada vez que quisermos. A vida não tem essa opção, por isso cada minuto conta tanto, cada minuto deve ser valorizado como um milagre, uma benção. Um passeio ao ar livre, uma ida ao cinema, um jogo de computador - em família, dialogar, amar, podem fazer muito mais por nós que uma embalagem de Valium ou de Xanax.

O MUNDO É UM DIA ATRÁS DO OUTRO...

... onde acordar, o simples facto de estar vivo pode ser o maior acontecimento do dia.


O despertador toca às 5h20 e apanha-o acordado desde as 5, fazendo tempo para se levantar, o que só acontece pelas 5h30, dia sim dia sim. Os breves rituais de limpeza não costumam exceder os 10/15 minutos, excepção para aqueles dias em que a máquina de barbear fica sem carga e o deixa mal-humorado, pelo inesperado da situação. Não gosta de surpresas. Às 5h50 está já fardado e pronto a sair de casa. As poucas pessoas que encontra pelo caminho são já caras conhecidas, embora não haja trocas de palavras entre eles. Ainda com tempo, toma o primeiro café da manhã no local do costume, passando a vista pelo jornal, o mesmo que compra desde que começou a ter dinheiro para as suas próprias despesas. O relógio de ponto responde com um inexpressivo "obrigado" à picagem de "entrada ao serviço", que espera vir a decorrer dentro da normalidade, de gestos que se repetirão durante as oito horas seguintes e que conhece já de cor, mesmo as reacções quase sempre imprevisíveis do chamado factor humano, mas que ele aprendeu a prever, como um bom psicólogo. Um bom dia de trabalho para um funcionário competente é aquele que não traz surpresas. O relógio volta a ditar as suas leis, quase ininterruptamente, porque tudo tem uma hora certa, mesmo o intervalo para a refeição, cronometrado quase ao segundo. Quase se deixa apanhar desprevenido pelo tempo para o lazer, maioritariamente partilhado pela família, que o obriga a fazer concessões a um descanso merecido mas constantemente adiado pela azáfama do lar. Quase sente saudades do trabalho. Ouve o telejornal, que, conjuntamente com aquilo que ouviu de amigos e colegas no trabalho, desconhecidos na rua e o relatório sobre as novidades da vizinhança, diariamente transmitidas pela esposa, vão formar a sua opinião, acostumado que está a tomar como verdade inquestionável tudo o que lhe dizem, tudo o que ouve. Pensar exige muito trabalho e tempo que não possui. Tem consciência dos poucos minutos que dedicou aos filhos, mas não quis incomodá-los enquanto gastavam largas horas do seu tempo lúdico em frente ao computador e à playstation, com os seus inúmeros amigos mais ou menos virtuais. Vai-se deitar pelas 23h00, sozinho, depois de um beijo rápido à esposa, que "agarrada" à televisão mal deu por ele. Durante a semana as telenovelas acabam mais tarde, pelo que a necessidade de descanso obriga a que só possa fazer sexo aos feriados e fins de semana, quando está de folga no dia seguinte ou uma rapidinha quando não está e nem dói a cabeça à Maria.
Há pessoas assim, fechadas no seu mundo perfeito, avessas ao pensamento próprio, às mudanças, às surpresas e aos sonhos, que provavelmente trariam desilusões. Quem não sonha dificilmente sofrerá, por não ter expectativas. Poderiam descrever os seus dias numa tabela, como num horário escolar em que cada disciplina obedece a um horário próprio; Pessoas para quem a vida é um jogo com princípio, meio e fim, onde depois de transpostos alguns níveis mais ou menos exigentes (infância, escolaridade, namoro, serviço militar, profissão, casamento, filhos), se protegem na saída fácil da rotina diária e sem surpresas, onde os maiores picos de excitação são as "discussões" sobre os resultados da bola, as peripécias das telenovelas ou o dia a dia de uma vizinhança com mil defeitos. Há pessoas assim, adormecidas em vida, daquelas que não fazem acontecer, adaptam-se simplesmente, deixam-se levar pela maré, um exército imenso de "yes man", pouco mais que máquinas, num mundo cada vez mais globalizado, a matar o génio, o livre-pensamento e a individualidade.

O PAPA DO POVO

Acho que o povo deve ser a melhor coisa já criada pelo Homem ou por qualquer Deus, uma força omnipresente em que raramente acredito, mas que mesmo assim não deixo de respeitar. Pelo menos, seria esse o meu pensamento se fosse um ser alienigena acabado de chegar a este nosso planeta azul, minado por revoluções, guerras. pobreza e fome, como se o povo - esse do qual te dizem Papa, seu representante - não fosse ele próprio constituido por homens e estes, como seres imperfeitos que são, não fossem movidos quase sempre por fartas pitadas de egoísmo e inveja e uma acentuada falta de carácter. Mas tu, Francisco, o primeiro, afável, de palavras bonitas e sonhos tão puros, quiçá ingénuos - o mesmo Francisco que tão bem se moveu nas areias movediças do regime opressor do ex-presidente argentino Jorge Rafael Videla -, és do povo, como antes fora Diana, pessoas ímpares de sentimentos nobres. Falas em mudança, um discurso semelhante ao de Obama antes da primeira eleição, como qualquer político antes de ser eleito, conhecedor exímio de todos os defeitos da sociedade e com o regaço cheio de ideais e boas intenções. "São rosas, senhor, são rosas". Discurso de oposição - chama-se -, em contraponto com o do governo, quem quer que esteja num como noutro. Foi sempre assim, Francisco, sempre será, a não ser que sejas o que pareces, característica pouco comum entre os homens. Quero com isto dizer que o Papa é um político? Não somos todos? E pior, economistas, uns piores do que outros. Somos quando fazemos opções, quando consumimos, a toda a hora. Não gostaria de te ver outro Pedro Mota Soares, tu sabes, aquele que entrou de mota e já se move num carro topo de gama, inacessível à maioria dos mortais. Será que também tu, Francisco, vais ceder , senão à luxuria do Vaticano, às exigências e interesses daqueles que realmente mexem os cordelinhos? Torço por ti, mas espero para ver. Quero acreditar, senão em Deus, em ti, num homem que não use máscaras de cada vez que se dirige a um seu semelhante, que não seja movido por outros interesses que não o amor ao próximo. Obama aprovou recentemente uma lei com a qual discordava, em nome dos interesses financeiros e ideológicos de uma América melhor. Contrapartidas, o sapo sempre difícil de engolir, o passo atrás antes dos dois em frente. Não foi a primeira vez, nem dele, nem de tantos outros políticos e cidadãos anónimos, vergados à impopularidade de tantas decisões difíceis e incompreendidas. Caro Francisco, não vai demorar a saber que é mais fácil prometer do que cumprir e que os sonhos são tão frágeis que até o vento os leva. Ao contrário do que diz a canção, não é o sonho que comanda a vida, mas o poder económico capaz de sustentar e erguer os sonhos de uns quantos, esse vil metal que sem ele os sonhos sucumbiriam como um castelo de areia à primeira onda mais agreste. Os políticos, patrões, banqueiros e afins são como nós, são homens, limitados pelas suas imperfeições e desejos, uns mais competentes do que outros, mas poucos com firmeza de carácter capazes de fazerem frente a um mundo capitalista, prático, insensato, imperfeito, onde só os fortes sobrevivem e os fracos padecem. Ingénuos esses poucos, curtas carreiras, trucidados sem dó nem piedade por uma máquina implacável despojada de sentimentos.


 Os milagres sobre cujos alicercers se ergue hoje a tua igreja são tão frágeis, tão inverosímeis como as soluções mágicas para acabar com a crise. Em que fé te baseias, Francisco? Um demagogo, um impostor ou um mágico, para nos resgatar a esperença perdida na humanidade? Não a mesma que tinhamos nas instituições financeiras, nos puros ideais políticos do socialismo ao comunismo, da social democracia, já tantas vezes conspurcados por mãos inábeis e mentes ávidas de poder. Não a mesma que tinhamos na amizade e na solidariedade, palavras vãs onde o respeito e a lealdade, a ética e a moral não têm mais lugar. Em que acreditar? Na cura para o cancro? No champô que vai acabar com a caspa, na lâmpada que não se gasta, no computador que não se avaria, no mecânico da oficina, no amor que não vai acabar? Líricos. Uma solução definitiva acaba com empregos e empresas. Quantos milhares de pessoas estão ligadas directa ou indirectamente a estas indústrias? Qual a repercussão que teria a descoberta da cura definitiva para a sida? Infelizmente, Francisco, vais descobrir que o preservativo salva, mas que ao fazê-lo está a originar um problema ainda maior que é o da sobrelotação, da escassez cada vez maior de alimentos e recursos naturais a que só as guerras ainda conseguem atenuar. Se soubesses quantos empregos são criados pela guerra, quanta gente que vive da morte... O mundo em que vivemos é um mundo hipócrita, que vive de mentiras, interesses e contrapartidas desde o aparecimento de Adão e Eva. Ninguém dá a outra face, ninguém poe a mão no fogo. Vivemos na corda bamba, na incerteza dos dias, cavando estradas com colheres de chá, usando máscaras para não nos tomarem por parvos, gritando de vez em quando só para sabermos que estamos vivos... e cada vez mais aflitos. Tu que viveste a ditadura de perto sabes que mais vale ser um cobarde vivo que um herói morto, que dar esmolas - mesmo quando temos os bolsos cheios - é melhor do que não ter nada para dar e que a melhor maneira de ajudar os pobres é não se tornando um deles.


Faz-me acreditar, Francisco, faz-me acreditar que ainda há esperança, que eu estou errado e tu estás certo.

sexta-feira, março 08, 2013

ADEUS PRESIDENTE

João Rocha já não está entre nós. Ele foi não só o primeiro Presidente do Sporting de que me recordo, mas também o melhor. Recordar João Rocha é recordar Manuel Fernandes, Jordão e Oliveira, Fraguito, Meszaros, Freire e tantos outros. É lembrar-me de títulos, do futebol ao atletismo de Lopes e Mamede, passando pelas noitadas gloriosas do hoquei, das modalidades. É recordar um Alison boémio e bonacheirão, um vencedor, os 3 a 0 ao Zagreb na noite mágica de Oliveira e de quando quiseram tirar a braçadeira ao Manel de sarilhos. Grande capitão, enorme a resposta naquela final da taça frente ao Braga com Quinito vestido a rigor e nos quatro golos ao eterno rival da luz. Outros tempos, grandes jogadores, grandes homens, grande Sporting, grande João Rocha. A ti o meu obrigado por tantos momentos felizes.