domingo, outubro 17, 2010

UM BON VIVANT!

 Big Mal, como era carinhosamente tratado, Malcolm Allison, antigo treinador do Sporting, faleceu nesta última semana. E a notícia - aqui - até poderia ficar por estas duas linhas ou mesmo nem tanto. Mas a consciência não o permitiria, por vários motivos, desde logo ter sido o primeiro treinador de futebol a chamar-me a atenção pelo seu estilo peculiar, bonacheirão, amante das coisas boas da vida, de noitadas, mulheres e champanhe (que dizia beber uma garrafa por dia), a antítese do desportista, do treinador de futebol, do profissional que era, assim que o treino começava, por mais longa que tivesse sido a noite. E era isso que exigia aos seus jogadores,  a partir da hora em que tinham de se apresentar no estádio: profissionalismo e entrega. Talvez por isso a sua fama, a sua marca de bon vivant tivesse ficado mais vincada na memória dos que o conheceram do que propriamente pelos títulos conquistados pelas suas equipas (1 liga inglesa, 1 supertaça, 1 taça de Inglaterra e 1 taça da liga, 1 campeonato e 1 taça de Portugal pelo Sporting na distante época de 81-82). Após a conquista do campeonato e taça pelos leões de Alvalade, foi despedido na temporada seguinte, depois de um estágio de pré-temporada na Bulgária em que terão havido mulheres nos quartos dos jogadores, grandes noitadas e muita bebida, com o treinador a dar o exemplo. Dentro das quatro linhas do relvado, todavia, a equipa do célebre tridente atacante (Manuel Fernandes, Oliveira, Jordão) fazia questão de jogar e de encantar, sendo ainda hoje - para mim - a melhor equipa do Sporting que vi jogar nestes últimos 30 anos, seguidos de perto pela equipa de Bobby Robson (de Cherbakov, Paulo Sousa, João Pinto, Balakov...) ou de Octávio Machado e a léguas daquela que foi recentemente campeã. Aos 83 anos, o homem que surpreendeu um dia muita gente ao colocar um quase desconhecido Mário Jorge na equipa inícial frente ao FC Porto (no lugar do consagrado Jordão, num jogo que viria a vencer por 1 a 0, golo de Mário Jorge), não resistiu à morte, mas o que viveu fê-lo, seguramente de forma intensa, sempre no seu jeito extrovertido, um exemplo para tanta gente, treinadores inclusive, uma prova de que a vida e o futebol não têm de ser uma guerra cheia de inimigos de um lado e do outro lado da barricada, um tratado imenso de regras e normas que temos de seguir se quisermos sobreviver.

 Inácio (campeão em 81-82): "Para ele uma coisa era o treino e o jogo, outra era o convívio. Uma vez fomos todos almoçar, não havia restrições, podíamos beber, e ele fumava charuto e obrigou-nos a todos a dar uma passa! (...) Nos dias de hoje era impossível haver um Malcolm Allison"
Manuel Fernandes (campeão em 81-82): "Respeitava os atletas e tinha vontade enorme de viver. O trabalho era importante mas viver também era. (...) Não bebia às escondidas, fazia-o à frente de toda a gente porque achava que não estava a fazer mal a ninguém. Hoje não podia ser."

2 comentários:

Fê-blue bird disse...

Amigo Miguel:

Ele teve a sorte de "viver" numa época em que tudo ainda não era divulgado, adulterado e manipulado.
Actualmente perdeu-se esta "inocência" e entrega a tudo o que se fazia.
A minha homenagem também a este grande amante da vida.

Beijinhos

pinguim disse...

Eu sou benfiquista, mas guardo uma imagem simpática deste Senhor.
E, achei muito bonito da tua parte prestar-lhe aqui homenagem.