sexta-feira, outubro 05, 2007

UM PORTUGAL ADIADO


A 5 de Outubro de 1910, foi proclamada em Lisboa, nos Paços do Concelho, a República Portuguesa, pondo-se desta forma termo, a mais de sete séculos de regime monárquico. Quase 100 anos volvidos desde então, a pergunta pertinente mantém-se: Valeu a pena? O povo começou a ter direito de voto, apesar de, dois ou três meses depois, 60 a 70% dos eleitores se manifestarem arrependidos da sua escolha. O País continua no fundo da maioria das listas de sondagens, na educação, no salário, nas condições de vida... Em contrapartida estamos entre os primeiros na criminalidade, nas violações dos direitos humanos, no analfabetismo - lê-se tão pouco em Portugal, e não estou a falar nas Marias nem nas Bolas. Entre os símbolos nacionais, todos conhecem a bandeira mas desconhecem o significado das suas cores e símbolos; o hino é mal trauteado entre os jovens, que pouco mais conhecem do que o seu refrão e mesmo assim mal. Poucos sabem quem foi Alfredo Keil e menos ainda ouviram falar em Henrique Lopes Mendonça. Por último, a imagem do Presidente é a de alguém cuja importância no panorama político é semelhante a uma figura de corpo presente: nenhuma. A memória viva dos grandes símbolos nacionais esvai-se nas lembranças daqueles a quem a maioria já não liga: os velhos. Amália, Eusébio, o Benfica das grandes conquistas, Otelo, Camões, Pessoa e Salazar, o fado, são meras referências nos livros de história. Hoje, cá como no estrangeiro, Portugal é Cristiano Ronaldo e Mourinho. Um é jogador de futebol, tem 20 e poucos anos, muito dinheiro e pouco juízo, tratando as mulheres como se fossem mercadoria. O outro, mais velho, dizem que é o melhor treinador do mundo, especial. E ele admite-o. É famoso pelos castigos que apanha e pelas artimanhas desleais, além de estar sempre envolvido em polémicas e climas de guerra com toda a gente que directa ou indirectamente se atravessa no seu caminho. Mau, muito mau para quem começa agora a entrar na fase adulta e procura referências que o ajudem a descobrir um pouco mais de Portugal e dos portugueses. Porque efectivamente somos mais do que isso. Carregamos nas costas uma cultura secular, dos Descobrimentos - sim, demos um novos mundos ao Mundo -, à arte, à música, à literatura, etc etc etc. É altura dos portugueses se orgulharem das suas raízes e lutarem em uníssono contra a descaracterização do nosso passado. O futuro, o nosso e dos nossos filhos, a sua educação cívica e formação, depende muito daquilo que escolhermos hoje. É errado pensar que uma pessoa não consegue mudar o rumo de um País, não valendo sequer a pena tentar. Um filme de há alguns anos atrás, Favores em Cadeia, com Kevin Spacey, explica que não é uma utupia. Retomo aqui uma frase que já aqui mencionei, de um dos maiores valores da actual literatura portuguesa, Baptista-Bastos: "O homem quando quer, consegue tudo - até voar". O tempo urge e talvez seja altura de olharmos para dentro de nós, bem para além do próprio úmbigo e nos questionar-mos sobre o que temos feito mal, o que poderemos mudar, pequenas coisas, pequenos gestos. Andar menos de carro, praticar desporto, fumar menos, não deitar lixo para a rua só porque a rua já está suja, fazer as pazes mesmo que tenha de pedir desculpas... Sim, você vai ler isto e primeiro vai achar que o texto foi longo e chato, depois até vai concordar com ele num ou noutro aspecto, porque não está para deixar o prazer que o tabaco lhe dá e o carrito até dá mais jeito do que ir a pé... até ao café. A seguir decide-se a cumprir o seu dever cívico, porque os filhos têm direito à saúde e a um mundo melhor. Por último e como português genuíno que é, resolve deixar para amanhã e amanhã para depois e depois... Só que o amanhã é sempre ontem e encontramo-nos sempre atrasados sem saber nem para quê, a correr para os transportes, para o trabalho e do trabalho para casa, num stress vicíante e egoísta sem tempo para pensar nos outros, mesmo naqueles que estão mais próximos.


(desculpem se vos entediei, mas por vezes dou aos dedos rédea solta e deixo-os galopar sobre as teclas como cavalos selvagens que não consigo nem desejo dominar. Sabe bem sonhar! Nessas alturas liberto a fúria contida da prisão dos dias sempre curtos para tanto que temos por fazer, esqueço as horas num grito de palavras mudas e perco-me em nenhures, para lá desse mundo que se alimenta de aparências e falsos pudores, longe dos grilhões da lógica e do bom-senso, e de tudo o que é proíbido.)

1 comentário:

Luz disse...

100% de acordo e em especial com "mundo que se alimenta de aparências e falsos pudores" é o que mais me irrita!

A verdade é que estamos cerca de 100 anos atrasados em relação à maioria dos países monárquicos. Praticamente o mesmo número de anos que temos República.

Luz

P.S.- O meu filho está a ver uma série qualquer na televisão, uma série para miúdos e a avó diz para a neta "mostra a casa à tua amiga"... isto em continuação do meu comentário ao post anterior... afinal não é só a minha rsrs.