segunda-feira, dezembro 05, 2005

FALTAM 20 DIAS...


Daqui por 20 dias vamos ter a mesa cheia de doces, a casa cheia de amigos, e estes vão trazer prendas que vão tornar mais coloridos os sorrisos das nossas crianças e mais brilhantes os seus olhitos, faíscantes de felicidade. Na noite de 24 para 25 vamos ter de escolher por onde começar, se pelo bolo-rei, se pelas filhozes ou pela torta, que vamos regar com champanhe e vinho do porto. No dia seguinte ainda haverá bolos e outras iguarias. E no outro, talvez ainda no outro a seguir... até que alguém diga que já não estão bons e os deitem fora, porque o final do ano está a aproximar-se e com ele uma nova remessa de doces. Nessa altura alguém vai falar de esperança num ano melhor, porque os nossos ordenados são baixos e o custo de vida elevado, porque há desemprego, políticos corruptos e há a camada de ozono. Vamos falar de consciência, de solidariedade, até em deixar de fumar. Vamos críticar os políticos e as promessas que ficam sempre por cumprir e por fim arcar ao governo as culpas por a nossa vida não ser melhor, apesar de toda a nossa inércia, de todo o nosso egoísmo. Porque para alguns, os problemas do mundo estão entre um aumento de 2 ou de 5% no ordenado, em trabalharmos horas extras que raramente nos pagam, em saber se este mês vamos poder comprar um ou dois jogos de playstation, em decidir se o almoço vai ser bacalhau ou bife com batatas.

EVASÕES

DO TEMPO QUE PASSA


Assisto ao tempo que passa com a serena amargura de quem se sabe impotente no seu resgate; tão inevitável como implacável o tic tac monocórdico dos ponteiros pende sobre a minha vida perdida como uma guilhotina afiada desmembrando o meu futuro. Tanta coisa por fazer, tantos lugares onde ir, o que quis ser e não fui, tudo o que ficou por dizer e o tempo tão curto passa frenético numa correria constante que me encontra invariávelmente parado, sistemáticamente... calado.

A VERDADE


A caneta desliza como uma bailarina embriagada no palco secreto de uma infundada esperança, as palavras às cegas, muito embora certas, a reboque de uma memória ainda fresca, que não quero ver tão cedo esquecida. Pela enésima vez repito-me, perco a graça, naquilo que escrevendo não ouso dizer-te, mas perto de ti sinto a premência d'encontrar palavras novas, d'inventá-las, d'adulterar um vocabulário assaz limitado no que ao adjectivar-te diz respeito. Desgasto-me baldamente em loas que fraquejam no intuíto desastroso de t'enredar na minha teia, porque a verdade é uma arma que nos mata e se não mata fere, e se fere afasta-nos.
30SET03

MORRER NA PRAIA


Quis morrer na praia, os pés descalços na areia ardente entre o céu imenso e o mar intenso, naufragar no fulgor dos teus olhos negros como duas conchas raras, nuas, prenhas duma felicidade latente. Quis mergulhar nas profundezas do teu corpo, conhecer-lhe os seus segredos, as correntes e os afluentes, afagar-lhe as formas, lamber o sal das das tuas feridas com o mel dos meus beijos, e abandonar-me ébrio ao sabor da maré p'ra desaguar no leito perfeito dos teus seios, onde amarro o meu barco ao cais, solto a âncora, fecho a porta e jogo a chave fora.

07MAI04

DESABAFOS DE UM REJEITADO (1)

No outro dia uma rapariga telefonou-me e disse:
- Queres vir cá a casa? Não está cá ninguém!
Eu fui lá a casa... ninguém respondeu. Não estava mesmo ninguém.

PENSAMENTO DO DIA

"Só os castos são verdadeiramente obscenos"
escritor holandês

domingo, dezembro 04, 2005

LAR

Tem que haver um lugar onde
alguém com quem
possa eu um dia ser feliz,
alguém com quem partilhar,
a quem dizer:
contigo estou vivo
e onde tu estiveres...
Estou em casa

RENDA ou SEDA (do lado errado da porta)


Para lá dessa vil fronteira que nos separa ouço os teus pés que me fogem andarilhos, como um vento que me fustiga a alma; sinto a lenta agonia de quem perde o melhor do dia (todos os dias), a oferenda de um corpo orgulhoso em todo o seu esplendor, liberto de quaisquer trapos, vestido de promessas, néctar dos deuses, colírio que nos faz crentes. No inquietante roçagar do tecido sobre a carne esvai-se-me o coração em lágrimas de sangue e eu pressinto o suplício de uma quimera vã, em que aos meus olhos surges já vestida, no despertar de uma estéril espera. Não, imploro, não te vistas!, ainda não! Não te cubras num despudor despropositado, não omitas a estes olhos por norma tristes e cansados a alegria da harmoniosa simetria das tuas formas, dos teus seios, de ouvir dizer e adivinhar, perfeitos, do fruto maduro e pronto a colher ousando sob o ventre desnudado, o gracioso embaraço de uma sardenta Vénus reínventada. Do lado de cá dessa linha que por instantes nos afasta em silêncio me declaro e expío, sofro calado por cada um dos meus pecados e suspiros mais ousados. Não, imploro, não te vistas! Não ainda! Não por mim!, se acaso algo conto, se acaso mereço, para ti o privilégio da cedência dos teus encantos. Não te vistas!, não me magoes uma vez mais com o desprezo em que a tua natureza é fértil, qué um tormento cada minuto desse tempo em que um pedaço do teu corpo do meu se esconde, atrás de portas e botões, generosos decotes de promessas que ficam por cumprir adiadas. Chega de fugir, de ter medo de ousar, satisfazer! Rasga os disfarces que te prendem à raíz do medo, faz-te à vida p'la vida, faz-te presente, despe a vergonha, o orgulho e o preconceito, fica livre, fica nua, sempre e só em pelo, na símbiose mais que perfeita de dois corpos que se precisam e se querem... conhecer. Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor, qué um sacríficio inglório, tamanho tormento imaginar-te às pressas, peça a peça, dos pés quase à cabeça, e em segredo imaginar-me renda... imaginar-me seda.


31AGO03

PEQUENAS COISAS


Há pequenas coisas em ti
pequenos gestos, pequenas palavras
momentos sinceros
de que não te dás conta
e que me fazem sentir tão grande, enorme
vivo.
Um sorriso, um olhar
que para ti nada vale,
o silêncio
o toque ainda que breve dos teus dedos.
E eu deixo-te fugir por entre as mãos
carícias breves, confidentes
abraços e beijos, o teu corpo (sonhado)
como um golo impossível
que todavia sofro,
um frango.
07ABR04

COISA POUCA, COISA NOSSA


Roubaste-me a incerteza expectante das manhãs em que enfiados na cama, desencontrados dos lençóis, libertava o teu corpo das amarras do teu pijama, confundíamos as nossas pernas, misturávamos os nossos sexos, masturbávamo-nos um ao outro vezes sem conta, como se o tempo fosse coisa pouca, coisa nossa. Levaste a luz diáfana do glamour da minha insensatez, quando te descobria íntima nos caminhos escusos da minha nudez, quando a inquietante ternura dos meus beijos húmidos lambuzava a tua boca dos restos de uma fálica sede. E tu fingias que gostavas, como fingias que me amavas, como as juras de amor levianamente sussurradas com que tantas vezes me levavas, me enganavas, deixando-me desmistificar os meus tabus, desbravar o sentido proíbido, fazer de herói... na tua selva como um Tarzan, primata no emaranhado dos teus cabelos púrpuros que acariciava sem despentear, quando me beatificavas em águas douradas saciando a minha sede e a minha fome na perene serenidade dos teus compassos como versos de uma poesia indescrítivel, como se o tempo fosse coisa pouca... coisa nossa.


30SET03

AINDA ASSIM


Ainda que por vezes a vida seja uma merda
(e tu sabes que é)
e que o amor seja mesmo como dizem
(fodido)
ainda assim estarei contigo,
estarei sempre à tua espera.

sábado, dezembro 03, 2005

APRENDER A CAMINHAR


É tão difícil aprender a caminhar quando caíndo nos levantamos sabendo que voltaremos a caír; é tão difícil fazer de conta que somos donos de nós mesmos, sem dados nem peões, sem dinheiro de brincar; é tão difícil decidir, fazer, trabalhar, comprar e gastar sem ter com quê, poupar sem ter o quê, sofrer, dos outros o jugo nem sempre justo de tudo que em boa fé fazendo se volta invariávelmente contra nós; é tão difícil viver sem um manual na mão, às cegas na corda bamba sempre com o medo de falhar; é tão difícil saber o qu'é de saber, quem somos, p'ra onde vamos, o que queremos fazer, acordar sem saber porquê, dormir sem saber quando, ter de trabalhar naquilo que não gostamos; é tão difiícil mentir só p'ra agradar, baixar a cabeça, agradecer, agradecer sempre, morrer, pouco a pouco numa overdose de submissão; é tão difícil gostar do que vês ao espelho, as primeiras rugas, os cabelos esbranquiçados, a pele flácida, o sorriso forçado, os dentes caríados, o corpo mole, um dia a mais que ontem e os sonhos recentes há muito perdidos no vazio imenso de quatro paredes de tinta suja, já escassa. Onde páram eles?, os amigos mesmo amigos, as promessas que ficaram por cumprir adiadas, a ambição, a esperança e a fé? Onde pára o sorriso?, esse, que sem saberes enchia de luz o breu intenso dos meus dias soturnos e tristes. É tão difícil acordar, caír, assentar os pés no chão, quando toda a vida sempre andámos de cabeça nas nuvens, ideias ao vento e asas nas mãos!


OUT03

sexta-feira, dezembro 02, 2005

PENSAMENTO DO DIA

UMA GOTA NO OCEANO


Um calor que me incendeia
sucede às chuvas de Maio,
do granizo ao suor
que me lava até à alma.
Como se pudesse!...
Toma o céu tons de fogo
que se estende até à praia,
é tarde para salvar o Sol.
Esconde-se em densas trevas
onde dançam estrelas miúdas
no sussurrar da maré.
Sinto-me às vezes tão pequeno
... como uma gota no oceano.
1995

NOITE ESCURA

Noite escura, companheira vadia de velhas vielas e do frio nas costelas; plangem guitarras tristes, gemidos ardentes duma voz castiça, fado de canalhas e coristas; procuro num corpo aconchego e num corpo de meretriz poesia; nos ladrilhos da minha rua já não roda o pião, joga-se vida e morte, azar e sorte, esconde-se o ás; esposa fiel e amada em noite escura deitada nua noutra cama que não a sua; sobe a parada, uma bala perdida, ferida rasgada em peito aberto, vida roubada... desce o pano, vence a morte. Fosse minha doce sorte e meu medo menos forte, de morte matada mataria, de morte morrida morreria, do que envolto em noite escura, fugitivo sem qualquer destino. Houve um dia... todos nós fomos heróis, matámos índios, fomos cowboys, fomos polícias e ladrões, fomos crianças com ilusões.


1994

quinta-feira, dezembro 01, 2005

SEM COMENTÁRIOS

SEM TI

Sem ti sou um corpo cheio sem vazão,
um coração enfermo sem razão,
uma causa na gaveta esquecida,
um filho bastardo da desdita.
Sem ti sou um Che sem Cuba nem revolução
perdido à sorte p'las ditaduras da vida
como num beco escuro e sem saída,
um barco já sem remos, à deríva no mar
sem saber como amar, um velho tonto,
cansado, amargo, um ébrio céptico
nos braços duma ilusão, uma pedra
à toa p'lo chão
18ABR03

EM SEGREDO


Mentiria se dissesse que não me dá prazer olhar-te, observar-te em segredo, de soslaio, imaginar-te, os teus braços e as tuas pernas como amplexos, embrulhados nos meus braços, nas minhas pernas, as bocas síamesas, as línguas esfomeadas dum tesão sem travão, num duelo devasso p'lo sofá, p'lo chão da sala, numa cozinha mal-iluminada, p'los lençóis anelantes de uma cama desarrumada, bandeira branca que tu ergues, desfraldada, querúbinica musa qu'ao poeta se entrega entre odes, suspiros e estrofes. Invento-te, uma e outra vez no deleite de uma febre que me consome, no lânguido roçagar da tua nudez na minha tez. Calo-te do meu corpo frio, duma memória ainda quente onde sem saber estiveste presente; calo-me das mãos suadas e da ausência do teu corpo no meu, da guerra que ninguém venceu. Em segredo, largo um beijo húmido no vazio do teu sexo.

5JAN03

TENHO UMA CANETA

Sou um amante de amores imperfeitos,
um náufrago à beira da praia, afogado;
não tenho bandeira, não tenho namorada,
tenho uma caneta, invento amor.
Sou um rebelde sem causa, sem arma
e com palavras carregadas de fel
com que a pena pinta a minha vida.
Não tenho metas, não busco compromissos,
tenho uma caneta e invento a minha história.