terça-feira, janeiro 04, 2011

NEVOEIRO

Se o início de cada novo ano é um tempo afecto ao nascimento, à limpeza interior e a novas resoluções porque tinha de vir aquele nevoeiro de ontem reavivar-me sebastiânicas esperanças, lembranças de um tempo já gasto nas folhas de uma antiga agenda e em cujo regresso só eu teimo e acredito?


Desde que te foste perdi-me da minha luz-farol, que me fazia enfrentar cada tenebrosa tempestade sempre com um sorriso nos lábios e a linha de um horizonte distante como objectivo, perdi-me do porto de abrigo onde no final de cada dia soltava a minha âncora e por ti me deixava levar, só por ti, de olhos vendados, até ao fim do mundo e mais além se preciso fosse.



AMOR

 Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame,
não me importando com que intensidade.
  
                                                                            Mário Quintana

sábado, dezembro 25, 2010

BOAS FESTAS

Gosto do Natal, sempre gostei. Gosto do sorriso sincero e da ansiedade nos olhos das crianças no momento de abrir os embrulhos, gosto da azáfama nos centros, nas lojas e das noites frias quando as luzes das ruas ficam acesas e nos aquecem por dentro. Gosto da nostalgia que fica entre o que é e o que poderia ter sido, aquele deve e haver que sempre contabilizamos no final de cada ano, das expectativas quase sempre surrealistas e demagogas para os doze meses que se seguem. Não foi o Natal que eu tinha planeado - o melhor de todos, aquele especial, inesquecível -, mesmo sabendo há muito que estaria a trabalhar até bem perto da meia noite. Ausências e desencontros marcaram 24 horas tradicionalmente consagradas à família, mas que os novos tempos em que o trabalho por turnos é uma realidade cada vez mais abrangente se encarregou de dividir por horários completamente díspares entre si. Durante toda a tarde fui comentando aqui e acolá outros espaços, saciando um desejo premente de voltar a escrever, tentando de alguma forma desejar boas festas ao maior número de amigos, os de cá e os daí - especialmente - que durante estes últimos meses de menor inspiração e alento, quase de uma inesperada fobia à escrita, mantiveram o seu contacto e as suas palavras sempre simpáticas e encorajadoras. Obrigado a todos, do coração! Não espero, nem pretendo que esta postagem seja um breve interregno de uma ausência mais ou menos prolongada por aqui. Há ideias, temas na manga, há vontade e sobretudo necessidades que à escrita me conduzem, hoje como noutros tempos, porque a linguagem é muito mais que a palavra falada, é uma arma que nos mantém vivos, ligados a algo ou a alguém que muitas vezes não sabemos quem são, mas que quando precisamos nos dizem presente, unindo a sua voz à nossa voz. É esse o poder das palavras, a voz das palavras, mesmo daquelas que não se fazem ouvir de uma forma tradicional, mas que criam elos, que nos unem, que nos fazem sentir parte de algo, como uma grande família. A todos vocês desejo um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.

terça-feira, novembro 23, 2010

segunda-feira, novembro 22, 2010

SCOTT PILGRIM VS THE WORLD



Scott Pilgrim Contra o Mundo não era daqueles filmes que me chamava a atenção, pelo que foi com uma boa margem de risco que me decidi a vê-lo. Realizado este ano por Edgar Wright (Hot Fuzz e Grindhouse), o filme é baseado numa banda desenhada criada por Bryan O'Malley e conta no seu elenco com um grupo de jovens actores ainda a dar os primeiros passos no meio cinematográfico, como Michael Cera (Juno) ou Mary Elizabeth Winstead (Die Hard 4.0), além do eterno irmão de Macaulay  Culkin, Kieran, aqui no papel de companheiro de quarto gay de Scott. A história gira em torno do personagem de Scott Pilgrim, que integra uma banda quase desconhecida de Toronto e que se apaixona por Ramona Flowers, uma estranha rapariga americana cujo cabelo muda várias vezes de cor ao longo do filme. Como se não bastasse o improvável romance entre duas pessoas tão diferentes, Scott tem ainda de enfrentar os ex-namorados de Ramona (7), em duelos até à morte e sempre ao ritmo alucinante de um jogo de computador. Longe de ser um filme memorável, Scott Pilgrim é um bom entretenimento com excelentes momentos de humor, especialmente até ao início dos já referidos combates, altura em que o filme começa a ser um pouco fastidioso, não conseguindo na minha opinião explanar todas as suas potencialidades.

sábado, novembro 06, 2010

O PRIMEIRO BEIJO (de Fabricio Carpinejar)

Beija-se pelo primeiro beijo, mas o primeiro beijo não existe. Não há como dizer como foi o primeiro beijo se o beijo não se contenta em acabar. O primeiro beijo é tão-somente a fome do segundo, o desejo da sequência. Já se está no terceiro beijo enquanto se pensa no primeiro. Já se está no quarto beijo, no quinto beijo e o primeiro beijo não terminou. Já se está no sexto beijo, no sétimo beijo, e o primeiro beijo nem começou. O beijo é sempre o primeiro beijo, mesmo que seja o último. O primeiro beijo não é pedido. O primeiro beijo é roubar um beijo roubado, beijar o roubo do beijo. O primeiro beijo não é o beijo de delação, é o beijo dos cuidados, o beijo em que a própria boca enfim redime seu gosto de infância. O primeiro beijo é o gomo de um rio, o gomo verde de um rio. O primeiro beijo tem uma raiva suave, é um desaforo de ternura. Quando o grito pede para sair e fica. O primeiro beijo é alisar a fruta na lã, dar uma volta na quadra da semente e não arrancar o sumo. O primeiro beijo demora para sarar, depende de outros beijos. O primeiro beijo tem o mesmo sangue que corre nos olhos. O primeiro beijo é indeciso, sopra e não sela. Abre cartas e não fecha. Só respiração, sem dentes. O primeiro beijo não morde, não raspa, não modifica a madeira, pousa como esponja, repousa de pé. O primeiro beijo anda para trás para retomar o livro. O primeiro beijo perde a contagem de beijos. O primeiro beijo é ganhar uma voz sem perder a que havia. O primeiro beijo muda de timbre a lembrança, é o marcador de página dos beijos. O primeiro beijo é uma distracção das mãos.

Enquanto se beija não se percebe que se beija, é como estender o braço com a língua. O primeiro beijo escapou e ninguém viu, voltou e ninguém notou. É passear fora do corpo e estranhar as pernas. O primeiro beijo é mais íntimo do que qualquer nudez. O primeiro beijo é a nudez perdoada. O primeiro beijo é segurar o pescoço como uma janela. O primeiro beijo é o rosto que se beija dentro dos lábios. O primeiro beijo é dormir entre os dedos. O primeiro beijo vai beijando a memória enquanto se esquece. O primeiro beijo é nunca mais se distanciar do primeiro beijo. O primeiro beijo é uma despedida que não se acredita. Um início que se duvida. Depois do primeiro beijo, todo o beijo será o primeiro.

O PRIMEIRO BEIJO

Beijos. De entre todas as coisas que podemos fazer com a boca, de entre tudo o que podemos e desejamos fazer na vida, poucas coisas se comparam a um bom beijo, de preferência muitos e variados, do leve roçar de lábios ao tão popular beijo francês, curto ou mais prolongado, daqueles de tirar a respiração, quem não sonha com o seu primeiro beijo? Existem outras formas de demonstrar afecto, o toque das mãos, aquele olhar de quem não vê mais nada além da pessoa amada, mas é a expectativa do primeiro beijo - a par da famosa primeira vez - o motivo dos nossos primeiros suores frios, de todas aquelas ideias e das imagens que construímos na cabeça e que não raramente caem por terra na hora H. Não importam os planos, mas a experiência, a continuação. Por muito que nos recordemos do primeiro beijo, dificilmente ele será melhor do que o segundo e o terceiro, tese esta que serve também como boa desculpa, se depois deste desajeitado choque de lábios o seu parceiro ou parceira não se mostrarem muito entusiasmados. Convençam-no (a) que a próxima vez será bem melhor.  Não obstante, é a memória do primeiro e não do último que me acode ao pensamento - mais pela ternura do que pela perfomance. Ah, esse eterno e curioso sabor tantas vezes agrídoce das primeiras vezes!..., tão contrário à pressa, inimiga da perfeição, daqueles que querem engolir o mundo numa só golfada e que por isso - embora adquirindo rápida e vasta experiência - raramente lhe tomam o sabor que só o conhecedor e o paciente adquirem. Poucos ousam por estes dias em que nos achamos cada vez mais conhecedores da vida e das pessoas, psicanalistas de bolso, datar essas estreias - beijo ou sexo - para depois dos 18/20 anos, havendo mesmo uma espécie de orgulho masculino, uma competição para ver quem perdeu a virgindade mais cedo, da forma e nos locais mais inconcebíveis. Beijar, amar, não têm de ser uma corrida contra o tempo, um prazer tão somente intenso e instantâneo, mas uma partilha de emoções, sentidos e descobertas que vão prolongar e tornar cada momento memorável para além do momento do próprio beijo.

quinta-feira, novembro 04, 2010

QUANTO VALEM 15 MINUTOS DE FAMA?

Mayara Petruso, uma praticamente desconhecida estudante de Direito saiu do anonimato após o passado domingo, quando postou no Twitter e no Facebook opiniões ofensivas aos nordestinos, relacionadas com a eleição de Dilma Rousseff, primeira mulher a ser nomeada Presidente do Brasil. Frases como: "Nordestito não é gente" e "Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!" ganharam uma repercussão enorme, tendo as suas contas nas conhecidas redes sociais sido canceladas, além de ser demitida do escritório de advocacia onde era estagiária, devido aos seus comentários preconceituosos. A liberdade de expressão é, ainda, uma das faces mais visíveis do perigo da internet - e não só, como vimos com o post anterior -, onde pessoas com maior ou menor exposição pública facilmente emitem pareceres que vão além de opiniões pessoais, ofendendo pessoas, grupos, étnias, etc, muitas das vezes motivando várias reacções de apoio que podem tornar-se perigosas. Graves, estas opiniões valem bem mais do que as palavras em que se inserem, são fruto de uma realidade xenófoba que existe no Brasil como em qualquer parte do globo. Preconceitos de várias espécies acompanham-nos frequentemente durante o nosso crescimento, na nossa formação, vivem paredes meias connosco, nas nossas casas, na vizinhança, nas escolas, mesmo nos meios de comunicação social, fomentando um ódio e um desprezo irracional (discussões políticas, religiosas, desportivas, etc). As palavras não são brinquedos para que possamos usá-las quando e da forma que quisermos e a liberdade não é algo tão linear como parece, obedece a regras de bom senso e não só e não deve ser confundida de forma que os nossos direitos se sobreponham aos direitos das outras pessoas. Mayara - que não tem a "imagem" de Berlusconi ou de outras figuras públicas - já terá começado a aperceber-se da importância de uma opinião na hora e local errados. Daí a arrepender-se irá uma grande distância, dependendo da sua personalidade, da forma como irá lidar com os seus "quinze minutos" de fama. Até que estes minutos expirem, muito se falará desta jovem, aparentemente de boa figura - como gostam os mídia - e, como o crime ainda compensa, não me admira que ainda consiga algum contrato, nem que seja para a Playboy.

terça-feira, novembro 02, 2010

ITALIANAS BONITAS E GAYS

"É Melhor gostar de mulheres bonitas do que ser gay"

As palavras são de Silvio Berlusconi, pessoa que não me deixa de surpreender, pelas suas atitudes inqualificáveis, pelas atrocidades que diz de cada vez que abre a boca, por aquilo em que acredita, pela arrogância e pela impunidade que continua a ter usando as pessoas a seu belo prazer, como se fossem meros peões num tabuleiro de xadrez e o dinheiro pudesse comprar tudo e todos. É grave, muito grave, para quem tem uma posição social e política elevada. A mais recente polémica, cujas palavras atrás transcritas foram o seu ponto alto, deve-se a ter recebido nas suas festas uma jovem marroquina menor de idade, festas onde, segundo outras acusações, jovens eram incentivadas à prostituição. Uma outra acusação, negada pelo Primeiro-Ministro italiano, é de que tenha telefonado à polícia para interceder por Ruby - a jovem menor - numa acusação de roubo. Quanto à opinião de Berlusconi, longe de ser apenas uma opinião - afinal gostos não se discutem - é uma afronta à liberdade e igualdade entre as pessoas, à comunidade gay e às próprias mulheres, dividindo-as entre bonitas e feias. Será que ser gay é melhor do que namorar uma mulher feia? Será que as pessoas bonitas e perfeitas, aquilo que é estéticamente belo e irrepreensivel é melhor do que o resto?, o vulgar, o tosco, normal? Senhor Berlusconi, eu gosto muito de mulheres, bonitas de preferência, mas para me afirmar, para expressar a minha opinião e os meus valores - que apesar de provavelmente mais sólidos e ricos ninguém dá importância (afinal, não tenho a sua eloquência no uso da palavra oral e muito menos o seu impacto junto do universo feminino) - não preciso de passar por cima de ninguém, de ofender seja quem for, porque os feios (e o que é ser feio?) ou os homossexuais merecem de mim todo o respeito. Sabe quantas mulheres feias e gays existem em Itália? Já terá reparado como as mulheres portuguesas estão cada vez mais bonitas, não sendo a beleza um exclusivo das italianas? Pense nisso, da próxima vez que for a votos. Talvez se surpreenda!

p.s. não seria justo terminar esta postagem sem um agradecimento a Silvio Berlusconi. Obrigado, muito obrigado! É nestas ocasiões, não raras, em que o senhor abre a boca para cuspir atrocidades, que me dou conta de que afinal, o nosso Primeiro-Ministro - que até o elogia, por vezes - perto de si parece um político a sério. Sinceramente, eu preferia ser gay a ser igual a si.

sexta-feira, outubro 29, 2010

PARA FINALIZAR... SOBRE COMEÇOS E TUDO O QUE HÁ PELO MEIO

 (uma adenda ao post anterior)

O que cada começo tem de pior/melhor não é o estar-lhe quase sempre inerente a obrigatoriedade de um fim, mas que, até o aingir existe um percurso  mais ou menos longo de descobertas e marcos/datas, experiências, aromas cujo sabor agridoce fazem reabrir profundas e inevitáveis feridas. Quisesse esquecê-las e tudo seria mais fácil, bastaria tão simplesmente trocar os nomes às coisas, amor por paixão, emoção por razão. Mas assim não teria memórias e um homem sem memórias ou sonhos é um homem nu, despido de fé, um saco vazio ao sabor do vento, sem vontade própria nem vida a que possa chamar sua. Assim, por opção ou casmurrice, contra a lógica do bom senso e os conselhos de quem sempre se preocupa, segue desafiando a estatística das probabilidades, dando ouvidos a quem não vê e raramente pensa: o coração.

MEMÓRIAS DE UM OUTRO OUTUBRO

Pode um amor sobreviver depois de começar com uma mentira? E se a mentira até tiver sido inocente, daquelas que não fazem mal a ninguém? Naquela tarde, três anos antes, a tarde estava bem melhor do que esta manhã em que a chuva caiu impiedosamente. Ele tinha acabado de cortar o cabelo, bem curto, apesar do tempo já fresco, e caminhava a passos largos - a única forma que ele sabia andar - para casa, quando o telemóvel tocou e lhe disseram que alguém tinha perguntado por ele. Sorriu, iluminando-se por dentro. As expectativas criadas no último par de dias pareciam ir concretizar-se, apenas não sabendo o seu alcance. Ligou-lhe de volta. 
- Já tenho aquilo para lhe entregar. - disse ela - Entrego amanhã à sua mãe?
Hesitou, sabendo que assim não teria hipóteses de vê-la, devido ao horário de trabalho. Não podia deixar para amanhã. A vida nunca deve ser deixada para depois.
- Podiamos encontrarmo-nos agora, para um café. - alvitrou - Eu ía agora beber um (mentira) e estou perto aí de casa (segunda mentira). Se quiseres...
Pouco depois encontravam-se pela primeira vez sozinhos, surpreendentemente familiares, inesperadamente - nele - faladores, parecendo quererem saber tudo um do outro no mínimo espaço de tempo. Tanto que, durante os dias seguintes não deixaram de se encontrar e bastou um par de dias para passarem da amizade àquele patamar mais elevado, que a urgência das suas afinidades e sentimentos deixava claramente perceber. Quantos dias são precisos para nos apaixonarmos? Três anos se passaram, numa relação intensa e marcada por altos e baixos que se arrastavam por vezes durante largos meses, fruto de duas personalidades difíceis, de uma teimosia estúpida que deixou que tanto tempo se lhes escapasse das mãos e dos anos. Depois bastava uma mensagem, nem sempre, mas quase sempre dele e tudo voltava ao normal, porque no fundo - parecia - tinham sido feitos um para o outro. Acreditamos em tudo quando estamos apaixonados, não enxergando muitas vezes aquilo que está bem diante do nosso nariz. Diz ele que no dia em que deixar de acreditar em tudo o que viveu - e foram os melhores três anos da sua vida -, em tudo o que foi dito, em finais felizes, a vida não terá mais sentido, porque sem sonhos, o horizonte é negro e sombrio como a manhã que hoje o despertou, três anos volvidos. Pode um amor morrer sem uma razão específica e válida deixando atrás de si apenas uma amizade ténue? Podem duas pessoas , depois de muitas promessas e planos, nas vésperas de uma vida em comum descobrirem pura e simplesmente que estavam enganadas o tempo todo? Pode o amor ser tão inconsequente e frágil, soçobrar às primeiras rajadas fortes de um Outubro agreste?

segunda-feira, outubro 25, 2010

HOJE ESTOU...

mordaz e ligeiramente, mas só ligeiramente... machista
Disse a minha mãe:
- Olha, acreditas que um dos mineiros chilenos tinha mulher, amante e ainda uma namorada?
Acenei com a cabeça, enquanto ela continuava a fazer algumas alusões à moral - ou falta de - na sociedade contemporânea.
- Que achas que um tipo destes precisava? - perguntou.
- Nada - comentei -, que se pode dar a alguém que já tem tudo?

segunda-feira, outubro 18, 2010

HEAR ME

Hear Me é um belíssimo exemplo do bom cinema que se continua a fazer na Ásia, não apenas na Coreia do Sul, China ou Japão, mas também em Taiwan - Spider Lilies, Three Times...-, de onde é originário este filme de 2009, que conta a história de Yang Yang (Ivy Chen) e Tian Kuo (Eddie Peng), dois jovens para quem os problemas de comunicação parecem pôr em causa a felicidade dos dois e os sentimentos entre eles. Quase silêncioso, o filme vive muito da linguagem gestual entre a maioria dos personagens - com as legendas a serem um auxílio precioso ao espectador -, da integração dos deficientes auditivos numa sociedade cada vez mais apressada e cheia de ruídos e, principalmente, da dificuldade que as pessoas têm - com deficiência auditiva mas não só - de se fazerem ouvir, mas também escutar e compreenderem, vozes, gestos, o coração. É ao coração que nos toca sobremaneira este filme delicado e terno, intenso, incapaz de nos deixar indiferentes.
duas irmãs vivendo os sonhos uma da outra

a dificuldade de comunicar sempre presente

pode um amor sobreviver de silêncios?
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domingo, outubro 17, 2010

UM BON VIVANT!

 Big Mal, como era carinhosamente tratado, Malcolm Allison, antigo treinador do Sporting, faleceu nesta última semana. E a notícia - aqui - até poderia ficar por estas duas linhas ou mesmo nem tanto. Mas a consciência não o permitiria, por vários motivos, desde logo ter sido o primeiro treinador de futebol a chamar-me a atenção pelo seu estilo peculiar, bonacheirão, amante das coisas boas da vida, de noitadas, mulheres e champanhe (que dizia beber uma garrafa por dia), a antítese do desportista, do treinador de futebol, do profissional que era, assim que o treino começava, por mais longa que tivesse sido a noite. E era isso que exigia aos seus jogadores,  a partir da hora em que tinham de se apresentar no estádio: profissionalismo e entrega. Talvez por isso a sua fama, a sua marca de bon vivant tivesse ficado mais vincada na memória dos que o conheceram do que propriamente pelos títulos conquistados pelas suas equipas (1 liga inglesa, 1 supertaça, 1 taça de Inglaterra e 1 taça da liga, 1 campeonato e 1 taça de Portugal pelo Sporting na distante época de 81-82). Após a conquista do campeonato e taça pelos leões de Alvalade, foi despedido na temporada seguinte, depois de um estágio de pré-temporada na Bulgária em que terão havido mulheres nos quartos dos jogadores, grandes noitadas e muita bebida, com o treinador a dar o exemplo. Dentro das quatro linhas do relvado, todavia, a equipa do célebre tridente atacante (Manuel Fernandes, Oliveira, Jordão) fazia questão de jogar e de encantar, sendo ainda hoje - para mim - a melhor equipa do Sporting que vi jogar nestes últimos 30 anos, seguidos de perto pela equipa de Bobby Robson (de Cherbakov, Paulo Sousa, João Pinto, Balakov...) ou de Octávio Machado e a léguas daquela que foi recentemente campeã. Aos 83 anos, o homem que surpreendeu um dia muita gente ao colocar um quase desconhecido Mário Jorge na equipa inícial frente ao FC Porto (no lugar do consagrado Jordão, num jogo que viria a vencer por 1 a 0, golo de Mário Jorge), não resistiu à morte, mas o que viveu fê-lo, seguramente de forma intensa, sempre no seu jeito extrovertido, um exemplo para tanta gente, treinadores inclusive, uma prova de que a vida e o futebol não têm de ser uma guerra cheia de inimigos de um lado e do outro lado da barricada, um tratado imenso de regras e normas que temos de seguir se quisermos sobreviver.

 Inácio (campeão em 81-82): "Para ele uma coisa era o treino e o jogo, outra era o convívio. Uma vez fomos todos almoçar, não havia restrições, podíamos beber, e ele fumava charuto e obrigou-nos a todos a dar uma passa! (...) Nos dias de hoje era impossível haver um Malcolm Allison"
Manuel Fernandes (campeão em 81-82): "Respeitava os atletas e tinha vontade enorme de viver. O trabalho era importante mas viver também era. (...) Não bebia às escondidas, fazia-o à frente de toda a gente porque achava que não estava a fazer mal a ninguém. Hoje não podia ser."

quarta-feira, outubro 06, 2010

AMANHÃ

Teorias, utopias, demagogias, sonhos. Foi este o feed-back às minhas palavras no meu post anterior, onde, como de costume, deixei-me contagiar, exagerei num discurso salpicado de alguns laivos quixotescos, como soi suceder de cada vez que o tema me diz tanto como a mudança, sabido é que nestas coisas vai sempre uma grande diferença entre o falar e o fazer. Não falei da mudança como algo radical, um corte abrupto com o passado. A mudança não tem de ser uma utopia. Assusta? Assusta deixar o colo materno para irmos para uma casa nossa, assusta começar uma vida nova, termos de lutar pela nossa independência, abdicar da nossa privacidade, dos nossos segredos, partilhar, mesmo quando é isso que mais desejamos? Desejo, vontade, são palavras fundamentais em contraponto com algo que nos é imposto. Não devemos alterar nada que não seja da nossa vontade, em que não acreditemos. Hoje não vou deitar lixo para a rua, hoje vou tentar sorrir mais e não me deixar contagiar pela má disposição dos outros, hoje... É isso que assusta, não a mudança em si, mas o hoje, a proximidade do teste da escola, do exame de condução, do casamento. A fuga à rotina assusta, claro. A mudança de hábitos é daquelas coisas que concordamos sempre como necessárias e perfeitamente possíveis, mas nunca tão urgentes ao ponto de não podermos adiá-las para um amanhã sempre adiado no rol das prioridades. Sim, amanhã - não hoje - vou deixar de fumar, amanhã vou lutar pelo que eu quero, amanhã vou levar os miúdos a passear, vou abrir o meu coração, amanhã... vou ser uma pessoa diferente, vou ser melhor, vou ser feliz..

terça-feira, outubro 05, 2010

SALVAR O FUTURO

É a hora. Não de uma guerra que de guerras andamos fartos - já nos bastam as dos políticos - mas de dizer um basta e de mudar não apenas por mudar. Mudem-se as mentalidades para começar, os valores e já agora a política e os políticos. É a hora de acordar e sacudir dos olhos a poeira das promessas vãs e das mentiras, de agarrar na enxada e cultivar a terra mesmo que não seja ao pé da letra, lançar as sementes para um futuro que não seja apenas isto, mais do mesmo, não apenas outras moscas, a mesma... Pequenos gestos que aos outros possam parecer insignificantes, pequenos passos que começam por nós, por mim, por si. Como esperar mudar o mundo se não somos capazes de mudar nada em nós? Porque isso de ser perfeito... nem Cristo! É hora, com Reis ou Presidentes, mas sobretudo com Homens, de dar as mãos e esquecer as diferenças, de tentar - com carácter de urgência!, pensem nos sonhos ainda por viver, nos filhos e nos filhos dos filhos - salvar o futuro enquanto ainda houver presente.

domingo, outubro 03, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!... (e ontem foi 2 de Outubro)

... e na ressaca de um dia perfeito acordariam invulgarmente tarde, talvez por ser a primeira noite juntos. A primeira coisa que ela veria seriam os seus olhos, porque o amor ainda tem dessas coisas, detalhes, laivos de romantismo que fazem com que a vida por vezes pareça valer a pena. E a seguir aos olhos - ela sabia-o, adivinhava-o -o toque das mãos no cabelo solto, numa carícia mais prolongada. A chuva caía, inesperada embora sem ser indesejada, apesar da praia ali tão perto, para lá da penumbra acolhedora daquele pequeno quarto, improvisado ninho de um amor nem sempre esclarecido todavia intenso. Não importava, tão pouca era a pressa de sair daquele abrigo quente e seguro que eram os braços um do outro, da urgência serena da pele, dos beijos, olhares e palavras, da ternura muito mais que física. Lá fora, pouco mais que o silêncio. Lamentos de turistas nas esplanadas cobertas dos cafés, a quem a borrasca apanhara de surpresa, obrigando a outras opções. Amar, sonhar, partilhar emoções, elos, família, viver. Tanto por fazer, tanto por descobrir, tantas sementes a cultivar. Mas sem pressa, sem queimar etapas, porque como em tudo na vida, uns bons preliminares são fundamentais, fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso, o sábio degustar de cada momento, o desfrutar ao máximo dos pormenores, o ser honesto, sincero e apaixonado, completo em cada entrega. Não sabiam que horas eram. Pelo menos por um dia negar-se-iam a ser reféns do tempo. Mais tarde, só então,  abririam uma excepção para as pessoas, para o Sol ou para a chuva, para os outros. Até lá bastava-lhe estender o sonho, enganar o sono de uma noite mal dormida pelo trabalho e mesmo assim ter medo de acordar, longe das extensas dunas de areia branca e dos turistas desprevenidos, da água de encontro à janela e da chuva transformada em lágrimas, encharcando a ausência dos braços e do resto, fíapos de vida fingida, versos tristes de um amargo e desconfortante amanhecer.

Pensei um dia que poderia transformar uma data triste com um evento feliz, sem ter de rasgar folhas ao calendário, moldar os dias a meu belo prazer com a fina arte de um moleiro. Pensei fazer de uma recordação triste o dia mais feliz da minha vida. Não consegui. Faltou-me o engenho, faltou-me um motivo, alguém que me livrasse de vez deste medo de acordar.

domingo, setembro 19, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

O Parque Júlio José Ferraz é, indubitavelmente um dos locais mais bonitos e aprazíveis de Almada, pelos amplos espaços verdes, que levam a que, especialmente ao fim de semana mas não só, se juntem ali bastantes crianças acompanhadas pelos pais, como ainda jovens e idosos que ali se deslocam e permanecem durante bastante tempo para namorar, descansar ou revigorar a vista com a bela paisagem do local. Confesso que este parque faz também parte do meu álbum das melhores memórias e é, ainda hoje, parte integrante do meu ritual diário. Hoje, um dia depois de uma noite de bastante movimento, devido a um espectáculo integrado na semana europeia da mobilidade, o aspecto deste espaço era o que as fotografias documentam, com muito lixo espalhado por todo o lado - havendo vários caixotes no local -, muitas garrafas de cerveja, algumas partidas outras não, com crianças brincando lado a lado com a porcaria e bocados de vidro disfarçados pela relva, perante a passividade dos pais. Como se não bastasse, até a tabuleta com o nome do Parque foi arrancada dos seus alicerces, sabe-se lá até quando. Para uma cidade que, segundo as palavras da Presidente da Câmara, dois dias antes no Almada Fashion, sabe receber as suas visitas, é triste, lamentável até que entre os seus residentes haja energúmenos deste jaez, incapazes de beberem sem perder a noção do civismo, incapazes de se comportarem em sociedade. A rebeldia, a efemeridade da juventude ou a desculpa fácil da inconsciência provocada pelo álcool não lhes dá o direito ao vandalismo, não atenua nem branqueia a maldade pura destes e outros actos semelhantes. Todos os fins de semana, não muito longe daqui, na chamada parte velha da cidade, ponto de encontro de grandes aglomerados de jovens pelo grande número de pubs e bares, é difícil adormecer antes das três, com gritos e buzinadelas de quem se mostra indiferente ao descanso dos outros e de manhã, são sempre evidentes os efeitos da sua passagem, com garrafas e restos de garrafas amontoando-se junto às portas das casas, com restos de comida de quem se arma em herói e depois não sabe aguentar a bebida. Não é esta a liberdade pela qual tanto se orgulham, não foi pelas noitadas sem freio e pelo sexo sem nexo e irresponsável que essa mesma liberdade foi tão arduamente conquistada. E chamam-lhes... a esses animais irracionais, futuro?! Que futuro, quando o presente é por eles tão maltratado?


sábado, setembro 11, 2010

OBRIGADO, MÃE!

Já aqui disse um bom par de vezes que Setembro é um mês, para mim, particularmente dedicado a aniversários, começando com o meu sobrinho mais novo, o meu irmão (já passados), o meu sobrinho mais velho, alguns amigos mais especiais e, no dia de hoje, a minha mãe. Igualmente já foi por mim referido nos anos anteriores da importância da minha mãe na minha vida, pela força, pelo afecto, por vários condicionalismos que ajudaram a moldar o meu carácter - virtudes e defeitos - e que me fizeram ser a pessoa que hoje sou. Estarei longe de ser uma pessoa perfeita e com a vida que sempre sonhei, mas conservo ainda os valores e os princípios pelos quais fui educado a tomar como certos. A minha mãe é, ainda hoje a minha grande companhia, o meu apoio, a mãe-galinha e protectora, cujos conselhos bem intencionados já nem sempre sigo, apesar de os respeitar e compreender. Há uma altura na vida, momentos em que o certo e o errado, o bom e o mau se confundem, segundo as perspectivas de quem dá e quem recebe um conselho. Nem sempre o que é certo para nós é aquilo que nos faz sentir bem, que faz o nosso coração bater mais forte. Não é apenas a justiça que é cega e o coração tem, todos sabem, razões que a própria razão desconhece. Viver, sentir, não obedece a lógicas ou normas pré-estabelecidas, é fruto muitas vezes de um momento, de um instante de loucura que tantas vezes dita uma vitória ou uma derrota, agir sem pensar ou perder o tempo pela falta de coragem. Não é pois de estranhar que um dia queiramos voar com as nossas próprias asas, cair se tivermos de cair e aprender a levantarmo-nos sem qualquer ajuda. Já caí, já escorreguei, já fui até empurrado, embora levantar-me continue a ser sempre a parte mais difícil. Os pais nem sempre compreendem essa atracção pelo abismo. Dizem: toda a gente cai uma vez na vida, duas é insistir no erro. Que dizer então de três ou quatro? Como esperar que compreendam o que por vezes até para nós é difícil de explicar? Amor, tudo se resume a isso, por ele vamos por atalhos, saímos da linha, saltamos sobre precipícios, percorremos o deserto e é esse mesmo amor, de uma forma diferente mas sempre incondicional que os pais têm, e que demonstram sem reticências, mesmo quando escolhemos esses caminhos errados (ou não), quando fazemos as nossas asneiras, quando mesmo não compreendendo, não concordando com as nossas atitudes e decisões está sempre presente no seu apoio, sem o qual cada queda seria mais dura, talvez irreversível. Ser pai deve ser - é seguramente - das coisas mais apaixonantes, mas também das mais complexas, difíceis que existem, tendo a responsabilidade de moldar um carácter, incutir valores, educar, dar-nos força mas também sensibilidade, elogiar mas também repreender. Se um dia chegar a ser abençoado pela paternidade, quero que o meu filho tenha todo o amor, a educação, os valores, toda a sorte que eu tive e ainda tenho. Obrigado, mãe! Por tudo!

EVASÕES

Shin Mina (ou Shin Min-Ah) nasceu na Coreia do Sul a 5 de Abril de 1984, sendo uma das mais promissoras actrizes e modelos sul-coreanos.

Entre os filmes e dramas por si protagonizados contam-se A Love To Kill, The Devil, My Girlfriend Is A Nine-Tailed Fox, The Beast And The Beauty ou My Mighty Princess, entre vários outros.
Devido à semelhança de nomes, alguns dados pessoais ou mesmo imagens, são confundidos nas buscas na net com a modelo, cantora e dançarina Shin Mina (já aqui apresentada), famosa especialmente pelas suas imagens durante o Mundial de futebol na Coreia. Em algumas procuras, mesmo a data de nascimento das duas surge trocada.