sexta-feira, agosto 13, 2010

MAR & SOL

SÁBADO- Sinto-me a derreter como um gelado ao Sol, apesar de me expor muito menos por estes dias. A independência tem algumas vantagens, mas que no prato da balança parecem sempre leves demais.

DOMINGO - Passaram-se três semanas e ao contrário do que previa, a vontade de escrever - e de muitas outras coisas - continua presa de movimentos e de entusiasmo. Com o mp3 já livre do pó acumulado durante vários meses de inércia, os meus pés levam-me por caminhos que conheço de cor. O tempo não parece ser bom conselheiro, não augurando para breve sinais de bonança.

SEGUNDA - a médica da empresa diz-me que tenho uma infecção - nada de grave - e a tensão baixa, o que não é propriamente dito uma surpresa para mim. Esqueço o orgulho e mando uma mensagem. Porque será que se insiste tanto em falar de orgulho, vencedores e vencidos quando o assunto são sentimentos?

TERÇA - Primeiro dia de praia a sério - com toalha, protector e essas coisas todas. Muito Sol, muito calor, água com boa temperatura. Ter-me-ia distraído se lá estivesse, mas nem sempre a cabeça acompanha o corpo. Uma grande distância raramente nos afasta dos problemas e o local da lua de mel ali tão perto. Ah, o chefe lembrou-se de perguntar pela data do casamento.
QUARTA - Segundo dia de praia. Mais do mesmo, até nas perguntas, agora por mensagem, um outro colega mas a mesma dúvida. Não me apetece responder. Não sei responder. Em contrapartida, as americanas voadoras começam a rarear, apesar das altas temperaturas se manterem.

QUINTA - A trabalhar das 7 às 24 horas, mais responsabilidade, menos tempo para dispersar os meus pensamentos. O país parece estar todo a arder quando se liga a televisão. Há carros de bombeiros destruídos, bombeiros mortos e muitas pessoas sem casa e cheias de medo. Dizem que só se fala dos bombeiros nestas alturas. Por isso gosto tanto quando não se fala deles, quando esses heróis silenciosos se quedam pelo anonimato e o nome do Zé, da Maria ou do Manel não fazem capas de jornais por terem perecido nessa estranha forma de vida que é a de arriscarem as suas vidas de graça e mesmo assim gostarem. Ninguém sabe quem são, porque têm esse bichinho no corpo, quais os seus sonhos, ao contrário de quem gosta de aparecer na televisão e de se auto-intitular de famoso, seja por desfilarem numa passerelle ou por pensarem que sabem cantar.

SEXTA - Sexo, Mentiras e Vídeo, como no filme. Será isto a isto que está confinado o amor? Onde estão os valores morais, os laços fortes incapazes de soçobrar como castelos de cartas ao mínimo sinal de tempestade, onde está o amor? A minha fé nas relações, nos sentimentos puros e nas pessoas anda bastante comprometida por estes dias. Resta-me a vontade e o gosto - ainda que enferrujado - pela escrita. Não é grande coisa, mas num naufrágio temos muitas vezes de agarrarmo-nos a qualquer coisa que nos mantenha à tona, por muito insignificante que possa parecer, e da médica ter dito que devia praticar natação.

sexta-feira, julho 30, 2010

DIREITOS HUMANOS?!

Desporto? País desenvolvido? Direitos humanos? Parecem tudo expressões desconhecidas para os norte-coreanos, mais preocupados com actividades bélicas e, portanto, a anos-luz da qualidade de vida dos seus "irmãos" do sul como da maior parte dos países asiáticos. Isto a propósito da modesta actuação da selecção em terras da África do Sul, onde, inserida num grupo difícil, juntamente com a Costa do Marfim, Brasil e Portugal, os comandados de Kim Jong-Hun perderam os três jogos, apesar de só contra os portugueses terem sido humilhados, desportivamente falando. Fora dos relvados, foi também o que se sabe, com a selecção a treinar muitas vezes longe dos olhares do mundo, num secretismo exacerbado, com o "Rooney" norte-coreano a dizer que pretendia marcar em todos os jogos e com o seleccionador a dizer que, em termos de qualidade técnica, não eram inferiores aos... brasileiros. Depois dos malfadados 7 a 0, muito se brincou com possíveis castigos no regresso a casa, um pouco à imagem do que infelizmente realmente sucedeu em 1966, quando levaram 5 a 3 de Eusébio e companhia. Veio hoje a saber-se, segundo o jornal italiano La Repubblica (citando a Radio Free Asia) que, o seleccionador terá sido mesmo castigado com trabalhos forçados, enquanto que os futebolistas tiveram de estar seis horas de pé, defronte do Palácio da Cultura Popular de Pyongyang. Ainda segundo a mesma fonte, apenas dois futebolistas escaparam a este "puxão de orelhas" humilhante, o já comentado "craque" Jong Tae-Se, por ter chorado ao ouvir o hino antes do encontro contra o Brasil e An Yong-Hak, que regressou ao Japão - onde actua no campeonato - sem passar pela Coreia. Lá teria os seus motivos! Esta é a triste realidade de um mundo que se quer unido e desenvolvido, globalizado, mas onde conceitos como justiça, igualdade e direitos humanos continuam todos os dias a ser ignorados ou violentados em vários cantos do globo. E se em vez da Coreia o mesmo se passasse num qualquer país árabe rico em petróleo?

UMA LIÇÃO DE VIDA

«Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento, agradeçam e não deixem nada por dizer»

Estas foram das últimas palavras do actor António Feio, recheadas de sabedoria. O António deixou-nos ontem, depois de uma luta estóica e inglória contra o cancro. O António era um lutador e, apesar de não ter medo da morte e estar preparado para ela - como fazia questão de frisar -, gostava ainda mais da vida. Acho sinceramente que a grande consolação que a morte nos traz, o seu maior mérito, é o de nos agarrar à vida, e quando falo da morte não falo apenas de um final físico, mas de uma derrota, de algo que tivemos e que perdemos. Nada como a perda, como uma morte inevitável, para nos apercebermos e darmos muito mais valor a coisas, pessoas, sentimentos que antes nos passavam ao lado, quase despercebidos. Infelizmente é assim para a maior parte de nós. Quase de certeza, não para o António, não para alguém que, apesar de não o conhecer muito bem - porque nunca fui grande apreciador do António actor -, sempre me transmitiu uma força, uma alegria, uma vontade de viver não apenas exclusiva dos seus últimos meses. O António era assim, podia ser Feio, mas só de nome, porque por dentro era uma pessoa bonita, com a qualidade intrínseca de conseguir transmitir-nos para fora essa mesma imagem, de partilhar. Por isso que, ao contrário de pessoas para quem 100 anos não chegam para encher uma caixa de sapatos com memórias, para quem todo o tempo do mundo não lhes chega para descobrir o significado da vida, que pensam que, após meia dúzia de anos já sabem tudo, que a vida não tem mais segredos, o António vivia como se cada dia fosse o primeiro - ou o último -, sem certezas, descodificando nos pequenos pormenores do dia a dia os verdadeiros valores, aqueles que lhe permitiram viver intensamente e mesmo na doença, encará-la como mais uma etapa, mais uma aprendizagem. E foi nessa aprendizagem, na sua humildade, na esperança, que o António nos deu uma grande lição de vida.

domingo, julho 11, 2010

DA JABULANI ÀS VUVUZELAS





O primeiro mundial africano primou pela decência, da moral e dos bons costumes, negando a glória a selecções como a grande candidata Argentina ou a agradável surpresa paraguaia, frustrando as intenções de Diego Maradona e de Larissa Riquelme, que haviam prometido despirem-se se as suas favoritas conquistassem o tão ambicionado ceptro. (por questões de logística, que não de estética, colocaremos algumas fotografias de Maradona oportunamente. O espaço colocado ao dispor era tão exíguo que mal cabia um telemóvel).

segunda-feira, junho 28, 2010

A NOIVA CADÁVER

Se falar aqui da noiva cadáver já sei que a maior parte de vós vai pensar que me refiro ao fabuloso filme animado de Tim Burton, mas não desta vez. Também na china - onde mais? -, sucedeu algo de muito insólito e que nos deixa a pensar seriamente naquilo que realmente conta na vida. Zhuang Huagui, de 26 anos, era muito feliz com a sua noiva, com quem planeava casar a 4 de fevereiro deste ano. Infelizmente, ela perdeu a vida durante um assalto, no dia 28 de janeiro. Contrariando todas as expectativas, Zhuang Huagui concretizou à mesma o casamento, numa cerimónia que teve lugar em Zhangzhou, no mesmo local do funeral. Chinesices ou apenas um grande amor?










segunda-feira, junho 21, 2010

DA JABULANI ÀS VUVUZELAS


Um outro olhar sobre o primeiro mundial africano.



Um dia tive um telemóvel igual, daqueles que vibram e vibram e...

sexta-feira, junho 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO - UM ÚLTIMO ADEUS

"Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma."

José Saramago, escritor português, Prémio Nobel, já não está entre nós. A frase com que abro esta postagem foi um dos seus últimos testemunhos, uma das suas derradeiras ideias. Sem ser uma personagem consensual - longe disso -, José Saramago era um homem de ideias e de ideais. Enquanto que a maior parte de nós luta diariamente por um pouco de atenção, pelo olhar atento, pelo reconhecimento pelos outros daquilo que fazemos, por amor, por uma simples e rápida atenção sobre nós, existem, por outro lado uns poucos que fazem da sua vida uma guerra aberta contra o mundo, contestando tudo e todos, chamando a atenção das "luzes" pelo ódio, pelo confronto, pela polémica. Saramago nunca foi um dos meus escritores de eleição, uma das minhas referências enquanto homem.


Como Mourinho, Saramago era um homem de antagonismos, de uma personalidade forte e, como o novo treinador do Real Madrid, era um homem de conquistas. Talvez o mundo não aprecie particularmente os homens com ideias, aqueles que poem em causa verdades e conceitos pré-concebidos. Sem o admirar nem concordar em muito do que dizia ou fazia, reconhecia nele essa capacidade que poucos têm de poderem transformar, a força necessária para sacudir as teias de aranha de certas mentalidades tacanhas, a defesa intransigente dos seus ideais. A literatura ficou hoje mais pobre, Portugal - esse mesmo Portugal tão criticado por Saramago - e o mundo ficaram mais pobres com a sua morte.

terça-feira, maio 11, 2010

ESPERANÇA

Quem me conhece minimamente, pessoalmente ou através do convívio aqui da blogosfera, sabe das minhas posições - quase sempre negativas - quando o assunto são os temas religiosos, qualquer que seja a religião. Ora são os passados escritos com o sangue de muitos que não professavam a mesma ou qualquer religião, ou que simplesmente contestavam o que a igreja sempre deu por verdades insofismáveis, ou algumas opiniões extremas sobre celibato, homossexualismo, preservativo, pecado, etc etc etc, tanto que havia por onde escolher. Podem vir dizer-me que as mais de 100 mil pessoas que hoje se juntaram para assistir à missa do Papa Bento XVI, no Terreiro do Paço, na sua primeira visita a Portugal, desmentem categóricamente aquilo que tenho vindo a defender, que é o de um notório afastamento das pessoas em relação à Igreja. Para os mais desatentos lembro que também eu saí à rua para ver a imagem da Nossa Senhora de Fátima na sua passagem por Almada.
Choca-me o luxo e a ostentação das proeminentes figuras do Clero, o esbanjamento de dinheiro que esta visita acarretou, o caos no trânsito, as pontes... de um país com a economia em colapso. Choca-me o cinismo dos nossos governantes, que entre a festa benfiquista de seis milhões de portugueses e a excitação da visita do Papa atiraram para o ar o mais que iminente aumento dos impostos e umas veladas ameaças sobre cortes no 13º e no subsídio de Natal, como se nem dessemos a esses temas a devida importância. E a verdade é que a maioria nem notou, ou preferiu dar relevo a outros cenários mais festivos. Há alturas em que invejo os gregos!
Mas dizia eu que muitos dos que foram ver o Papa - bem mais simpático ao vivo do que a ideia que tinha do homem - não o fizeram por especial devoção, mas essencialmente pelo "circo" e, não dêem a este termo qualquer conotação perjurativa. Ver o Papa ao vivo é a possibilidade de aparecer na televisão, de assistir a algo que provavelmente não veremos nunca mais, "estar" incluído num grupo - ou seguir os carneiros, como tanto temos o costume de fazer em Portugal. Eu vi o Papa pela televisão, como gostaria de ter lá estado apesar das nossas diferenças, intrigado mas ao mesmo tempo fascinado com o potencial que um homem - e é d'Ele que falo, daquele em que insisto eu: não acredito - tem para mobilizar tanta gente. Tanto potencial desaproveitado ao longo de décadas, séculos, por equívocos e jogos absurdos de poder e ostentação. Hoje, como defronte da estátua mais emblemática de Fátima, penso no papel desempenhado pela Igreja, não apenas na conturbada sociedade actual, mas ao longo dos tempos, que deveria de ter sido de compreensão e de esperança para os desfavorecidos, para todos aqueles que sofrem, para os incompreendidos, vítimas das suas diferenças e tomadas de posição. A esses a Igreja nunca deu conforto, antes perseguiu. Preferiu impor em vez de aconselhar, criticar em vez de perdoar, castigar quem precisava de apoio. Conforto, conselhos, perdão, apoio, esperança, fé, união, solidariedade. É esse o papel da Igreja, de toda e qualquer religião, mesmo baseada em mitos com histórias inverosímeis e falsos deuses de pés de barro. As pessoas, cristãs ou não que seguiram o Papa, mesmo que pela televisão, não querem saber do passado, mas precisam de acreditar no futuro, mesmo que agarradas a essas imagens, ao Papa, aos santos, a um simples crucifixo, a qualquer coisa que lhes permita acreditar num amanhã melhor.

segunda-feira, abril 26, 2010

O 25 DE ABRIL FOI ONTEM

Comemorou-se ontem o 36º aniversário do 25 de Abril de 1974, data que suscitará sempre discussões, mais ou menos acaloradas. Não vou responder à pergunta óbvia, sobre onde estava por essa altura, pois seria quase um exercício especulativo, já que na altura, a política não era - certamente - uma das minhas prioridades. Da mesma forma não irei pelo caminho sinuoso de discutir sobre as qualidades e defeitos do Antigo Regime em comparação com os nossos dias, não caindo no facilitismo de achar que antigamente era tudo mau. Não era, como também não é tudo cor de rosa hoje em dia, antes pelo contrário. O extremismo de posições continua a ser um dos principais focos de instabilidade e irracionalismo nas sociedades actuais, em nada contribuindo para a aproximação entre as pessoas ou nações. Indiscutível era - é ainda - a necessidade de mudar. O desenvolvimento faz-se de revoluções, populares, emocionais, colectivas ou individuais, sempre que exista a necessidade de mudar, de sair da letargia antes que nos acostumemos mesmo ao que não nos convém, apenas pelo medo de lutar, contra os outros ou mesmo contra nós mesmos. Não estando em causa os motivos que levaram à Revolução dos Cravos, é ponto quase assente que a estratégia dos ideais de Abril falhou, da mesma forma que falharam tantas outras revoluções carregadas de boas vontades, traídas pela ambição dos homens, cujos ideais e vontades se transformam tão facilmente, consoante se encontrem no poder ou na oposição. Não estaremos então ainda a tempo de, ao invés de nos prendermos a um sentimento revivalista e nostálgico, tentarmos de novo, emendando os passos errados de outrora? É altura de uma nova revolução, menos emocional, mais racional. Somos - continuamos - demasiado passivos no que toca à acção, reclamando que atitudes consideradas como necessárias sejam sempre tomadas pelos outros, responsabilizando-os depois por tudo o que está mal, mesmo pela nossa inércia, esperando que um dia, por algum fortuito golpe de magia, tudo melhore. Submersos num cinzentismo psicológico, alimentando-nos de símbolos de um passado antigo e desgastado, dos Descobrimentos ao Benfica do Eusébio, ao fado de Amália, ao fado que é nossa sina e já com saudades do escudo, não estará na hora de largarmos os nossos inseparáveis "ses" e "naquele tempo é que era bom" e fazer acontecer um novo Presente, um Abril re-inventado e com pernas para andar? Os milhares de desempregados e outros tantos que vivem na corda bamba, com o coração em permanente sobressalto... onde estavam no 25 de Abril de 74? Que interessa? Interessa-me saber sim, onde estarão amanhã, onde estarão os nossos pais, irmãos, filhos e netos. Ontem... já lá vai!, não volta.

quinta-feira, abril 01, 2010

1º DE ABRIL

"A mentira faz parte da natureza humana, sem ela seria impossível viver em sociedade (...)
Até há uma estatística que diz que em dois minutos de conversação, há três mentiras (...) É tão importante mentir que até inventámos um dia das mentiras."

Estas afirmações pertencem ao psiquiatra Américo Baptista, publicadas hoje no jornal Global. Gostava de pensar que existe um certo exagero no que diz, que mentir não é tão importante para vivermos em sociedade, mas seria estar a enganar-me a mim mesmo, e essa é uma mentira que não quero proferir. Desde já aviso que nunca roubei, nunca menti, nunca vi filmes pornográficos ou cobicei a mulher do próximo. Nunca cometi um erro no meu trabalho, nem inventei desculpas para justificar-me perante ninguém, pais, amigos, namorada ou chefe. Mentimos. Mentimos muito, tanto, quando pequenos para escapar do raspanete do pai, nas doenças que inventamos para faltar às aulas, nas histórias contadas aos colegas sobre façanhas que nunca cometemos, sobre mulheres, sobre jogos que nunca jogámos porque nunca os pudemos sequer comprar. Mentimos quando somos cínicos para com as pessoas que não suportamos, nos desejos forçados de um bom dia, quando interrompemos o discurso ensaiado do telefonema sobre as promoções da MEO ou da ZON com um educado "não tenho tempo", mentimos já sem dar por isso e, pior, mesmo que daí não advenha qualquer vantagem. Mentimos quando nos perguntam se estamos bem e respondemos que sim, porque é a saída mais fácil ou que não, começando a contar um número exagerado de doenças e problemas apenas para que se compadeçam de nós. Mentimos para justificar o atraso no emprego, o erro cometido ou mesmo quando a mulher nos pergunta se estávamos a olhar para outra. Nunca! "Tu és a única mulher na minha vida! Morreria - outra das mentiras mais frequentes - por ti." Mente ainda o pescador e o caçador, o político e o apaixonado, o poeta e o ladrão. Somos mentirosos compulsivos, Pinóquios de carne e osso, espantados e irritados com as mentiras dos nossos governantes como se fossemos exemplares perfeitos, almas puras, imaculadas de qualquer pecado, dignos de um qualquer Fernão Mendes... Minto.

domingo, março 21, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

Nunca fui de marcar dias para os afectos, de celebrar de maneira especial os dias consagrados pelo calendário, como se nos restantes 364 dias estivesse dispensado de o fazer. Dias de consumo, comerciais, como aquelas músicas que dizem não ter qualidade, mas que vendem, porque é nesse sentido que elas são produzidas. Assim, oferecer uma prenda ao pai a 19 de Março é quase como uma obrigação. Não importa se no resto do ano nem sequer o vá visitar, mas esquecer-me deste dia é uma desfeita só comparável a ir à igreja e não pagar o dízimo, porque estarei a ofender Deus, O Pai, a principal figura paterna na hierarquia daqueles que acreditam, que uma qualquer estranha reza, um simples acto de misticismo pode curar o vírus da sida ou as mais estranhas e incuráveis maleitas. Em pleno 2010 continuamos a ser influenciados por crenças, por charlatões, daqueles que antigamente andavam pelas feiras a venderem a banha da cobra - hoje baba de caracol, eficaz para todos os males -, por bruxas, por aparências, pela hipocrisia. Ergam, pais, os vossos fracos membros superiores aos céus, agradecendo pelo dia que lhes foi consagrado. Sorriam mesmo que através duma dentadura postiça, mesmo que por uma boca já estragada, que a parca reforma não deixa arranjar, sorriam... pelas frestas do olhar por norma triste e vencido, do carácter que ainda subsiste, último baluarte de uma época quase esquecida, em que o pai era a trave mestra da família, exemplo para os filhos, o sábio, mesmo que a inteligência se medisse pela experiência da vida e não dos livros. Abram as portas dos lares, de par em par, que hoje é dia de deixar entrar os filhos e os netos - constrangidos por terem sido forçados a largar as playstations. Vêm sorridentes, trazem beijos e presentes, alguns afectos, promessas de voltar e um relógio que não pára, desculpa para o tempo que não têm, porque duma visita de médico se trata. Compromissos inadiáveis, dizem, porque nada pode ficar para trás, só os pais. É então um beijo e adeus, regado com os desejos sempre sinceros de melhoras. Amo-te, pai, até para o ano!

Gostar dos pais não é obrigação. O meu pai não era o melhor dos pais, nem o mais perfeito dos homens, longe disso. Mas eu gostava dele mesmo assim, mesmo sem ser obrigado a fazê-lo, mesmo com todos os seus erros e imperfeições. Aprendi um dia que não é preciso sermos extremamente bons em alguma coisa para sermos os melhores, já que o erro é indissociável à própria condição humana. É difícil saber se em quaisquer outras circunstâncias teria sido uma pessoa diferente, para melhor ou para pior. Conjecturas que pela sua fiabilidade nem merecem grande ponderação. Longe de ser também perfeito, com a minha boa quota parte de erros, alguns dos quais relevantes no que hoje sou e no que poderia ter sido, tenho no entanto orgulho nos valores que me foram incutidos, na correcta distinção que faço entre o certo e o errado, nos sentimentos que foram em mim plantados e que têm vindo a ser regados ao longo dos anos, tentando mantê-los à margem de eventuais ervas daninhas. Não é fácil. Mais difícil seria se não tivesse tido um bom professor que sempre me chamou a atenção e repreendeu quando era caso disso, do tipo: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço!". Não é preciso ser perfeito para sabermos o que é o melhor para nós e para os nossos filhos, mas é importante que eles saibam a diferença entre o bom e o mau, o certo e o errado. Optar por um desses caminhos já é, depois, uma decisão nossa, porque ser pai não é dar-nos os peixes para nos alimentarmos, mas ensinar-nos a pescar. Por isso eu tenho uma profunda admiração pelo meu pai, por isso eu não fico à espera de nenhuma data em particular para me recordar dos bons momentos que passámos juntos nem da falta que ainda hoje me faz.

domingo, março 14, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

"Conta a fábula que uma vez uma cobra começou a perseguir um vaga-lume. Assustado pela presença da perigosa predadora no seu encalço, o vaga-lume fugiu tão rapidamente quanto lhe era possível, mas a cobra não revelava sinais de poder desistir. Um dia, dois dias se passaram e o vaga-lume, cada vez mais vencido pelo cansaço, não conseguia despistar a cobra. Ao terceiro dia, o vaga-lume não aguentou mais e parou. Encarou a cobra e perguntou-lhe: - Posso fazer três perguntas?
-Não costumo abrir esse precedente para ninguém - respondeu a cobra -, mas já que te vou devorar, pode perguntar.
- Eu pertenço à sua cadeia alimentar?
- Não.
- Eu fiz-te algum mal?
- Não.
- Então porque queres devorar-me? - perguntou o vaga-lume, sem saber porque lhe perseguia a cobra.
- Porque não suporto ver-te brilhar."

Será que é impressão minha ou esta fábula é afinal tão real e tão actual nos nossos dias? Incapazes de brilhar, tantas vezes, as pessoas seguem a par e passo o sucesso dos outros, a inveja sempre na ponta das línguas viperinas das serpentes de duas pernas, mais preocupadas com a vida alheia do que atentas ao próprio umbigo. Não desistam nunca de procurar o brilho, um glamour especial para a vossa vida pessoal ou profissional, mas atenção às companhias, tantas as serpentes que se escondem por trás de uma mão estendida ou de uma palmadinha nas costas.

quinta-feira, março 11, 2010

SÓ ACONTECE AOS OUTROS?



Quantas vezes não se apanharam falando sobre os outros, como se tudo de bom
SÓ ACONTECE AOS OUTROS?

"Os outros", disse-lhe a avó, as palavras semi-amordaçadas numa angustia abafada, tantas vezes as ouvira na experiência dos seus 15 anos. "Os outros pais separam-se e continuam amigos, mais que não seja pelos filhos. Os outros...", lamentou-se pela enésima vez, deixando a frase em suspenso, como costumava fazer. Seriam os outros todos assim ou fora ele que tivera azar? O mesmo azar a que a tia fazia referência de cada vez que não lhe podia comprar aquele jogo novo. Porque a vida estava má, dizia, que não sabia porque os outros, que ganhavam bem menos do que ela tinham todos carro e iam todos os anos de férias para fora, tinham filhos, eram felizes. Era verdade. "Sabes?", contava-me, como se naqueles cinco minutos sentados lado a lado na sala de espera do SAP, nos tivessem criado um vínculo de cumplicidade. "Os outros casam, os altos e os baixos, os novos e os velhos, até os feios casam, a minha tia não, porque o namorado acha que o amor nem sempre é suficiente para seguir em frente e ela, teimosa, insiste em dizer que não, mas vai acabar uma velha melancólica, amarga e solitária. Sabes o que ela diz? Que os outros têm uma vida, que não se limitam a vê-la passar, do lado errado da janela.", dizia-lhe a tia, enquanto prometia o tal jogo para um dia ainda sem data marcada. "Um dia sai-me o totoloto, não pode ser sempre aos outros". Tinha também a criança uma vaga ideia de um dia ter pensado assim, dois, três anos antes, na sorte dos outros cujos pais estavam também separados e que por isso tinham duas casas e recebiam o dobro dos presentes. Tinha invejado - ainda longe de saber que a inveja era um pecado - os actores dos filmes e das novelas, com as suas vidas de sonho e o sorriso sempre estampado na capa das revistas, e os jogadores da bola, que ganhavam fortunas a fazerem o mesmo que ele fazia por prazer, com os amigos da rua, depois dos afazeres da escola. E ainda se queixavam quando tinham de jogar duas vezes por semana. "São uns maricas!", queixou-se. Não percebia. Os outros tinham, os outros eram, os outros faziam, diziam, os outros beijavam de língua, apesar de na altura não saber bem o que isso era e achar só de si a ideia nojenta. Não importava. O que lhe incomodava era que os outros conseguiam... ele não. Aos outros não lhes faltava nada, sorte, grandes carros, mulheres perfeitas, dinheiro e respeito. Para ganhar o respeito dos colegas tinha posto um olho negro no Chico, antes dos pais - como castigo - lhe vedarem por uma semana o acesso ao computador e à playstation. Só que tudo isso fora antes, quando ainda não sabia que "os outros" não são sempre felizes nem sortudos, têm os mesmos desejos e medos, sentimentos e frustrações. Os outros - sabia hoje, e apesar de ainda não ter experimentado os beijos a que chamavam franceses - "são os fantasmas do que não somos", confidenciou-me, satisfeito pelas palavras diferentes que usava, fruto de uma maturidade que a vida cedo lhe concedeu. E eu pensei que ele era capaz de ter razão, que os outros são quase sempre o reflexo da nossa falta de coragem, a desculpa fácil para o insucesso, condicionado pelo comodismo e pelo medo de arriscar, de fazer o dia acontecer. "Hoje", dizia-me num trejeito envergonhado por não querer parecer pretensioso, "sei que sou tão especial como os outros... só que à minha própria maneira.", e piscou-me os olhos, num sorriso maroto, antes de me perguntar se queria conhecer a tia.

terça-feira, março 09, 2010

EM DEFESA DA MORAL

Este mês, no site do jornal Sol, a minha vista foi distraída pela nudez de uns contornos femininos bem delineados. O que já não me acontece quando os meus olhos tropeçam por aqueles estranhos acidentes do destino numa qualquer edição portuguesa da Playboy, vá-se lá saber porquê. Coisas do photoshop que agora não vêm ao assunto. Talvez indignados por essa mesma perfeição, e preocupados com a integridade moral da vizinhança, uma família de Nova Jérsia foi obrigada - pela polícia - a vestir uma boneca... de neve, após queixa apresentada pelos vizinhos. Americanices, num país que, apenas por coincidência, é líder do mercado pornográfico. Vale a pena recordar Marlon Brando, cuja personagem no mítico Apocalipse Now, escrevia os seus pensamentos, qualquer coisa como: Pode-se destruir com um helicóptero e napalm uma aldeia inteira, velhos, mulheres e crianças, mas não se pode escrever Fuck You na fuselagem desse mesmo helicóptero. É esta a verdadeira moral americana. (*)



* o episódio sobre o filme de Francis Ford Coppola foi retirado dos comentários ao post aqui referido.

segunda-feira, março 08, 2010

PARA ENTENDER UMA MULHER

Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…

Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase
numa cama, em uma seda, com toda viril possibilidade… Há de se conseguir
fazê-la sorrir antes do próximo encontro

Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo, tem de ser mais que
amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e
fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso…

- O potente, o amante, o homem viril, são homens bons… bons homens de
abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias… Há, porém, o homem certo, de todo
instante: O de depois!

Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante, há de se querer o amanhã,
e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.

É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café… Há que ser mulher,
por um triz e, então, ser feliz!

Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido, e também
ser possuído e, ainda assim, também ser viril…

Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado… todo tomado e, com um pouco de sorte, também ser
amado!”


Carlos Drumond de Andrade

DIA (S) DAS MULHERES

Não vou alongar-me nem dizer como já ouvi hoje que, tendo as mulheres um dia que lhes é consagrado, em todos os outros são os homens que mandam. Mas será isso que realmente pensamos, partindo do princípio que o somos capazes de fazer sem a ajuda delas, ou aquilo que elas querem que a gente pense, sendo que na realidade todos os dias sem excepção são, afinal, delas, das nossas mulheres... e das mulheres dos outros. Existem vários estudos sobre o tempo que um homem dedica por dia a pensar numa mulher (é mais bonito do que dizer "em sexo", por isso digo "mulher", com mais - no caso dos poetas - ou menos roupa). Afinal, num mundo recheado de guerras, mergulhado em problemas socio-económicos e políticos, haverá melhor pensamento do que a esperança, o amor, a felicidade, a delicadeza e a pureza duma simples flor, a doçura de um olhar como um rio de águas calmas que nos embala o stress diário do nosso quotidiano? Tudo isso a mulher nos traz, está de tal forma implícito no seu lado feminino ou simplesmente na ideia como as vemos, a outra metade sem a qual nos completamos. Poderia neste texto realçar todas as grandes vitórias ao longo dos tempos sobre um machismo ignorante e exacerbado passado (imposto, muitas vezes à força) de geração em geração, mas não o faço, por respeito. Não pela sua maior ou menor importância, mas por correr o risco de ,também eu estar a oferecer às mulheres, nestas linhas, uma bolacha, uma só, tomando para mim o resto de um pacote imenso. Não se é pai por um dia, nem as crianças têm direitos um único dia por ano. Qualquer dia é bom para presentearmos a família, os amigos, até a Mulher. Homenagear a Mulher, os seus direitos, a sua relevância não pode nem deve nunca ser uma migalha, a tal última bolacha do pacote, quando até os pombos têm direito a mais que uma. Por trás de cada grande homem sempre esteve e estará uma grande mulher (e por trás desta a esposa dele e a sogra), por trás de cada poema haverá sempre uma musa, mesmo que em forma de Lua. Por isso, aqui, hoje, quando ainda tanta comunicação entre os casais (maridos e mulheres, namorados, conhecidos e desconhecidos, pessoas) se baseia na violência física ou psicológica, e correndo o risco de me repetir, deixo a minha singela homenagem a todas as mães, filhas, amantes, companheiras, mulheres sobretudo, com as sábias palavras de um homem também ele grande, Orson Welles: "Se não fossem as mulheres, o homem ainda estaria agachado em uma caverna, comendo carne crua. Nós só construímos a civilização com o fim de impressionar as nossas namoradas."

domingo, março 07, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


O AMOR EM SEGUNDOS

do prazer da descoberta à monotonia das certezas

Abro os jornais que falam de uma estatística assustadora no que se refere à violência doméstica e crimes passionais. Onde param os poetas de outrora, as grandes obras que exultavam o amor, as paixões de Pedro e Inês e de Romeu e Julieta, tragédias, apesar de tudo. Será que o amor é mesmo fodido?, como nas palavras de Miguel Esteves Cardoso? Serão Amor e Dor apenas duas palavras que rimam ou que além de tudo o mais palavras que nos fazem sangrar de um sangue que não se vê mas que se sente, que dói. Que sei eu sobre o segredo da felicidade ou as regras do amor? Nada, e se soubesse não dizia a ninguém, escondia os sentimentos do mundo numa caixa e jogava a chave fora só para que ninguém mais se ferisse ao usá-los. Como se isso de ser imune à dor até tivesse piada. A verdade é que nós, humanos, sensíveis, somos especialistas na repetição do erro, inexplicavelmente dotados de uma atracção pelo abismo no que se refere à nossa capacidade emocional. Podemos saber que uma pessoa não é a melhor para nós, que uma relação - por mais amor que haja - está condenada ao fracasso, que o passo para a frente significa uma queda cujas consequências podem ser drásticas e mesmo assim avançamos. Cada novo "amo-te" que proferimos nestes dias é quanto muito um descuido do coração a falar mais alto que a razão, mas a verdade é que todo o apaixonado é um cego, que embora podendo se recusa a ver, prefere viver nesse limbo de angustia eterna à certeza boa ou má. Um bom romance sobrevive de mistério. Querem saber as regras do amor? Não ter regras nenhumas. É esse o principal segredo do amor e tantas vezes da vida, a incapacidade que temos de lhe colocar regras, de prever cada passo, de o domar como se fosse um cavalo bravo. Não adianta planear, embora a imaginação e a improvisação sempre ajudem. O casal ideal não dá nada como certo, ele sabe que, a vitória numa batalha não lhe garante a guerra. Esta é ganha em decisões, em detalhes, pormenores, não em promessas, numa flor que se dá sem esperar e eu nunca ofereci uma flor que fosse, nem uma simples rosa. Se quiser manter viva a chama, seja espontâneo sem ser dramático. Surpreender e deixar-se surpreender, conquistar todos os dias como se fossem o primeiro... ou o último, a derradeira oportunidade, seduzir... é essencial e não acontece só nos filmes. Nunca pensei muito a sério como iniciar uma relação, mas apenas quando realmente deixei de pensar no assunto ela aconteceu e eu simplesmente a deixei fluir. É tudo muito bonito no princípio, na chamada idade da inocência, dos desejos mal-contidos, no tempo dos porquês. Só que um dia, sem nos darmos conta, pensamos que já sabemos tudo um do outro e deixamos de lado as perguntas, as descobertas, a subtileza e o galanteio e trocamos o incerto pelo certo. Foi aí que tudo terminou, quando passámos das dúvidas para as certezas e o pouco que sabíamos revelou-se tão frágil como um castelo de cartas ao vento. Os planos e a frieza das datas, o fim das horas que deixávamos voar - tentando em desespero imobilizá-las no tempo dos beijos e das carícias mais ousadas, as mãos trémulas de impaciência e do medo da rejeição -, deram lugar aos minutos cronometrados ao segundo e que acabaram com tudo. Porque temos de ser sérios, de perdermos para a idade adulta e para o casamento a irreverência da juventude? Houve um tempo, eu lembro-me, em que o tempo era sempre curto e o desejo imenso. Hoje sobra o tempo na ausência de ter com quem.

quinta-feira, março 04, 2010

QUEM TE VIU...

Num sempre interessante e curioso trabalho de reportagem, a SIC deu-nos a conhecer, ontem, o que foi feito de Maria Armanda, um dos rostos que ajudaram a construir as memórias televisivas de uma geração da qual faço parte. Poucos são aqueles que não se lembram ou mesmo trautearam "Eu Vi Um Sapo" durante a infância. Maria Armanda tinha então 5 anos e volvidos quase 30 fomos encontrá-la a vender telemóveis. Os sonhos da juventude são muitas vezes assim, frágeis, tal a facilidade com que se constroem carreiras alicerçadas em pouco mais de uma mão cheia de sonhos. Maria Armanda foi crescendo e despertou desse sonho ao mesmo tempo que tentava fazer carreira no glamoroso mundo da música e do espectáculo, mas toda a gente queria que ela cantasse o tema do sapo. Desistiu. Hoje a pequena Maria Armanda está mais crescida, continua com aquela expressão fresca de menina, é mãe e dos sonhos de outrora guarda ainda um, o de ir um dia a Inglaterra.











Deste Lado, sem esquecer o laborioso trabalho dos jornalistas da SIC, lamentamos contudo a falta de precisão no que poderia ser uma excelente reportagem, não fosse uma lacuna, uma grave lacuna. O pessoal aqui do Lado não estava nem um pouco interessado no que foi feito da pequena Maria Armanda. Não, a pergunta principal continua sem resposta: O que foi feito do sapo, quase três décadas depois de ter sido interrompido por aquela menina queixinhas, logo quando ele estava a papar?

terça-feira, março 02, 2010

ÁGUAS DE MARÇO

Águas de Março tingem o mar de um triste e soturno verde pálido, tão distantes das matizes azuladas em que o nosso olhar se perdia, disperso dos afazeres das mãos. Ao longe a silhueta desfocada de um cacilheiro embalado na valsa da maré suspende recordações de um momento sem passado nem futuro, sem barcos nem terra à vista nos olhos semicerrados de então, cegos de ternura e de paixão, de um tesão difícil de conter. Hoje os barcos voltaram ao Tejo, mas perderam a cor viva dos sonhos. Digo para mim mesmo que consigo continuar: "Olha, sem mãos!". Tropeço na ausência dos teus braços envolventes que me impediam de naufragar e misturo o sangue das minhas lágrimas nas águas turvas de um triste fado.

domingo, fevereiro 28, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


PERGUNTA INDISCRETA

Chuva, chuva, chuva, muita chuva numa semana que até começou com a temperatura em alta numa perspectiva não necessariamente metereologica. Uma semana em que os jogadores do Sporting despertaram de uma prolongada letargia e venceram de seguida Everton e FC Porto por concludentes 3 a 0. Se eu fosse do Benfica estava contente, como não... vou engolindo uns quantos sapos vivos. Foi igualmente uma semana em que Silvio Berlusconi, o polémico e intratável primeiro-ministro italiano resolveu escolher Nicole Minetti como candidata do seu partido, Povo da Liberdade, às eleições regionais de Março, na Lombardia. Para quem tem andado um bocado distraído, Nicole Minetti é, a modos que uma nova Cinderela, qual conto de fadas dos tempos modernos. Ex-bailarina em programas de televisão, a frágil, doce e ingénua signorina Minetti, actualmente higienista oral, tratou da boca a Berlusconi, depois do ataque de que este foi alvo em Dezembro do ano passado. A competência do tratamento oral foi tal que os predicados profissionais de Nicole não passaram em claro ao olho clínico do actual homem forte da Itália e do AC Milan. Ficava assim levantado o véu sobre o mistério de um país que consegue ter no seu governo as ministras e deputadas mais sedutoras e provocadoras da Europa e não só, depois de Graziana Capone (modelo conhecida por Angelina Jolie italiana) também se ter apresentado às regionais e da não menos polémica Cicciolina ter sido também em tempos idos candidata às eleições. Mais do que tornado assim ainda evidente que Manuela Ferreira Leite nunca faria carreira política em Itália, pergunto aos altos responsáveis pelo PSD, a quem caberia tornar credível o Partido como principal força da oposição, se na Itália as mulheres ligadas à política são escolhidas em função duma preocupação legitimamente genética, a eterna e salutar busca da perfeição e, já que por aqui esse é um factor considerado irrelevante, como o é também o da aptidão, qual é então o misterioso critério português para a escolha dos nossos políticos?

P.S. Numa semana marcada principalmente pelas intempéries que se vão sucedendo pelo globo (depois do Haiti a Madeira, o Chile, etc, etc, etc), semeando destruição e morte numa clara demonstração da força da Natureza, e sem deixar de deixar aqui uma palavra de solidariedade para com os sobreviventes e as vítimas destas tragédias, chamo a atenção para um excelente texto de Sam Seaborn, aqui, que fala sobre o "day after" da tragédia e a dor de cadeiras vazias. Pessoalmente, prefiro nem me alongar muito sobre o que é perder um ente querido, uma casa, uma vida, a esperança. É preciso muita coragem para seguir em frente e eu não sou assim tão corajoso. Daqui envio a minha admiração e os meus votos de um amanhã melhor para todas essas pessoas que reerguem a sua vida sob os escombros do infortúnio.