segunda-feira, abril 26, 2010

O 25 DE ABRIL FOI ONTEM

Comemorou-se ontem o 36º aniversário do 25 de Abril de 1974, data que suscitará sempre discussões, mais ou menos acaloradas. Não vou responder à pergunta óbvia, sobre onde estava por essa altura, pois seria quase um exercício especulativo, já que na altura, a política não era - certamente - uma das minhas prioridades. Da mesma forma não irei pelo caminho sinuoso de discutir sobre as qualidades e defeitos do Antigo Regime em comparação com os nossos dias, não caindo no facilitismo de achar que antigamente era tudo mau. Não era, como também não é tudo cor de rosa hoje em dia, antes pelo contrário. O extremismo de posições continua a ser um dos principais focos de instabilidade e irracionalismo nas sociedades actuais, em nada contribuindo para a aproximação entre as pessoas ou nações. Indiscutível era - é ainda - a necessidade de mudar. O desenvolvimento faz-se de revoluções, populares, emocionais, colectivas ou individuais, sempre que exista a necessidade de mudar, de sair da letargia antes que nos acostumemos mesmo ao que não nos convém, apenas pelo medo de lutar, contra os outros ou mesmo contra nós mesmos. Não estando em causa os motivos que levaram à Revolução dos Cravos, é ponto quase assente que a estratégia dos ideais de Abril falhou, da mesma forma que falharam tantas outras revoluções carregadas de boas vontades, traídas pela ambição dos homens, cujos ideais e vontades se transformam tão facilmente, consoante se encontrem no poder ou na oposição. Não estaremos então ainda a tempo de, ao invés de nos prendermos a um sentimento revivalista e nostálgico, tentarmos de novo, emendando os passos errados de outrora? É altura de uma nova revolução, menos emocional, mais racional. Somos - continuamos - demasiado passivos no que toca à acção, reclamando que atitudes consideradas como necessárias sejam sempre tomadas pelos outros, responsabilizando-os depois por tudo o que está mal, mesmo pela nossa inércia, esperando que um dia, por algum fortuito golpe de magia, tudo melhore. Submersos num cinzentismo psicológico, alimentando-nos de símbolos de um passado antigo e desgastado, dos Descobrimentos ao Benfica do Eusébio, ao fado de Amália, ao fado que é nossa sina e já com saudades do escudo, não estará na hora de largarmos os nossos inseparáveis "ses" e "naquele tempo é que era bom" e fazer acontecer um novo Presente, um Abril re-inventado e com pernas para andar? Os milhares de desempregados e outros tantos que vivem na corda bamba, com o coração em permanente sobressalto... onde estavam no 25 de Abril de 74? Que interessa? Interessa-me saber sim, onde estarão amanhã, onde estarão os nossos pais, irmãos, filhos e netos. Ontem... já lá vai!, não volta.

quinta-feira, abril 01, 2010

1º DE ABRIL

"A mentira faz parte da natureza humana, sem ela seria impossível viver em sociedade (...)
Até há uma estatística que diz que em dois minutos de conversação, há três mentiras (...) É tão importante mentir que até inventámos um dia das mentiras."

Estas afirmações pertencem ao psiquiatra Américo Baptista, publicadas hoje no jornal Global. Gostava de pensar que existe um certo exagero no que diz, que mentir não é tão importante para vivermos em sociedade, mas seria estar a enganar-me a mim mesmo, e essa é uma mentira que não quero proferir. Desde já aviso que nunca roubei, nunca menti, nunca vi filmes pornográficos ou cobicei a mulher do próximo. Nunca cometi um erro no meu trabalho, nem inventei desculpas para justificar-me perante ninguém, pais, amigos, namorada ou chefe. Mentimos. Mentimos muito, tanto, quando pequenos para escapar do raspanete do pai, nas doenças que inventamos para faltar às aulas, nas histórias contadas aos colegas sobre façanhas que nunca cometemos, sobre mulheres, sobre jogos que nunca jogámos porque nunca os pudemos sequer comprar. Mentimos quando somos cínicos para com as pessoas que não suportamos, nos desejos forçados de um bom dia, quando interrompemos o discurso ensaiado do telefonema sobre as promoções da MEO ou da ZON com um educado "não tenho tempo", mentimos já sem dar por isso e, pior, mesmo que daí não advenha qualquer vantagem. Mentimos quando nos perguntam se estamos bem e respondemos que sim, porque é a saída mais fácil ou que não, começando a contar um número exagerado de doenças e problemas apenas para que se compadeçam de nós. Mentimos para justificar o atraso no emprego, o erro cometido ou mesmo quando a mulher nos pergunta se estávamos a olhar para outra. Nunca! "Tu és a única mulher na minha vida! Morreria - outra das mentiras mais frequentes - por ti." Mente ainda o pescador e o caçador, o político e o apaixonado, o poeta e o ladrão. Somos mentirosos compulsivos, Pinóquios de carne e osso, espantados e irritados com as mentiras dos nossos governantes como se fossemos exemplares perfeitos, almas puras, imaculadas de qualquer pecado, dignos de um qualquer Fernão Mendes... Minto.

domingo, março 21, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

Nunca fui de marcar dias para os afectos, de celebrar de maneira especial os dias consagrados pelo calendário, como se nos restantes 364 dias estivesse dispensado de o fazer. Dias de consumo, comerciais, como aquelas músicas que dizem não ter qualidade, mas que vendem, porque é nesse sentido que elas são produzidas. Assim, oferecer uma prenda ao pai a 19 de Março é quase como uma obrigação. Não importa se no resto do ano nem sequer o vá visitar, mas esquecer-me deste dia é uma desfeita só comparável a ir à igreja e não pagar o dízimo, porque estarei a ofender Deus, O Pai, a principal figura paterna na hierarquia daqueles que acreditam, que uma qualquer estranha reza, um simples acto de misticismo pode curar o vírus da sida ou as mais estranhas e incuráveis maleitas. Em pleno 2010 continuamos a ser influenciados por crenças, por charlatões, daqueles que antigamente andavam pelas feiras a venderem a banha da cobra - hoje baba de caracol, eficaz para todos os males -, por bruxas, por aparências, pela hipocrisia. Ergam, pais, os vossos fracos membros superiores aos céus, agradecendo pelo dia que lhes foi consagrado. Sorriam mesmo que através duma dentadura postiça, mesmo que por uma boca já estragada, que a parca reforma não deixa arranjar, sorriam... pelas frestas do olhar por norma triste e vencido, do carácter que ainda subsiste, último baluarte de uma época quase esquecida, em que o pai era a trave mestra da família, exemplo para os filhos, o sábio, mesmo que a inteligência se medisse pela experiência da vida e não dos livros. Abram as portas dos lares, de par em par, que hoje é dia de deixar entrar os filhos e os netos - constrangidos por terem sido forçados a largar as playstations. Vêm sorridentes, trazem beijos e presentes, alguns afectos, promessas de voltar e um relógio que não pára, desculpa para o tempo que não têm, porque duma visita de médico se trata. Compromissos inadiáveis, dizem, porque nada pode ficar para trás, só os pais. É então um beijo e adeus, regado com os desejos sempre sinceros de melhoras. Amo-te, pai, até para o ano!

Gostar dos pais não é obrigação. O meu pai não era o melhor dos pais, nem o mais perfeito dos homens, longe disso. Mas eu gostava dele mesmo assim, mesmo sem ser obrigado a fazê-lo, mesmo com todos os seus erros e imperfeições. Aprendi um dia que não é preciso sermos extremamente bons em alguma coisa para sermos os melhores, já que o erro é indissociável à própria condição humana. É difícil saber se em quaisquer outras circunstâncias teria sido uma pessoa diferente, para melhor ou para pior. Conjecturas que pela sua fiabilidade nem merecem grande ponderação. Longe de ser também perfeito, com a minha boa quota parte de erros, alguns dos quais relevantes no que hoje sou e no que poderia ter sido, tenho no entanto orgulho nos valores que me foram incutidos, na correcta distinção que faço entre o certo e o errado, nos sentimentos que foram em mim plantados e que têm vindo a ser regados ao longo dos anos, tentando mantê-los à margem de eventuais ervas daninhas. Não é fácil. Mais difícil seria se não tivesse tido um bom professor que sempre me chamou a atenção e repreendeu quando era caso disso, do tipo: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço!". Não é preciso ser perfeito para sabermos o que é o melhor para nós e para os nossos filhos, mas é importante que eles saibam a diferença entre o bom e o mau, o certo e o errado. Optar por um desses caminhos já é, depois, uma decisão nossa, porque ser pai não é dar-nos os peixes para nos alimentarmos, mas ensinar-nos a pescar. Por isso eu tenho uma profunda admiração pelo meu pai, por isso eu não fico à espera de nenhuma data em particular para me recordar dos bons momentos que passámos juntos nem da falta que ainda hoje me faz.

domingo, março 14, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

"Conta a fábula que uma vez uma cobra começou a perseguir um vaga-lume. Assustado pela presença da perigosa predadora no seu encalço, o vaga-lume fugiu tão rapidamente quanto lhe era possível, mas a cobra não revelava sinais de poder desistir. Um dia, dois dias se passaram e o vaga-lume, cada vez mais vencido pelo cansaço, não conseguia despistar a cobra. Ao terceiro dia, o vaga-lume não aguentou mais e parou. Encarou a cobra e perguntou-lhe: - Posso fazer três perguntas?
-Não costumo abrir esse precedente para ninguém - respondeu a cobra -, mas já que te vou devorar, pode perguntar.
- Eu pertenço à sua cadeia alimentar?
- Não.
- Eu fiz-te algum mal?
- Não.
- Então porque queres devorar-me? - perguntou o vaga-lume, sem saber porque lhe perseguia a cobra.
- Porque não suporto ver-te brilhar."

Será que é impressão minha ou esta fábula é afinal tão real e tão actual nos nossos dias? Incapazes de brilhar, tantas vezes, as pessoas seguem a par e passo o sucesso dos outros, a inveja sempre na ponta das línguas viperinas das serpentes de duas pernas, mais preocupadas com a vida alheia do que atentas ao próprio umbigo. Não desistam nunca de procurar o brilho, um glamour especial para a vossa vida pessoal ou profissional, mas atenção às companhias, tantas as serpentes que se escondem por trás de uma mão estendida ou de uma palmadinha nas costas.

quinta-feira, março 11, 2010

SÓ ACONTECE AOS OUTROS?



Quantas vezes não se apanharam falando sobre os outros, como se tudo de bom
SÓ ACONTECE AOS OUTROS?

"Os outros", disse-lhe a avó, as palavras semi-amordaçadas numa angustia abafada, tantas vezes as ouvira na experiência dos seus 15 anos. "Os outros pais separam-se e continuam amigos, mais que não seja pelos filhos. Os outros...", lamentou-se pela enésima vez, deixando a frase em suspenso, como costumava fazer. Seriam os outros todos assim ou fora ele que tivera azar? O mesmo azar a que a tia fazia referência de cada vez que não lhe podia comprar aquele jogo novo. Porque a vida estava má, dizia, que não sabia porque os outros, que ganhavam bem menos do que ela tinham todos carro e iam todos os anos de férias para fora, tinham filhos, eram felizes. Era verdade. "Sabes?", contava-me, como se naqueles cinco minutos sentados lado a lado na sala de espera do SAP, nos tivessem criado um vínculo de cumplicidade. "Os outros casam, os altos e os baixos, os novos e os velhos, até os feios casam, a minha tia não, porque o namorado acha que o amor nem sempre é suficiente para seguir em frente e ela, teimosa, insiste em dizer que não, mas vai acabar uma velha melancólica, amarga e solitária. Sabes o que ela diz? Que os outros têm uma vida, que não se limitam a vê-la passar, do lado errado da janela.", dizia-lhe a tia, enquanto prometia o tal jogo para um dia ainda sem data marcada. "Um dia sai-me o totoloto, não pode ser sempre aos outros". Tinha também a criança uma vaga ideia de um dia ter pensado assim, dois, três anos antes, na sorte dos outros cujos pais estavam também separados e que por isso tinham duas casas e recebiam o dobro dos presentes. Tinha invejado - ainda longe de saber que a inveja era um pecado - os actores dos filmes e das novelas, com as suas vidas de sonho e o sorriso sempre estampado na capa das revistas, e os jogadores da bola, que ganhavam fortunas a fazerem o mesmo que ele fazia por prazer, com os amigos da rua, depois dos afazeres da escola. E ainda se queixavam quando tinham de jogar duas vezes por semana. "São uns maricas!", queixou-se. Não percebia. Os outros tinham, os outros eram, os outros faziam, diziam, os outros beijavam de língua, apesar de na altura não saber bem o que isso era e achar só de si a ideia nojenta. Não importava. O que lhe incomodava era que os outros conseguiam... ele não. Aos outros não lhes faltava nada, sorte, grandes carros, mulheres perfeitas, dinheiro e respeito. Para ganhar o respeito dos colegas tinha posto um olho negro no Chico, antes dos pais - como castigo - lhe vedarem por uma semana o acesso ao computador e à playstation. Só que tudo isso fora antes, quando ainda não sabia que "os outros" não são sempre felizes nem sortudos, têm os mesmos desejos e medos, sentimentos e frustrações. Os outros - sabia hoje, e apesar de ainda não ter experimentado os beijos a que chamavam franceses - "são os fantasmas do que não somos", confidenciou-me, satisfeito pelas palavras diferentes que usava, fruto de uma maturidade que a vida cedo lhe concedeu. E eu pensei que ele era capaz de ter razão, que os outros são quase sempre o reflexo da nossa falta de coragem, a desculpa fácil para o insucesso, condicionado pelo comodismo e pelo medo de arriscar, de fazer o dia acontecer. "Hoje", dizia-me num trejeito envergonhado por não querer parecer pretensioso, "sei que sou tão especial como os outros... só que à minha própria maneira.", e piscou-me os olhos, num sorriso maroto, antes de me perguntar se queria conhecer a tia.

terça-feira, março 09, 2010

EM DEFESA DA MORAL

Este mês, no site do jornal Sol, a minha vista foi distraída pela nudez de uns contornos femininos bem delineados. O que já não me acontece quando os meus olhos tropeçam por aqueles estranhos acidentes do destino numa qualquer edição portuguesa da Playboy, vá-se lá saber porquê. Coisas do photoshop que agora não vêm ao assunto. Talvez indignados por essa mesma perfeição, e preocupados com a integridade moral da vizinhança, uma família de Nova Jérsia foi obrigada - pela polícia - a vestir uma boneca... de neve, após queixa apresentada pelos vizinhos. Americanices, num país que, apenas por coincidência, é líder do mercado pornográfico. Vale a pena recordar Marlon Brando, cuja personagem no mítico Apocalipse Now, escrevia os seus pensamentos, qualquer coisa como: Pode-se destruir com um helicóptero e napalm uma aldeia inteira, velhos, mulheres e crianças, mas não se pode escrever Fuck You na fuselagem desse mesmo helicóptero. É esta a verdadeira moral americana. (*)



* o episódio sobre o filme de Francis Ford Coppola foi retirado dos comentários ao post aqui referido.

segunda-feira, março 08, 2010

PARA ENTENDER UMA MULHER

Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…

Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase
numa cama, em uma seda, com toda viril possibilidade… Há de se conseguir
fazê-la sorrir antes do próximo encontro

Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo, tem de ser mais que
amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e
fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso…

- O potente, o amante, o homem viril, são homens bons… bons homens de
abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias… Há, porém, o homem certo, de todo
instante: O de depois!

Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante, há de se querer o amanhã,
e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.

É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café… Há que ser mulher,
por um triz e, então, ser feliz!

Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido, e também
ser possuído e, ainda assim, também ser viril…

Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado… todo tomado e, com um pouco de sorte, também ser
amado!”


Carlos Drumond de Andrade

DIA (S) DAS MULHERES

Não vou alongar-me nem dizer como já ouvi hoje que, tendo as mulheres um dia que lhes é consagrado, em todos os outros são os homens que mandam. Mas será isso que realmente pensamos, partindo do princípio que o somos capazes de fazer sem a ajuda delas, ou aquilo que elas querem que a gente pense, sendo que na realidade todos os dias sem excepção são, afinal, delas, das nossas mulheres... e das mulheres dos outros. Existem vários estudos sobre o tempo que um homem dedica por dia a pensar numa mulher (é mais bonito do que dizer "em sexo", por isso digo "mulher", com mais - no caso dos poetas - ou menos roupa). Afinal, num mundo recheado de guerras, mergulhado em problemas socio-económicos e políticos, haverá melhor pensamento do que a esperança, o amor, a felicidade, a delicadeza e a pureza duma simples flor, a doçura de um olhar como um rio de águas calmas que nos embala o stress diário do nosso quotidiano? Tudo isso a mulher nos traz, está de tal forma implícito no seu lado feminino ou simplesmente na ideia como as vemos, a outra metade sem a qual nos completamos. Poderia neste texto realçar todas as grandes vitórias ao longo dos tempos sobre um machismo ignorante e exacerbado passado (imposto, muitas vezes à força) de geração em geração, mas não o faço, por respeito. Não pela sua maior ou menor importância, mas por correr o risco de ,também eu estar a oferecer às mulheres, nestas linhas, uma bolacha, uma só, tomando para mim o resto de um pacote imenso. Não se é pai por um dia, nem as crianças têm direitos um único dia por ano. Qualquer dia é bom para presentearmos a família, os amigos, até a Mulher. Homenagear a Mulher, os seus direitos, a sua relevância não pode nem deve nunca ser uma migalha, a tal última bolacha do pacote, quando até os pombos têm direito a mais que uma. Por trás de cada grande homem sempre esteve e estará uma grande mulher (e por trás desta a esposa dele e a sogra), por trás de cada poema haverá sempre uma musa, mesmo que em forma de Lua. Por isso, aqui, hoje, quando ainda tanta comunicação entre os casais (maridos e mulheres, namorados, conhecidos e desconhecidos, pessoas) se baseia na violência física ou psicológica, e correndo o risco de me repetir, deixo a minha singela homenagem a todas as mães, filhas, amantes, companheiras, mulheres sobretudo, com as sábias palavras de um homem também ele grande, Orson Welles: "Se não fossem as mulheres, o homem ainda estaria agachado em uma caverna, comendo carne crua. Nós só construímos a civilização com o fim de impressionar as nossas namoradas."

domingo, março 07, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


O AMOR EM SEGUNDOS

do prazer da descoberta à monotonia das certezas

Abro os jornais que falam de uma estatística assustadora no que se refere à violência doméstica e crimes passionais. Onde param os poetas de outrora, as grandes obras que exultavam o amor, as paixões de Pedro e Inês e de Romeu e Julieta, tragédias, apesar de tudo. Será que o amor é mesmo fodido?, como nas palavras de Miguel Esteves Cardoso? Serão Amor e Dor apenas duas palavras que rimam ou que além de tudo o mais palavras que nos fazem sangrar de um sangue que não se vê mas que se sente, que dói. Que sei eu sobre o segredo da felicidade ou as regras do amor? Nada, e se soubesse não dizia a ninguém, escondia os sentimentos do mundo numa caixa e jogava a chave fora só para que ninguém mais se ferisse ao usá-los. Como se isso de ser imune à dor até tivesse piada. A verdade é que nós, humanos, sensíveis, somos especialistas na repetição do erro, inexplicavelmente dotados de uma atracção pelo abismo no que se refere à nossa capacidade emocional. Podemos saber que uma pessoa não é a melhor para nós, que uma relação - por mais amor que haja - está condenada ao fracasso, que o passo para a frente significa uma queda cujas consequências podem ser drásticas e mesmo assim avançamos. Cada novo "amo-te" que proferimos nestes dias é quanto muito um descuido do coração a falar mais alto que a razão, mas a verdade é que todo o apaixonado é um cego, que embora podendo se recusa a ver, prefere viver nesse limbo de angustia eterna à certeza boa ou má. Um bom romance sobrevive de mistério. Querem saber as regras do amor? Não ter regras nenhumas. É esse o principal segredo do amor e tantas vezes da vida, a incapacidade que temos de lhe colocar regras, de prever cada passo, de o domar como se fosse um cavalo bravo. Não adianta planear, embora a imaginação e a improvisação sempre ajudem. O casal ideal não dá nada como certo, ele sabe que, a vitória numa batalha não lhe garante a guerra. Esta é ganha em decisões, em detalhes, pormenores, não em promessas, numa flor que se dá sem esperar e eu nunca ofereci uma flor que fosse, nem uma simples rosa. Se quiser manter viva a chama, seja espontâneo sem ser dramático. Surpreender e deixar-se surpreender, conquistar todos os dias como se fossem o primeiro... ou o último, a derradeira oportunidade, seduzir... é essencial e não acontece só nos filmes. Nunca pensei muito a sério como iniciar uma relação, mas apenas quando realmente deixei de pensar no assunto ela aconteceu e eu simplesmente a deixei fluir. É tudo muito bonito no princípio, na chamada idade da inocência, dos desejos mal-contidos, no tempo dos porquês. Só que um dia, sem nos darmos conta, pensamos que já sabemos tudo um do outro e deixamos de lado as perguntas, as descobertas, a subtileza e o galanteio e trocamos o incerto pelo certo. Foi aí que tudo terminou, quando passámos das dúvidas para as certezas e o pouco que sabíamos revelou-se tão frágil como um castelo de cartas ao vento. Os planos e a frieza das datas, o fim das horas que deixávamos voar - tentando em desespero imobilizá-las no tempo dos beijos e das carícias mais ousadas, as mãos trémulas de impaciência e do medo da rejeição -, deram lugar aos minutos cronometrados ao segundo e que acabaram com tudo. Porque temos de ser sérios, de perdermos para a idade adulta e para o casamento a irreverência da juventude? Houve um tempo, eu lembro-me, em que o tempo era sempre curto e o desejo imenso. Hoje sobra o tempo na ausência de ter com quem.

quinta-feira, março 04, 2010

QUEM TE VIU...

Num sempre interessante e curioso trabalho de reportagem, a SIC deu-nos a conhecer, ontem, o que foi feito de Maria Armanda, um dos rostos que ajudaram a construir as memórias televisivas de uma geração da qual faço parte. Poucos são aqueles que não se lembram ou mesmo trautearam "Eu Vi Um Sapo" durante a infância. Maria Armanda tinha então 5 anos e volvidos quase 30 fomos encontrá-la a vender telemóveis. Os sonhos da juventude são muitas vezes assim, frágeis, tal a facilidade com que se constroem carreiras alicerçadas em pouco mais de uma mão cheia de sonhos. Maria Armanda foi crescendo e despertou desse sonho ao mesmo tempo que tentava fazer carreira no glamoroso mundo da música e do espectáculo, mas toda a gente queria que ela cantasse o tema do sapo. Desistiu. Hoje a pequena Maria Armanda está mais crescida, continua com aquela expressão fresca de menina, é mãe e dos sonhos de outrora guarda ainda um, o de ir um dia a Inglaterra.











Deste Lado, sem esquecer o laborioso trabalho dos jornalistas da SIC, lamentamos contudo a falta de precisão no que poderia ser uma excelente reportagem, não fosse uma lacuna, uma grave lacuna. O pessoal aqui do Lado não estava nem um pouco interessado no que foi feito da pequena Maria Armanda. Não, a pergunta principal continua sem resposta: O que foi feito do sapo, quase três décadas depois de ter sido interrompido por aquela menina queixinhas, logo quando ele estava a papar?

terça-feira, março 02, 2010

ÁGUAS DE MARÇO

Águas de Março tingem o mar de um triste e soturno verde pálido, tão distantes das matizes azuladas em que o nosso olhar se perdia, disperso dos afazeres das mãos. Ao longe a silhueta desfocada de um cacilheiro embalado na valsa da maré suspende recordações de um momento sem passado nem futuro, sem barcos nem terra à vista nos olhos semicerrados de então, cegos de ternura e de paixão, de um tesão difícil de conter. Hoje os barcos voltaram ao Tejo, mas perderam a cor viva dos sonhos. Digo para mim mesmo que consigo continuar: "Olha, sem mãos!". Tropeço na ausência dos teus braços envolventes que me impediam de naufragar e misturo o sangue das minhas lágrimas nas águas turvas de um triste fado.

domingo, fevereiro 28, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


PERGUNTA INDISCRETA

Chuva, chuva, chuva, muita chuva numa semana que até começou com a temperatura em alta numa perspectiva não necessariamente metereologica. Uma semana em que os jogadores do Sporting despertaram de uma prolongada letargia e venceram de seguida Everton e FC Porto por concludentes 3 a 0. Se eu fosse do Benfica estava contente, como não... vou engolindo uns quantos sapos vivos. Foi igualmente uma semana em que Silvio Berlusconi, o polémico e intratável primeiro-ministro italiano resolveu escolher Nicole Minetti como candidata do seu partido, Povo da Liberdade, às eleições regionais de Março, na Lombardia. Para quem tem andado um bocado distraído, Nicole Minetti é, a modos que uma nova Cinderela, qual conto de fadas dos tempos modernos. Ex-bailarina em programas de televisão, a frágil, doce e ingénua signorina Minetti, actualmente higienista oral, tratou da boca a Berlusconi, depois do ataque de que este foi alvo em Dezembro do ano passado. A competência do tratamento oral foi tal que os predicados profissionais de Nicole não passaram em claro ao olho clínico do actual homem forte da Itália e do AC Milan. Ficava assim levantado o véu sobre o mistério de um país que consegue ter no seu governo as ministras e deputadas mais sedutoras e provocadoras da Europa e não só, depois de Graziana Capone (modelo conhecida por Angelina Jolie italiana) também se ter apresentado às regionais e da não menos polémica Cicciolina ter sido também em tempos idos candidata às eleições. Mais do que tornado assim ainda evidente que Manuela Ferreira Leite nunca faria carreira política em Itália, pergunto aos altos responsáveis pelo PSD, a quem caberia tornar credível o Partido como principal força da oposição, se na Itália as mulheres ligadas à política são escolhidas em função duma preocupação legitimamente genética, a eterna e salutar busca da perfeição e, já que por aqui esse é um factor considerado irrelevante, como o é também o da aptidão, qual é então o misterioso critério português para a escolha dos nossos políticos?

P.S. Numa semana marcada principalmente pelas intempéries que se vão sucedendo pelo globo (depois do Haiti a Madeira, o Chile, etc, etc, etc), semeando destruição e morte numa clara demonstração da força da Natureza, e sem deixar de deixar aqui uma palavra de solidariedade para com os sobreviventes e as vítimas destas tragédias, chamo a atenção para um excelente texto de Sam Seaborn, aqui, que fala sobre o "day after" da tragédia e a dor de cadeiras vazias. Pessoalmente, prefiro nem me alongar muito sobre o que é perder um ente querido, uma casa, uma vida, a esperança. É preciso muita coragem para seguir em frente e eu não sou assim tão corajoso. Daqui envio a minha admiração e os meus votos de um amanhã melhor para todas essas pessoas que reerguem a sua vida sob os escombros do infortúnio.

domingo, fevereiro 21, 2010

PLANETA EM FÚRIA

Ao momento destas breves linhas, o meu sentimento é ainda de rara consternação, incredibilidade e de pesar, mais de 24 horas depois da tragédia que assolou a ilha da Madeira. Pesar pelas vítimas, mais de quarenta, segundo as últimas contagens, número impressionante, numa tragédia como não há memória. Por outro lado, há também não pouca estupefacção pelas tentativas súbitas de aproveitamento político duma situação em que urgia primeiro salvar as pessoas, algumas ainda desaparecidas.
As imagens foram fortes, reflexos de um cenário dantesco, o planeta em fúria descarregando a sua raiva, a sua ira perante o caos reinante entre nós, humanos. As guerras entre semelhantes, o desprezo pelo clima e pelos recursos naturais, todo o ódio destilado e a cegueira da ambição desmedida, a falta de solidariedade. O planeta azul está doente, sofre e grita. Isto não é um 2012, mas um aviso - mais um - de tantos que a consciência de quem podia fazer alguma coisa não fez caso. Um dia, não há pressa... só que um dia parece ser sempre tarde demais.

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

PLAY IT AGAIN, SAM!

Era impossível não se lembrar de Rick Blaine naquele momento. Curioso que por mais anos que se passassem desde a última vez que vira aquele filme ainda se lembrasse tão bem do nome das personagens. Contudo, não era a famosa cena do piano que lhe vinha tantas vezes à memória, nem a inesquecivel melodia, mas sim a cena do aeroporto onde um fleumático e imperturbável Bogart desejava felicidades a Victor e a Ilsa. Há poucas dores maiores do que essa manifestação latente de altruísmo. Sabia-o perfeitamente, de já ter passado por elas mais do que uma vez, umas vezes com mais sinceridade e dificuldade do que outras. Podem dizer que é um acto nobre o de abdicar da própria felicidade, de uma das poucas razões que nos levam a acordar dia após dia com vontade de seguir em frente, em detrimento da felicidade da pessoa amada. Que se foda a nobreza! Ela chamara-o de complicado, depois de dizer uma vez mais que o amava. Ele sabia que era algo mais, para além de todas as desculpas pouco convincentes que treinara antes de se encontrar com ela. A falta de coragem não era um acto nobre nem altruísta. Parecia fácil para Bogart, hipotecar assim a última réstea de esperança e mesmo assim manter aquela pose que só Bogart tinha e que lhe fazia a ele sentir uma devastadora e redutora sensação de fragilidade. Os homens não choram. Bogart não chorava. Mas ele sim. Fê-lo, por dentro, quando ela lhe perguntou se ele não ía lutar pelo que ambos sentiam. E Rick? Os dois tinham atirado a toalha ao chão, com a diferença que o outro continuava ali, imperturbável, com aquele ar de "não estou nem aí" que agora o irritava solenemente, uma pedra de gelo incapaz de sentir quaisquer remorsos. Foi nessa altura que compreendeu, tantas vezes tinha visto aquele filme e nunca dera por isso: Rick não amava Ilsa, não daquela maneira que ele concebia que o amor devia ser para ser amor, total. "Play it again, Sam!", que bom seria se a vida fosse uma canção que pudessemos simplesmente voltar a tocar.

sábado, fevereiro 20, 2010

A VOZ DAS PALAVRAS

"Vivemos numa época em que cada vez falamos menos uns com os outros, pais e filhos, vizinhos ou simples desconhecidos. Não é raro os gritos e as quezílias sobreporem-se aos conteúdos. Dar voz às palavras surgiu como uma proposta aliciante, uma singela homenagem à linguagem escrita, mas também um risco a que dificilmente poderia recusar. Entre o deixá-las mudas no estertor obscuro duma folha imaculadamente virgem e a imprevisibilidade de fazê-las chegarem mais longe do que a própria imaginação o permite, tocando os corações de quem mal ou nada conhecemos é, não só uma aposta pessoal, mas uma clara manifestação de fé na união e na conjugação de esforços."
Foi desta forma que nasceu hoje mais um blogue A Voz das Palavras, em parceria, para já, com Sam Seaborn, numa iniciativa que se prevê venha a ser alargada dentro em breve. Espero desta forma que os visitantes/amigos possam vir a encontrar neste novo espaço um novo e aprazível ponto de interesse nas vossas visitas pelo vasto e ilimitado universo da blogosfera.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

MULAN

Realidade ou ficção, Mulan, a heroína chinesa celebrizada primeiro por um poema e mais tarde por um clássico da Disney com o mesmo nome está novamente no cinema, mas desta vez com personagens reais e com uma das minhas actrizes preferidas, Vicki Zhao Wei no papel principal, de uma rapariga que entrou disfarçada de rapaz para o exército chinês e que conseguiu ascender à posição de General pelos seus feitos no campo de batalha. Mais do que um filme de guerra, Mulan é uma história carregada de emoção e de grande intensidade dramática, um épico que retrata um período bastante conturbado da história da China, e que aconselho vivamente.









domingo, fevereiro 14, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


ROMÂNTICOS E CAVALHEIROS

Ricardo tinha a cena bem presente na memória, várias vezes a vira. Romeu, julgando Julieta morta, toma o veneno. Quando ela desperta da sua aparente morte e o vê, tombado e sem vida, mata-se também, porque para eles a vida de nada valia se não pudessem estar juntos. Romântico, pensava, apesar dos seus amigos do escritório lhe dizerem que algo assim seria impossível ou mesmo estúpido nos dias de hoje. Descrentes, cépticos ou realistas, pensava Ricardo, desdenham do amor lamechas dos filmes, dos príncipes e das princesas, dos sapos e das donzelas castas. A virgindade, os longos namoros do tempo dos nossos avós, as cerimónias de casamento, os vestidos brancos, são hoje conceitos difíceis de entender para muitos, à luz da lógica da razão. O Dia de São Valentim, ou Dia dos Namorados no seu termo popular não pode ser hoje, mais do que tudo o resto, um pretexto consumista para gastar mais alguns trocados e para vender umas quantas flores. Existe ou não romantismo nos dias de hoje? Cavalheirismo? Será que os homens já não oferecem flores, não abrem a porta do carro para elas sairem, não puxam a cadeira no café, para as namoradas/mulheres se sentarem? E será que a existirem homens românticos, cavalheiros e educados, o tipo do príncipe em vias de extinção, só se manifestam nestes dias ou são-no assim durante todo o ano? A maioria dos homens que conheceu eram como o Samuel, seu antigo colega da escola, o típico galã com um bigode à Clarck Gable, o princípe que depois de casado volta a virar sapo, longe das conquistas e dos jogos de sedução que terminam quanto muito na lua de mel e desse tal de cavalheirismo, afinal, apenas mais um estratagema para levar uma mulher para a cama. Será que iria suceder-lhe o mesmo depois do casamento?
Daniela não gosta de palavras doces, de poesia e de que lhe puxem a cadeira para se sentar. Considera os homens românticos uns chatos e as suas atitudes enjoativas. Será que pensam que pelo facto de serem homens são mais fortes do que ela, que têm de se armar em protectores? Sabe que Ricardo costuma dizer-lhe que o feminismo matou o cavalheirismo e que os homens são mais românticos que as mulheres, mas que sabe ele daquilo que agrada a uma mulher? Certamente que não promessas de políticos, mas de mais acção, alguns muscúlos à mistura, alguma malícia, arrebatamento ou mesmo uma pitada de sexo. Sexo sempre, do bom, selvagem, imaginativo, mesclado com palavras decididas e confiantes, vulgares. Em contrapartida tinha plena consciência que nenhum homem nunca iria oferecer-lhe um Taj Mahal, porque havia qualquer coisa nela que os intimidava, e não sabia se eram os óculos de aros de tartaruga, a frontalidade com que abordava temas que para muitos eram tabu ou mesmo uma pronunciada masculinidade no vestir. Sabia apenas que o romantismo e o cavalheirismo estavam fora de moda e que o máximo a que Ricardo se atreveria seria oferecer-lhe o último cd do Shayne Ward, que ouviriam antes de atenuar todas as suas diferenças numa querela sem tréguas sob os lençóis jogados displicentemente no chão do quarto. Talvez para o ano ele lhe oferecesse flores...

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

A PRINCESA E O SAPO

Nunca tive aquele chamado sexto sentido em relação ao cinema, apesar de ser viciado em filmes. Aqueles que geralmente venho a gostar mais ficam por vezes semanas, meses, nos clubes de vídeo ou mesmo em casa, na ideia de que até nem serão grande coisa e que há sempre algum filme melhor para ver. Não é a primeira vez que acontece, não será a última. Aconteceu isso com "A Princesa e o Sapo", longe de me chamar tanto a atenção como um "Chovem Almondegas". Foi preciso que alguém visse o filme e me dissesse o que eu estava a perder para arriscar. Afinal, tinha-me enganado. Longe de ser mais uma versão estereotipada dum clássico intemporal, "A Princesa e o Sapo" consegue ser original, divertido e romântico, com um leque de personagens muito bem construídos que nos fazem pensar, contrapondo a riqueza ou o aspecto exteriores com aquilo que realmente és. Porque não é apenas no mundo virtual que continuam a existir sapos - imensos - há espera de princesas e de beijos daqueles de cinema, e princesas que ainda esperam por príncipes, o filme dá-nos uma lição importante, de vida, de fé. Não importam as nossas aparências, a fortuna, a roupa, o carro à porta, o telemóvel topo de gama, mas sim os sentimentos. Eu sei que Fevereiro ainda nem vai a meio, mas este é até agora o melhor filme que eu já vi este ano e que aconselho vivamente. Talvez os mais pequenos até o achem chato, lamechas, com momentos musicais a mais e violência a menos. Até por isso eu gostei. Vale a pena conferir.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

PARAGEM FORÇADA

"Estes romanos sãos loucos, por Toutatis!", dizia Obélix, o avantajado companheiro de Astérix, referindo-se aos estranhos costumes dos romanos. Não costumo criticar aqui os costumes de uma civilização, as suas crenças, as suas tradições, as suas diferenças. Mas, oh, pessoal!!!! Até a paciência tem limites e já não venho aqui para falar das burcas - que segundo provas cientificas são as responsáveis pelo baixíssimo número de acidentes de viação nos países árabes, já que os condutores não se distraem tanto como os ocidentais -, mas o que sucedeu agora em Londres é de exasperar qualquer um. Não é que um motorista de um autocarro, em Londres, muçulmano também, parou a viatura que conduzia para rezar? Assim, sem mais nem menos, saiu do autocarro, tirou os sapatos, estendeu um cobertor no chão e ajoelhou-se para rezar, enquanto os passageiros se quedavam, atónitos nos seus lugares, durante os cinco minutos que durou a oração. Uma das passageiras terá mesmo apresentado uma reclamação à empresa, que já veio pedir desculpas pelo sucedido. Desculpas? E fica assim sanada uma situação que provocou um enorme susto nos passageiros? Ai se a moda pega aqui em Portugal! Pelo menos teremos uma variante, já que em certos transportes que encontramos por aqui são os passageiros que rezam durante a viagem.

domingo, fevereiro 07, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


QUANTO CUSTA UMA TRAIÇÃO?
E O PERDÃO?

Muito se tem falado em traições nas últimas semanas/meses e até se tem especulado de forma interessante sobre o que leva a uma traição. Simples desejo? Insegurança? Tanto faz, tantos são os motivos ou as desculpas com que muitas vezes nos enganamos a nós mesmos, tentando convencermo-nos de algo que até nem foi bem assim, e não somos afinal tão inocentes quanto estamos a tentar acreditar que somos. Penso hoje na traição de John Terry, futebolista internacional, até agora exemplo de grande carácter e de bom chefe de família. Afinal, também ele andou "enrolado" com Vanessa Peroncel quando esta era namorada do seu então companheiro de equipa e de selecção, Wayne Bridge. Ele e mais quatro ou cinco jogadores do Chelsea.



Pergunto eu se este episódio - ou qualquer outro pecado de natureza sexual ou não - será por si suficiente para destruir uma imagem, todo um passado ou hipotecar o futuro da pessoa que pecou. Talvez aos olhos da companheira - apesar das palavras sempre tão bonitas sobre amar e perdoar -, mas terá uma sociedade onde quase todos temos os nossos próprios telhados de vidro, as nossas próprias traições consumadas, tentadas ou apenas imaginadas, o direito a condenar um homem porque teve um caso extra-conjugal?



Neste caso particular, no ano de 2010, ocorrido numa Inglaterra moderna, John Terry não só está em vias de se separar de Toni Poole - de quem tem dois filhos -, como já perdeu a braçadeira de capitão da sua selecção e ainda ver anulados vários contratos publicitários de vários milhões. O mesmo sucedeu recentemente com o mundialmente famoso Tiger Woods, o golfista americano de quem se descobriu ter tido várias aventuras fora do casamento.



Num mundo em constante - às vezes demasiado rápida - evolução, com notícias e mudanças de hábitos que nos fazem por vezes pensar que afinal não temos uma mentalidade tão aberta como isso, perante tantas e tão surpreendentes novidades, chego agora à conclusão que em outras situações, como esta, são os outros os antiquados e não eu. É que antigamente é que um homem ou uma mulher - geralmente a mulher - era condenada pela sociedade por adultério. Hoje sucede o mesmo perante a permessividade do mundo moderno, mas em sociedades e culturas bastante distintas, em que a mulher chega a ser exposta em praça pública e apedrejada por todos como se fosse um animal selvagem. Quantos de nós, ocidentais e não só, mesmo entre aqueles que pegam as pedras com as mãos cheias de um moralismo de fachada, não seriamos açoitados e apedrejados de cada vez que temos um comportamento amoral ou inadequado à moral e aos bons costumes? Desculpem-me, mas não acredito em santos, só de barro e mesmo assim!...



A opinião pública é uma arma poderosa, a força dos meios de comunicação, tantas vezes na boca do povo por estes dias, a voz popular que anda de boca em boca e que se altera de cada vez que é contada, capaz de transformar mentiras em verdades, sujar reputações imaculadas, destruir carreiras tão arduamente construídas. Será um traidor um criminoso, um condenado a uma pena eterna de acusações e dedos apontados na rua? Será o perdão, a capacidade de perdoar, algo tão divino, de forma alguma ao alcance dos simples mortais como nós?



Sim, repito, John Terry errou - não Vanessa, claro, porque tal como sucedeu com os seus outros companheiros de equipa, por muito que ela provocasse, a carne não pode ser tão fraca como foi a do ex-capitão da selecção inglesa, agora votado a uma posição mais subalterna. Tenho para mim que o caso só poderia seguir dois caminhos: perdão ou divórcio. E tudo de uma forma simples, discreta e particular, porque a carreira de alguém, a imagem profissional não pode nem deve estar sujeita aos passos, às opções tomadas no campo sentimental e conjugal. Condenar uma pessoa, denegrir a sua imagem, distingui-lo pelos seus erros e não pelos seus feitos e qualidades não pode - não deve - ser tão fácil, especialmente numa conjuntura onde os valores, as normas e os conceitos de moral ou amoral, certo ou errado são cada vez mais subvalorizados e difíceis de avaliar em nome da corrupção, do sucesso e do prazer imediato e sem consequências, da ambição e do egocentrismo. Quem de nós nunca errou? Quem de nós nunca pecou, nem mesmo em pensamento? Quem vai atirar a primeira pedra?