A questão da pessoa que me aldrabou
Há 5 horas
Porque na vida nem tudo é branco ou preto, bom ou mau, verdade ou mentira. Porque a vida não tem necessariamente de ser aquilo que parece, este é o meu espaço, onde guardo os meus sonhos e desilusões, resquícios de uma vida à espera de ser vivida.


Acabei de chegar a casa, com uma vontade de gritar que só visto. Ao invés, limitei-me a engolir uns quantos sapos vivos e a contar até 100 para não explodir. Há momentos em que parecemos ser os únicos a querer fazer as coisas bem feitas, segundo as regras e mesmo assim ainda nos criticam ou pura e simplesmente nos ignoram. Serei eu que estou errado em preocupar-me, mesmo quando sou só eu a remar para o lado certo enquanto os outros insistem em remar na contra-mão?
A população de Celorico de Basto foi palco de mais um caso que promete reacender a polémica sobre o casamento no sacerdócio, depois de um padre ter fugido com uma jovem de 18 anos. Rui, de 26 anos, tornado padre recentemente, ter-se-à enamorado de Fátima, pelo que foi pedir a mão dela em casamento aos pais adoptivos da rapariga. Vendo a sua pretensão recusada, os dois esperaram que a rapariga fizesse os 18 anos, para no dia seguinte fugirem juntos para parte incerta. Apesar do pouco tempo que o rapaz tinha como padre não vou discutir a sua fé ou a sua devoção cristã. Acredito sinceramente que o mesmo pudesse suceder a um padre mais velho, sem que tal signifique ter maior ou menor aptidão católica. Antes de mais nada, um padre é um homem como uma freira será sempre uma mulher, passíveis de sucumbirem aos desejos e ao amor como seres humanos que são. Por outro lado são já incontáveis os escândalos de pessoas ligadas à igreja, com cargos superiores ao deste padre, envolvidas em casos de pedofilia, relações sentimentais ou meramente sexuais encobertas de uma sociedade em certos aspectos ainda arcaica no seu modo de pensar. Rui confessa amar Fátima, como provávelmente amará Deus, dois amores diferentes capazes de conviverem em harmonia, assim as pessoas e as altas instâncias da igreja o permitissem. Terá um homem casado, pai de família, menos amor para dar aos seus semelhantes ou a Cristo? Duvido. Entretanto e, enquanto os padres não poderem casar, casos como os deste casal ou bem piores continuarão a acontecer, porque a mesma religião que diz que se deve amar o próximo ou dar a outra face ao inimigo, castra os sentimentos dos seus membros, impedindo-os de terem um amor conjugal e de constituírem família, como se isso pudesse também perturbar as já de si frágeis bases da religião católica. Rui ama Fátima. Desde quando o amor é um crime?

Que semelhanças existem entre o Primeiro-Ministro da Eslovénia e o de Portugal? Nenhumas, concerteza, a começar pelos partidos que ambos defendem. Borut Pahor, protagonizou esta semana que agora finda um episódio quiçá insólito e delicioso. Mas começemos pelo início da história, quando a selecção da Eslovénia terminou o seu grupo de qualificação para o Mundial da África do Sul em segundo lugar. Nessa altura e, ainda sem conhecer o adversário para os play-offs, este senhor fez uma promessa arriscada e invulgar: prometeu limpar as chuteiras dos jogadores, caso estes conseguissem a tão desejada qualificação. «Vamos ter uma segunda oportunidade, vamos tentar aproveitá-la... se conseguirmos, limpo-lhes as chuteiras», prometeu o primeiro-ministro esloveno. Na altura, ninguém pensou muito nisso. Os adversários não eram fáceis e afinal, era apenas mais uma promessa de um político. Alguns dias mais tarde, a Eslovénia conheceu o seu adversário, a poderosa selecção russa, claramente superior e favorita no confronto entre as duas equipas. Pois bem, na passada quarta-feira a Eslovénia garantiu a presença na África do Sul depois de uma vitória sobre a Rússia por um a zero. O senhor Pahor, como uma pessoa cumpridora da sua palavra não teve outro remédio que não fosse meter mãos à obra, neste caso, às chuteiras dos novos heróis nacionais. "Sou um homem de palavra", confessou, depois de concluída a tarefa. "Sim, é verdade, confesso que limpei as chuteiras de todos os nossos jogadores, mas também admito que não as limpei muito bem...". Foi no seguimento destas palavras que eu dei comigo a imaginar o nosso Primeiro-Ministro a fazer o mesmo às botas de Ronaldo e companhia. Claro que depois acordei.
... hoje não vou pensar nos outros.








Almada já começou a preparar o Natal. Pessoalmente, gosto da época, sem qualquer motivo especial para isso, mas gosto. Gosto do espírito, da cordialidade que lhe está inerente, da dádiva. Gosto do brilho nos olhos das crianças e das luzinhas que hão-de vestir a cidade de diferentes cores. Só que este ano fui invadido por uma espécie de saudades da enorme árvore de Natal que enchia de vida o centro da cidade no ano passado - quando ainda havia umas eleições para ganhar -, substituída agora por quatro exemplares mais reduzidos (na foto), mas que abrangem um espaço mais amplo. É bonito, mas não é a mesma coisa. A simbologia da árvore de Natal - para mim - tem a ver com a união. De países, de pessoas, da família, de sentimentos que convergem num objectivo único: trazer felicidade aos outros, àqueles que amamos, mas não só, dar... sem contrapartidas, independentemente de raças, sexos e ideologias. Quatro árvores numa mesma área vão dividir, separar, criar grupos, onde no ano passado se fazia daquela árvore gigantesca um ponto de encontro para conhecidos e desconhecidos, apreciando a sua beleza e a magia daquela espécie de neve que caía sobre nós, reflectida nos olhos dos mais pequenos e dos outros que sem o serem, pareciam regressar ao tempo da inocência. Em Dezembro do ano passado, podíamos passear sob a árvore, havia bancos para as pessoas se sentarem no interior da árvore. Eu passava por lá todos os dias. Só para ver, para assistir à alegria de quem por lá passava, ao deslumbramento que aquilo causava nas pessoas. Era bonito de se ver. Não deixa de o ser, repito, mas são notórios os sinais da crise e algum "deixa pra lá!" de quem não tem agora nada a ganhar e muito menos a perder.
Dois anos. Dois? Não pode ser! Parece que foi ontem. Quase que jurava que o sabor daquele beijo apressado, imperfeito e confesso até, desastrado, ainda mora na minha boca, na mesma de onde saíra minutos antes aquelas palavras que nunca esquecerei. Há momentos na vida que não se esquecem nunca. Coleccionamo-los como pacotes de açucar na caderneta das lembranças. Deveriam ser como perfume, para que podessemos guardá-los num frasco e só o abríssemos de vez em quando, sempre que a nostalgia nos invadisse o coração. Quem diz que as memórias não têm cheiro, nem cor ou sabor é porque nunca conheceu a tristeza e a inutilidade de um jardim sem flores. Sem elas, restam-me as lembranças.

Semana quente, com Saramago e a Igreja em acesa polémica envolvendo o novo livro do escritor, Caim, a motivar as mais variadas e acesas reacções de vários outros quadrantes da sociedade, políticos, imprensa falada e escrita (blogosfera inclusive). Disse o Prémio Nobel, entre outras coisas, que "o Deus da Bíblia não é de se confiar, é má pessoa e vingativo" ou que "Na Bíblia há incesto, (...) é inegável. Não existiria este livro se o episódio de Caim e Abel não estivesse na Bíblia, onde se mostra a crueldade de Deus. Não se deve ter confiança no Deus da Bíblia", declarou o escritor português durante a apresentação do seu mais recente livro, Caim, que acrescentou: "não esperava reacções dos católicos porque eles não lêem nem a Bíblia (...) Quem vai ler um livro desse tamanho?". No debate televisivo de sexta-feira com o teólogo Carreira das Neves e, apesar de ter defendido aquilo que disse e o que vem no seu livro, admite ter-se excedido quando chamou "Filho da p..." a Deus.
Ainda na semana passada, um emigrante português foi encontrado, já morto, sentado num cadeirão, na sua casa nos arredores de Paris, no seguimento de uma chamada anónima a partir de uma cabine telefónica em Poissy. Até aqui, nada de extraordinário, não fosse o facto de José Gomes Macedo, de 62 anos e natural de Vila Verde, estar assim desde 2007. Não era a primeira vez que os vizinhos se queixavam do cheiro, mas até agora nunca ninguém tinha entrado no apartamento de José Macedo, cuja renda continuava a ser paga todos os meses através de transferência bancária. Na caixa de correio havia correspondência por retirar desde 2007 e, segundo o jornal "Le Parisien, foi encontrado no frigorífico um iogurte com data de Novembro de 2007. Este caso retrata fielmente o maior flagelo deste século: a solidão. As pessoas vivem a correr, sem tempo para "cultivar" relações, vivem em prédios enormes com vizinhos que são pouco mais que perfeitos desconhecidos. Mesmo em família, as refeições já não são motivo de reunião entre os seus elementos, pela falta de interesses comuns, pela escassez de disponibilidade de tempo ou por outros motivos. Há casais que apenas se encontram no meio de turnos, quando um se vai deitar e o outro está a acordar. José era casado ainda, vivendo a sua esposa em Vila Verde. Mais preocupantes ainda, os casos daqueles que não têm família, nem amigos que se preocupem, que se importem com a sua ausência, sombras que deambulam pelas ruas sem que ninguém repare, senão quando nos estorvam o caminho, ou a sua visão ou o cheiro nos incomoda tanto que é impossível não darmos por eles. O mundo actual é egoísta, insensível, vazio de solidariedade e um simples "Bom dia, tudo bem?" é cada vez menos que um cumprimento entre conhecidos, mas uma formalidade sem significado. "Não quero nem saber se estás bem ou não, se as coisas vão mal no teu trabalho, se a mulher ameaçou deixar-te ou se os últimos exames médicos te deixaram assustado! Eu simplesmente não tenho tempo para os queixumes dos outros!". Numa época em que até as amizades são cada vez mais virtuais a solidão é uma ameaça bem real e assustadora.