A questão da pessoa que me aldrabou
Há 5 horas
Porque na vida nem tudo é branco ou preto, bom ou mau, verdade ou mentira. Porque a vida não tem necessariamente de ser aquilo que parece, este é o meu espaço, onde guardo os meus sonhos e desilusões, resquícios de uma vida à espera de ser vivida.








Almada já começou a preparar o Natal. Pessoalmente, gosto da época, sem qualquer motivo especial para isso, mas gosto. Gosto do espírito, da cordialidade que lhe está inerente, da dádiva. Gosto do brilho nos olhos das crianças e das luzinhas que hão-de vestir a cidade de diferentes cores. Só que este ano fui invadido por uma espécie de saudades da enorme árvore de Natal que enchia de vida o centro da cidade no ano passado - quando ainda havia umas eleições para ganhar -, substituída agora por quatro exemplares mais reduzidos (na foto), mas que abrangem um espaço mais amplo. É bonito, mas não é a mesma coisa. A simbologia da árvore de Natal - para mim - tem a ver com a união. De países, de pessoas, da família, de sentimentos que convergem num objectivo único: trazer felicidade aos outros, àqueles que amamos, mas não só, dar... sem contrapartidas, independentemente de raças, sexos e ideologias. Quatro árvores numa mesma área vão dividir, separar, criar grupos, onde no ano passado se fazia daquela árvore gigantesca um ponto de encontro para conhecidos e desconhecidos, apreciando a sua beleza e a magia daquela espécie de neve que caía sobre nós, reflectida nos olhos dos mais pequenos e dos outros que sem o serem, pareciam regressar ao tempo da inocência. Em Dezembro do ano passado, podíamos passear sob a árvore, havia bancos para as pessoas se sentarem no interior da árvore. Eu passava por lá todos os dias. Só para ver, para assistir à alegria de quem por lá passava, ao deslumbramento que aquilo causava nas pessoas. Era bonito de se ver. Não deixa de o ser, repito, mas são notórios os sinais da crise e algum "deixa pra lá!" de quem não tem agora nada a ganhar e muito menos a perder.
Dois anos. Dois? Não pode ser! Parece que foi ontem. Quase que jurava que o sabor daquele beijo apressado, imperfeito e confesso até, desastrado, ainda mora na minha boca, na mesma de onde saíra minutos antes aquelas palavras que nunca esquecerei. Há momentos na vida que não se esquecem nunca. Coleccionamo-los como pacotes de açucar na caderneta das lembranças. Deveriam ser como perfume, para que podessemos guardá-los num frasco e só o abríssemos de vez em quando, sempre que a nostalgia nos invadisse o coração. Quem diz que as memórias não têm cheiro, nem cor ou sabor é porque nunca conheceu a tristeza e a inutilidade de um jardim sem flores. Sem elas, restam-me as lembranças.

Semana quente, com Saramago e a Igreja em acesa polémica envolvendo o novo livro do escritor, Caim, a motivar as mais variadas e acesas reacções de vários outros quadrantes da sociedade, políticos, imprensa falada e escrita (blogosfera inclusive). Disse o Prémio Nobel, entre outras coisas, que "o Deus da Bíblia não é de se confiar, é má pessoa e vingativo" ou que "Na Bíblia há incesto, (...) é inegável. Não existiria este livro se o episódio de Caim e Abel não estivesse na Bíblia, onde se mostra a crueldade de Deus. Não se deve ter confiança no Deus da Bíblia", declarou o escritor português durante a apresentação do seu mais recente livro, Caim, que acrescentou: "não esperava reacções dos católicos porque eles não lêem nem a Bíblia (...) Quem vai ler um livro desse tamanho?". No debate televisivo de sexta-feira com o teólogo Carreira das Neves e, apesar de ter defendido aquilo que disse e o que vem no seu livro, admite ter-se excedido quando chamou "Filho da p..." a Deus.
Ainda na semana passada, um emigrante português foi encontrado, já morto, sentado num cadeirão, na sua casa nos arredores de Paris, no seguimento de uma chamada anónima a partir de uma cabine telefónica em Poissy. Até aqui, nada de extraordinário, não fosse o facto de José Gomes Macedo, de 62 anos e natural de Vila Verde, estar assim desde 2007. Não era a primeira vez que os vizinhos se queixavam do cheiro, mas até agora nunca ninguém tinha entrado no apartamento de José Macedo, cuja renda continuava a ser paga todos os meses através de transferência bancária. Na caixa de correio havia correspondência por retirar desde 2007 e, segundo o jornal "Le Parisien, foi encontrado no frigorífico um iogurte com data de Novembro de 2007. Este caso retrata fielmente o maior flagelo deste século: a solidão. As pessoas vivem a correr, sem tempo para "cultivar" relações, vivem em prédios enormes com vizinhos que são pouco mais que perfeitos desconhecidos. Mesmo em família, as refeições já não são motivo de reunião entre os seus elementos, pela falta de interesses comuns, pela escassez de disponibilidade de tempo ou por outros motivos. Há casais que apenas se encontram no meio de turnos, quando um se vai deitar e o outro está a acordar. José era casado ainda, vivendo a sua esposa em Vila Verde. Mais preocupantes ainda, os casos daqueles que não têm família, nem amigos que se preocupem, que se importem com a sua ausência, sombras que deambulam pelas ruas sem que ninguém repare, senão quando nos estorvam o caminho, ou a sua visão ou o cheiro nos incomoda tanto que é impossível não darmos por eles. O mundo actual é egoísta, insensível, vazio de solidariedade e um simples "Bom dia, tudo bem?" é cada vez menos que um cumprimento entre conhecidos, mas uma formalidade sem significado. "Não quero nem saber se estás bem ou não, se as coisas vão mal no teu trabalho, se a mulher ameaçou deixar-te ou se os últimos exames médicos te deixaram assustado! Eu simplesmente não tenho tempo para os queixumes dos outros!". Numa época em que até as amizades são cada vez mais virtuais a solidão é uma ameaça bem real e assustadora.
Tempos difíceis os que vivemos, pensei para comigo mais que uma vez durante as últimas 24 horas. Já lá vai o tempo em que o herói podia dar uma valente sova aos maus da fita e toda a gente ficava feliz. Menos os ditos maus, claro está. Mas com esses ninguém se importava. Outros tempos, outras mentalidades. No tempo do Duke, o xerife prendia os vilões e entregava-os aos juízes, que nessa altura tinham o estranho hábito de os condenar. Tempos houve em que erguer os punhos para defender a honra de alguém ou para socorrer gente indefesa era considerado meritório, mesmo que para isso tivesse de partir umas quantas cabeças e braços, partir a mobília de um café ou deixar um rastro de carros totalmente destruídos atrás de si, enquanto a população nos aplaudia frenéticamente. Era um tempo em que os pais podiam ainda bater nos filhos de vez em quando, para os castigar, mas em que nenhum homem batia numa mulher, porque homem que fosse homem não batia nunca numa mulher, nem levava. Eram anos em que as mulheres ainda usavam saias ou vestidos, tinham vaidade na sua condição feminina e deixavam-nos acreditar que eramos nós que mandávamos. Os professores tinham tempo para ensinar e de vez em quando ainda puxavam da régua, os polícias mantinham a ordem, ou porque os respeitássemos ou porque os temessemos. Ainda não havia a ASAE e o Martinho da Arcada já era frequentado por uma élite de pensadores que morreria de vergonha se visse no que o Homem se transformou. A carne, nessa altura, tinha sabor a carne e a selecção portuguesa, embora perdendo mais do que ganhava, só tinha portugueses e jogava-se - imagine-se o disparate - com amor à camisola. Mas os tempos evoluíram, os Bogarts passaram a ser encarados como dinossauros em vias de extinção e o Homem rude e de pavio curto deu lugar a uma geração de Oscar Wildes ou Woody Allens, onde pensar vinha sempre antes de agir. O Homem moderno e civilizado, diziam. Um Homem com sentimentos, que suspira ao jeito de um José Castelo Branco, um defensor de mil e uma causas mas que não levanta um dedo que seja para defender as suas causas, um revolucionário que usa as palavras - ou os cravos - como arma. Ontem estava no café a tomar o pequeno-almoço quando fui interpelado por um garoto, desses romenos ou sem-pátria que andam para aí sem trabalhar e a impregnar o nosso ar com a falta de higiéne deles. A minha mãe disse-lhe que não estava interessada no que quer que fosse que ele estivesse a vender, no que foi rápidamente imitada e ridicularizada por ele. Não sei se nestes estranhos tempos que correm existe alguma desculpa plausivel para a violência, mesmo que seja para defender a honra de um familiar quer fosse para salvar alguém em apuros. Sei que perdi a cabeça e a noção de civísmo. Levantei-me, peguei no energúmeno e lancei-o para fora do café. Só que ao contrário das palmadas nas costas que o Duke receberia, as poucas pessoas ali presentes viraram a cara para que não visse o esgar de incómodo que a minha reacção lhes causou. Bolas, pensei! É triste quando um homem não pode coçar os tomates em público ou ter uma atitude à homem só porque o Homem moderno não age, apenas pensa. Se calhar devia tê-lo convidado para tomar um café e uma sandes de pão com fiambre. Agora compreendo melhor a frustração de um polícia quando um puto qualquer o injuria e calunia em público e ele tem de ouvir e calar, porque se calhar ainda é capaz de ir preso se lhe incutir um pouco de educação à boa maneira antiga. Mas isto sou eu ainda a remoer e a divagar sobre coisas vagas que não interessam mas que me deixaram a pensar.
Já à muito que se esperava, mas só hoje entrou em vigor uma portaria que impede a compra pelos circos de novos animais ou a reprodução dos já existentes. Os circos que abrilhantaram alguns dos momentos mais felizes da nossa infância ou dos nossos filhos parecem condenados a transformarem-se numa memória longínqua, se lhes retirarmos os elefantes, os macacos, os leões e os tigres que nos punham num delicioso suspense, os ursos, as focas malabaristas, etc etc etc...
Barack Obama foi galardoado ontem com o Nobel da Paz, pelo seu empenho na melhoria das relações internacionais. Ao contrário do que alguma imprensa revela, não me parece que tenha havido qualquer surpresa nesta nomeação, considerando o pouco tempo que o Presidente norte-americano leva no seu cargo e as medidas que já tomou, não só a nível interno como externo. É cedo para tirar ilações dos efeitos destas medidas, mas no campo das promessas e das boas intenções, o Presidente moreno - como Berlusconi o apelida - tem gerado à sua volta um entusiasmo e uma crença raramente vistas. E sabe-se que só a união de esforços, essa energia positiva que vem da fé, não religiosa, mas das nossas capacidades - lá está o famoso "Yes, we can!" - é capaz de superar a crise e originar mudanças. Obama sabe disso. Sabe que sozinho será apenas mais um cujas palavras serão levadas pelos ventos da descrença e da passividade. Por isso, na hora de agradecer, refutou o seu mérito, embora confessando-se orgulhoso e atribuiu-o ao seu País. O novo Nobel da Paz sabe jogar com as palavras tão bem como com os sentimentos. Consiga ele usar esse poder aliado ao outro que só um país como o seu lhe confere, em prol de um mundo melhor, de uma mudança de mentalidades que extravase as fronteiras dos Estados Unidos, e a palavra Futuro passará a fazer sentido, não só para nós como para as gerações vindouras.

