quarta-feira, maio 31, 2006

REFLEXOS


fotografia de Luis Texeira

GUERREIRA

Subornei teus braços com promessas de ternura
nesse breve instante em que baixaste a guarda
e serena adormeceste a impetuosidade constante
duma alma guerreira abandonada, tomei de assalto
a delicada maciez dos teus contornos
sob a ingénua inépcia dos meus dedos,
roubei-te um beijo fugaz, rendi-me
prostrado à saciedade dos teus ensejos.

MASCARADOS

Diz-me o que pensas, por mais fútil que te pareça,
por mais estúpido qu'aos outros s'apresente
(deixa qu'as comadres emprenhem p'los ouvidos),
diz-me do tempo que perdemos, de tudo que não fizemos!...
Iremos a tempo? Horas que não tornam, vazias, tristes, secas...
as dos beijos que não demos, desejos que calámos,
das vezes que quisémos e não nos tocámos.
Qu'é dos nossos sonhos de petizes (castrados p'lo medo)
dos médicos e polícias, dos soldados que não fomos?,
do lego, dos golos, do freré Jacques, dos tempos felizes?,
realidade assaz distante de tudo qu'hoje somos.
É tão difícil juntar um mais um, falar, escutar, compreender
quando pensamos no qu'os outros vão falar ou dizer,
é tão difícil saber o que fazer, dividir
quando o nosso espaço deixa de ser apenas nosso,
quando o simples EU se transforma num complexo NÓS,
viver sem saber Como, partilhar sem saber Quando,
falar ou calar, só por poder parecer mal.
Queres compartilhar sentimentos, pensamentos,
carícias e antigas lembranças, esperanças,
sonhos quase mofos numa gaveta abastada de memórias mortas.
Como invadir um espaço, desventrar segredos
se escondemos na sombra o melhor de nós
num medo que nos traz dia a dia mascarados
com receio de não agradar, desiludir, defraudar.
Outras caras, outras ideias, disfarces!...
Sabes o que querem ouvir, o que deves vestir,
só o que convém, o que é de bom tom, ser IN.
Atreve-te, desafia os limites da irracionabilidade,
dá um tiro no escuro, larga amarras, perde-te,
parte à procura de ti, da palavra fácil, da loucura sã,
faz tábua rasa da lógica do saber, ser e estar, vive!
Abandona-te ao vento nas asas dum sonho acordado,
no insensato engodo dum rendez-vous anunciado!
Diz: Hoje acordei com vontade de errar,
com vontade de pecar, de ser mais EU
na incongruência das minhas expectativas,
irrelevâncias disfuncionais da alma adversa
sobre o Bem, sobre o Mal, mal
de quem nada arrisca... pouco ou nada faz.

terça-feira, maio 30, 2006

O TEU LUGAR + ÍNTIMO


Não, não vamos fazer sexo, não somente sexo. Vamos ser originais, ir mais além, mais que dois animais bestificados na busca do êxtase. Não, sexo não! Vamos fazer amor, partilhar carícias a quatro mãos, da ponta dos cabelos à epiderme dos pés; carícias firmes mas sedentas de ternura. Deixa-me apanhar-te os ombros, trazer-te a boca à minha boca, soprar-te ao ouvido, passar a lingua pelas costas do teu pescoço, tomar o gosto do bico dos teus peitos. Deixa-me oscular o interior do teu umbigo, com delongas, suavemente, induzir-te em ânsias de prazer e daí descer ao céu, à alcova frondosa, príncipio e fim de tantos passeios noctívagos. E ainda assim, sem pressas, voltar atrás, ao teu lugar mais íntimo, desnudar-te os sonhos, arrancar-te os medos, inflamar-te a ousadia inibida, secar-te as lágrimas da alma, lamber os teus desejos, desventrar os teus segredos mais secretos, suavemente, sem pressas, afagar-te a face, olhar-te nos olhos, os dedos roçagantes nos caminhos infinitos de uma terra prometida, baralhar as nossas pernas, fundir nossos corpos, misturar nossas seivas. Vamos fazer de conta que somos cegos, descobrirmo-nos às escuras em apalpadelas minuciosas, violando-te apenas e só em jogos de lençóis. Aí seremos médicos... sem complexos de Édipo, seremos criativos, pedófilos, incestuosos, pais, filhos, irmãos e amantes, assaltantes de um fruto nunca por nunca proíbido; seremos eu e tu, um só, corpo e alma, a essência do sexo num amor despudorado, não somente sexo e todavia sexo, sem nexo, 100% amor, deste amor que te confesso e me traz por ti possesso.

IMAGENS DO PAÍS REAL

COMO UM GIGANTE ADORMECIDO

Como se pode escrever tanto sobre o amor
e dele tão pouco ou nada saber?
Ando às apalpadelas como um cego
tropeçando de armadilha em armadilha
como quem escorrega em cascas de banana.
Entrementes, num passado recente
a tempestade da eterna esperança
deu lugar à bonança da resignação,
ao conforto de quem já nada espera.
Escrever então de quê e para quem
se só sei que nada sei
e sem ti sou pouco mais que ninguém?
Restam-me as palavras, sempre fiéis, sempre presentes,
futicismos pseudo-literários de sadomasoquismo psicológico.
Solto a ousadia, procuro a diferença
quiçá ingénua... fruto da inexperiência.
A palavra-chave, à muito prometida e quase esquecida
descansa presa na ponta da língua
como um gigante adormecido,
ninguém a quem a dar, ninguém
que a queira receber.

NA IDADE DOS PORQUÊS...

  1. Quem foi o principal responsável pelo desaire das selecção portuguesa de sub 21 no Euro 2006?
  2. Devem os pais avaliar os professores?

PALHAÇO QUE CHORA

O que seria da minha vida sem ti
amor que foste o primeiro?
Que é que eu fui na tua vida?, nem te lembras!
Um homem qualquer com medo de uma mulher,
um poeta quedo e mudo, um palhaço que chora.
Primeiro amor, só desejo, pobre boca, nem um beijo;
desde o Eden somos anjos & poetas,
homens e mulheres, palhaços & prostitutas;
leva-os o vento, amores mais que um
nas asas dum vento perdido na memória,
triste história aquela que escreveste,
dos meus sonhos que nunca leste,
da dor que ainda cá dentro mora
e do palhaço que nunca riu
mas que agora... já não chora.
para R.

TRAVESTI

E o sol embora tóxico
no pulmão como um narcótico
veneno estranho, sádico prazer
num beijo roubado a um travesti;
Santo Graal dos meus Invernos,
a lua de fel dos meus amores
a vertente agrídoce, toda a dor
toda a dura pena dos meus escritos e poemas.
A pele rubicunda, os olhos cegos
ardem os costados de pele descascados,
sonhos de um Ícaro depenado
aos ombros de um Atlas desmembrado.

PORQUE HOJE É BEBÉ...


Quero aproveitar este espaço para endereçar os meus sinceros parabéns ao colega e amigo Carlos, não apenas por este dia tão especial para si e para os seus. Espero que hoje seja o primeiro dia de um auspícioso futuro, como um renascer a que, infelizmente, poucos têm acesso. Que a bonança e a serenidade o acompanhem na longa viagem que nos espera a e que a nossa amizade perdure e subsista aos obstáculos que a todos se nos deparam tantas e tantas vezes. Obrigado pela tua amizade.

ESSA PALAVRA CALADA QUE NOS MATA


Essa palavra calada que nos mata morre a cada segundo, a cada retroceder quedo e mudo, em cada silêncio envergonhado, no estertor frio duma navalha que por dentro nos mata, nos consome e desespera. Suspende o ar o coração, bate, com a força de mil tambores, pendente num gesto ténue, numa palavra omissa quase arrancada a ferros, essa palavra "amor", declaração numa voz afobada, em ânsia, a face vermelha, pudibunda, numa mescla de orgulho e alívio por tão intrépida façanha. Espera, e é longa a espera, numa eterna agonia, do +etiz que foi ao homem que é agora, pela resposta da menina-mulher que adora, por essa palavra que calada nos mata, a declaração da pessoa que ama à pessoa por nós amada.

segunda-feira, maio 29, 2006

EVASÕES (Maria Grazia Cucinotta)

PENSAMENTO DO DIA

"O Homem é uma doença de pele da Terra" - Nietzsche

domingo, maio 28, 2006

COW PARADE 2006





O REGRESSO DO DESEJADO


Raramente um jogador tem uma empatia tão grande com os adeptos como Rui Costa, sejam do Benfica, da Fiorentina ou do Milan.

PORQUE HOJE É DOMINGO...


... gostaria de divagar sobre alguns dos acontecimentos que marcaram a nível pessoal e não só, esta última semana que agora finda e a que eu, chamei de Semana do Coração. E coração porquê? Primeiro porque aquele que já ameaçava tornar-se como que um Dom Sebastião entre os adeptos do Benfica, está de regresso ao ninho da águia, respondendo ao apelo do Presidente e da massa associativa mais com o coração do que com a cabeça. Não dúvido que, por vontade do Milan, Rui Costa continuaria em Itália, como jogador ou mesmo noutras funções, como não dúvido ainda que, a saír, teria propostas bem mais vantajosas do que aquelas que o Benfica lhe oferece, apesar de estar próximo do final de carreira. Para mim, coração e futebol não ligam muito bem, embirrando mesmo com certas decisões de jogadores portugueses que, quase sempre colocam o coração acima de tudo o resto. Foi assim com Pauleta, que esta semana preferiu continuar em Paris ao invés de reforçar o ambicioso projecto do Lyon, campeão francês, como antes o fizera Futre, quando no auge das suas capacidades ficou ao lado de Jesus Gil em Madrid quando os grandes clubes europeus o desejavam. Felizmente, Figo não é assim e por isso vai coleccionando troféus pelos clubes por onde passa. Ainda no tema do coração, está a decorrer em Lisboa a Cow Parade 2006 e, apesar de não devermos abusar do consumo da carne, a verdade é que a maior parte de nós, citadinos, nunca tinhamos visto tantas vacas de quatro patas em Lisboa. Mas vale a pena vê-las. Enquanto o drama regressou aTimor e à Indonésia, com imagens marcantes de dor e sofrimento, ignorei o apelo de uma nova onda de calor e fui até ao Fórum Almada ao invés de ir à praia. Arrependi-me. A verdade é que todos os novos brinquedos e jogos de computador me lembravam do meu sobrinho, o que me fez considerar que, nenhum passeio, seja onde for, tem piada, se não tivermos com quem compartilhar o que de bom existe para ver ou fazer. É quase como fazer um Blog sabendo que ninguém vai conferir aquilo que fizemos. Como fácilmente poderão aperceber-se, nada de novo no reino da Dinamarca, com o aproximar do final das férias. Resta-me a consolação de que, com o calor, as pessoas já começaram a adaptar o seu vestuário ao clima tropical que se faz sentir, pelo que lá vou arejando a vista com a facilidade com que a mais bela criação de Deus começa a expor os seus predicados mais reservados à medida que o termómetro começa a subir de temperatura. Pobre coração, mas... I Love This Game! Cuidado com o Sol e... façam o favor de serem felizes!

sábado, maio 27, 2006

SUGESTÕES

Depois de mais uma semana de trabalho, em que tudo lhe correu mal e quase não teve tempo para aqueles de quem mais gosta, porque não um fim de semana para recuperar energias, em comunhão com a natureza, tipo peace and love? Porque não vai até ao Parque da Paz?
Não pense sequer em passar os dias em frente ao computador, a ganhar quilos pelos quais depois vai chorar em vão. Não ligue a televisão, porque você já viu O Pestinha mais vezes do que aquelas que quer admitir e o jogo da selecção é só às 18 horas.
Leve a namorada, a mulher ou os filhos, leve-os a todos ao mesmo tempo se quiser. Leve a máquina fotográfica que está guardada e já com pó, leve o telemóvel - mas só para tirar fotografias. Leve um livro, um lanche, uma bola para dar uns toques com o puto.
Lembra-se há quanto tempo não vê um pato ou um cisne a andarem lado a lado consigo? Vá, vale a pena, sentir os pés sobre a relva, respirar ar puro para variar, perder a vista no azul delicado da água ali à mão.
Do que está à espera?

NEGRA COR


Já não pedes sequer, como se adivinhasses no que te não digo motivo, para não ceder aos eventuais caprichos de um qualquer anjo negro, como negras são as brumas em que me envolvo, areias movediças que me afastam de uma luz que já mal vislumbro. Negras são ainda as criaturas a que a insensatez da mente e a escassez da carne me conduzem; negra a cor do meu desamor, que de tanto amor me consome e enfraquece. Como pode o amor causar tanta dor e sofrimento?
E no entanto, ainda ontem me pedias. Mas ontem parece já tão distante, desvanecido pelo vento agreste dos sonhos desfeitos, recordado agora por um incontrolável e momentâneo desejo impuro.
Já nem sei em que dia estamos, como antes me esquecera do certo e do errado, de quem sou ou quis um dia vir a ser.

AINDA SOU DO TEMPO...


27 de Maio de 1987

sexta-feira, maio 26, 2006