quinta-feira, dezembro 22, 2005

ESTOU DE RASTOS

Até poucas horas atrás pensei chegar a casa e escrever que faltavam quatro dias para o Natal e juntar uma imagem alusiva a acompanhar. Poucas horas atrás, porém, uma morte veio afectar radicalmente o meu âmbiente de trabalho e o meu modo de encarar hoje a data que se aproxima. Uma mulher que muito provávelmente apenas conhecia de vista caiu ao mar e todas as diligências que imediatamente se fizeram no sentido de a resgatar com vida foram infrutíferas. Neste momento, não interessa o seu nome, sexo ou idade, profissão ou estatuto social. Numa época em que já se fazem inúmeros votos de boas festas e um ano vindouro mais próspero, há que lembrar que o reverso da medalha também existe para incontáveis famílias para as quais este ou outros natais ficaram marcados pela tragédia de um familiar ou amigo, por despedimentos, pela falta de comida e de dinheiro, quando outros se banqueteiam. Amanhã talvez não me lembre mais deles, mas hoje, vai para eles o meu sentimento profundo de respeito. Uma palavra ainda de conforto e amizade para um colega que, por estar directamente envolvido no drama das últimas horas, estará certamente a passar um mau bocado. Que o ano novo lhes traga a eles e a todos nós não apenas prosperidade mas serenidade para enfrentar os maus momentos e paz, muita paz.

terça-feira, dezembro 20, 2005

FALTAM 5 DIAS PARA O NATAL


vamos encher este natal de calor humano...

QUE QUERES QUE TE DIGA C'UM POEMA?


Que queres que te diga c'um poema? senão das saudades da chuva miúda no lancil da janela do teu quarto onde nunca estive e todavia não esqueci? Como posso sentir a falta de alguém que nunca tive, das palavras de carinho que jamais me disseste, ou do volume do teu corpo na minha cama de solteiro onde tu nunca te deitaste? Como podem sentir as minhas mãos a falta das tua e a casa ficar vazia, escura e triste sem a alegria da tua presença? Que queres que te diga c'um poema? que à noite ajeito na cama o corpo no espaço certo do aconchego dos teus braços? ou que ontem ao acordar te procurei sob os lençóis desalinhados e manchados de solidão? Que queres mais que te diga num poema se os dias são cada vez mais longos e as noites cada vez mais frias, e que na memória ficou gravado até o jeito de abrir dos teus braços ao despertar e do modo tão peculiar, tão teu d'enroscar o corpo d'encontro ao meu antes de adormecer, depois do amor, esse amor que nunca me deste e cuja lembrança já não sai do meu sorriso mais feliz.

ESTA ESTRANHA FORMA DE AMAR


Esta estranha forma de amar
como eu te amo - E SE TE AMO!
vem do ventre de palavras que não saem,
da ironia de segundos sentidos,
da distância de palavras escritas
onde a minha alma - quase - se desnuda;
é feita de promessas não cumpridas,
é filha do medo e das provocações,
de intenções que se quedam
a meio de uma viagem onde náufrago
num denso mar de frustrações
e de sonhos e desejos inconfessáveis.
Estranha forma - a MINHA - de te amar,
coração na palma das mãos
num caminho que me traz
perdido em espirais
encontrado...
em nenhures.

O MÉRITO A QUEM O MERECE


Não quero deixar de agradecer àqueles que dia a dia continuam a agraciar-me com a sua atenção e amizade, pois são eles que, com as suas palavras e atitudes ajudam a soprar e a afastar as tempestades que não poucas vezes ensombram os nossos dias. Agradeço uma vez mais ao meu amigo Paulo Tadeu pela sua persistência nas visitas a este blog e pelos comentários sempre animadores. São pessoas como tu que elevam o nível deste meu cantinho.
Obrigado também à minha amiga Nusrat pela sua amizade e alegria permanentes, que ajudam a esquecer e perdoar algumas tropelias. Recebi hoje o livro que me mandaste. Sei que vou gostar.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

VIAGEM AO MUNDO MÁGICO


Apetecia-me silenciar as palavras e trocá-las por sonoros aplausos entoados a compasso, porque é de aplausos que vive um circo, e de gargalhadas cristalinas e olhinhos esbugalhados e embriagados de êxtase e admiração, enquanto um crescente nervoso miúdinho nos toma de assalto e o suspense baloiça perigosamente sobre a rede de um trapézio. Mas é com palavras que eu melhor sei expressar-me, é nelas que crío asas e me sinto parte de um mundo que construo a meu bel-prazer, por vezes dramático, outras mágico como uma tarde de dezembro no Circo Victor Hugo Cardinali, que me levou de volta a uma infância já esquecida, quando ainda não pensava, apenas sonhava e todos os sonhos eram permitidos.

domingo, dezembro 18, 2005

PORQUE HOJE É DOMINGO...


Passam hoje 25 dias desde as minhas primeiras linhas neste blog. Nesse dia, com o coração cheio de dúvidas fiz o que não costumo fazer: arrisquei. Não sabia se o fazia para minha auto-satisfação ou para dirigir-me aos outros da maneira que melhor sei, p'las palavras que escrevo. Não sabia quantos dias iria resistir até que o desapontamento dos primeiros revezes me vencesse, como não sabia também se conseguiria responder ao tempo que um blog consome na sua criação. Hoje subsisto repleto de dúvidas porque descobri que a nossa ignorância é sempre proporcional à nossa sabedoria. Quanto mais aprendemos mais nos damos conta do muito pouco que sabemos. Alguém disse um dia "só sei que nada sei", e no pouco que sabia era um sábio. Quase um mês decorrido aprendi que um blog é muito mais que um monólogo inconsequente em que UM fala o que quer e lhe apetece na certeza de que ninguém o ouve. Nada mais errado. AQUI até as paredes têm ouvidos. Aprendi também que o desenvolvimento da nossa civilização como hoje a conhecemos terá sido similar à elaboração e manutenção de um blog, pois que, por mais que façamos nunca estaremos satisfeitos com os resultados obtidos e como tal não nos daremos nunca por saciados, procurando sempre mais e mais. Mas ao tempo que eu chegava a estas conclusões, outras questões "martelavam" o meu cérebro: Será certo perder tempo com os nossos sonhos indivíduais, mesmo quando esses sonhos nos parecem tão sem importância? É bem possível que, com algum trabalho consigamos agradar aos outros um, dois, três dias numa semana, mas nunca todos os dias. Aí esmoreço, porque se não captar a atenção de quem me lê, todo o meu esforço será em vão. É difiícil agradar a gregos e troianos e mantermo-nos ainda assim fiéis aos nossos princípios, sem necessidade de vendermos a alma ao Diabo. A verdade é que o nosso maior desejo é mesmo agarrar a expectativa de um indeterminado número de gente e se possível extrapolá-lo vezes sem conta, porque um blog, como qualquer bom segredo ou acção que façamos só valerá a pena quando o fizermos chegar aos olhos e ouvidos de quem possa dar-nos o mérito de que intimamente nos julgamos credores. E como segurar esse público? Deturpando as bases do nosso empreendimento, desvirtuando a sua identidade a troco de um pouco de atenção, dos nossos "quinze minutos" de fama. Não vamos dar-lhes só poemas, só humor, só polémica ou sexo, mas um pouco de tudo e algo mais que se possa inventar. Transformamos então a nossa "sopa de pedra" numa amálgama de condímentos em que a pedra deixou de ser fundamental. É essa a minha dúvida mais premente, se devo ou não mudar o curso inicialmente tomado apenas para agradar aos outros ou, pelo contrário, arriscar-me a um isolamento precoce em que acabamos falando para as paredes. E não é de blogs que vos falo hoje, aqui, mas da vida e das decisões que todos teremos, um dia, de tomar.


Tenham uma noite descansada e uma semana profícua.
Façam o favor de serem felizes!

BESTA


E a besta irrompeu castelo dentro, disfarçada de peão, semeando caos e confusão entre as ameias dum reino sem raínha, profanando mitos duma suspeita valentia; desceu o seu manto gélido descobrindo as trevas, engolindo uma moralidade abstracta e fictícia, fez o leão balir como um cordeiro, fez-me caír do alto da minha própria altivez e arrogância; os pés de barro turvos, enlameados, fétidos, anjo há muito caído (em desgraça), cansado de calcorrear sozinho as vielas obscuras da perversão, velho pugilista de corpo moído, o orgulho ferido antes, muito antes do fim do primeiro assalto, sob o tremor duma insegurança mal-contida, dançarino na corda bamba, cabisbaixo, como um touro de raça prestes a ser capado; rola a cabeça como um troféu num chão escarlate dum castelo que tinha por meu, fendas morais por onde a coroa da minha soberba se perdeu. Sobrevivo exangue a uma morte precoce, abespinhado duma vingança nasciturna de quem quer e não se ergue, o medo, besta negra que s'encobre na bruma densa da cobardia e me encontra cativo em meu próprio corpo.

FEZ ONTEM TRÊS ANOS...

Foi a 17 de Dezembro de 2002, no Terminal da Transtejo em Cacilhas, pelas 10.45 que fui vítima de uma agressão bárbara e cobarde, ao interpelar um indíviduo que tinha entrado na sala de embarque sem título de transporte. Apesar de se saber quem foi, a polícia nada fez, por falta de testemunhas do acto em si. Como resultado foram-me substituidos vários dentes e fui obrigado a passar quase ao lado das iguarias da época natalícia. Hoje, o desejo frustrado da vingança esmoreceu, mesmo que, quase que diáriamente tenha de encarar o animal, que à falta de argumentos racionais apelou para a violência.

sábado, dezembro 17, 2005

sexta-feira, dezembro 16, 2005

SUGESTÕES

Que posso dizer de um livro que nos últimos dois dias consumiu todos os meus tempos livres, adulterando a minha vontade própria e outras actividades prioritárias que tiveram de ficar para trás? Foi o que sucedeu com O Alquimista. A escrita de Paulo Coelho consegue ser simples apesar do profundo teor dos conhecimentos que aceita partilhar com o leitor. A sua leitura é fácil e apelativa, merecendo todavia, de quem lê, mais tempo para apreender toda a sua sabedoria. O Alquimista é um livro intenso que se debruça sobre a forma de olhar para o mundo à nossa volta e de perseguir os nossos sonhos, usando o coração.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

FALTAM 10 DIAS PARA O NATAL!!!

NOITES VAZIAS





Toma o meu corpo, possui-o! Toma esta carne sem freio, todo este calor, esta ânsia, esta febre! Se és tu, qualquer uma, tanto faz! Toma-o na longa eternidade das minhas noites vazias, recebe as fraquezas do meu ser na força bruta do teu querer! Toma a razão sem razão e todavia razão dos meus ímpuros devaneios; toma a demência dos meus poemas e a indecência dessa castidade atroz! Violenta-me a inocência, saboreia da mente a perversidade, toma o meu corpo faminto, quiçá sedento de vida vivida, dum beijo mesmo beijo, do aconchego dum abraço, do estertor dum orgasmo.

JÁ NÃO HÁ


Já não há tempo para sonhar, não há castelos de areia junto ao mar nem cavalos de madeiras, daqueles, onde nas praias da minha infância se tiravam às crianças fotografias a preto e branco. Já não há fado castiço, não ha Alfredo, não há Amália, há má fama em alfama. Já não há cowboys, heróis de capa e espada, Sandokans. Hoje todos são bandidos, ninguém mais quer ser mocinho. Já não roda o pião, não desce o aro rua abaixo, já não grita o ardina de saco às costas as novas do dia. Já não há beijos às escondidas, nem olhares mais corados, já não há varinas, calaram-nas, às varinas que à porta nos traziam pregões e sardinhas fresquinhas. Já não há poesia como Camões a escrevia, nem colecções de caricas, nem vitórias europeias do Benfica. Já não há idade para a inocência, não há mais virgens no altar, não há nada... nada mais que a saudade.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

VIAGENS


Sigo a estrela lá no céu, à procura do meu Eu, sigo por essa ponte sem portagem até à virgem no altar, procuro luzes de calmaria em olhares apagados, cheios de nada, do muito que lhes vai na alma. Procuro-me em lugares onde nunca estive e que jamais irei esquecer, procuro o perdão do pecador, essa voz em mim que fala de amor. Perde-se a gaivota no horizonte mas nunca o horizonte em si; procuro e encontro (dentro de mim) a delicadeza da pedra mais dura, a esperança no infortúnio, o raio de sol na tempestade, todos os arco-irís da vida, poesia, que Tu escreves sem papel.

DUAS VIDAS






Seremos sempre dois
duas vidas separadas
dois destinos sem sentido
dois sentidos, sonhos ilegítimos.
Um mais um são sempre dois
e como podem dois viver tão sós,
dois caminhos sem união
paralelos sem um toque,
nossas vidas tão distantes
e tu em mim sempre presente.

ANJOS & DEMÓNIOS

A intuição feminina é: o resultado de milhares de anos sem pensar.


O silêncio é a fronteira final de uma mulher. Que se saiba ainda nenhuma mulher conseguiu lá chegar.

terça-feira, dezembro 13, 2005

PAUS & PEDRAS


... e num país que já foi de poetas as palavras são agora paus, as palavras são agora pedras, que ferem na alma o mais incaúto, aquele que delas se dizia amado amante. A devassidão dos meus pensamentos ímpios leva-me a questionar a noção do pecado: será a causticidade das minhas palavras menos digna que a verborreia improfícua daqueles que sobre nada escrevem ou falam? "Se soubesses não falavas, mas tu falas sem saber, falas de cor como um erúdito, escreves muito, não dizes nada." Deleito-me na loucura do juízo final, na falência de afinidades que me atraem e me conduzem invariavelmente ao sentimento, sempre, em correrias inconsequentes. Com a alma mártir de profundas chagas grito na eloquência de palavras dúbias, despidas dum contexto moralmente sóbrio, políticamente correcto, indubitávelmente ético; palavras que flagelam como paus... como pedras.

PENSAMENTO DO DIA

As estrelas são os poetas que fazem descer até nós versos de luz. Nos dias tristes, depressivos, os versos perdem-se nos negros e cinzentos. E eu sem poesia perco-me nos labirintos da angústia. - Augusto Gil

domingo, dezembro 11, 2005