quinta-feira, dezembro 08, 2005

SABES LÁ


Sabes lá tu do que se diz por aí, essa gente que se diz tão crente e que fala sem saber, sabes lá tu! Sabem lá eles o que é ser Gente! Há gente que se benze, gente que sente, gente que ri com vontade de chorar, crianças à fome e ao frio, sem lar, gente sem esperança, doente, gente decente, gente que apenas quer ser gente. Os outros... Sabes lá tu do que dizem, de ti, de nós, tu sabes!... Eu não. Porque a palavra brotou dos teus lábios como uma flor no deserto da minha insensatez, como um doce: "saudade", disseste, e eu nem sei se é verdade. Porque o que se diz por aqui... sabes lá!, do que falam de mim quando aqui não estás, sou o que se diz por aí, algo assim. Tu sabes, assim-assim, o que anda só, o que escreve daquilo a que chamam Poesia. Sabes lá do que se diz sem saber, de tudo o que se ouve sem querer, dói, sabes lá! Queres ignorar, mas não consegues... esquecer.


09FEV03

DESABAFOS DE UM REJEITADO (4)

"Lembro-me do dia em que fui raptado, quando enviaram um bocado de um dedo meu ao meu pai. Ele disse que queria mais provas"


"Uma vez quando me perdi... vi um polícia e pedi-lhe ajuda para encontrar os meus pais. Disse-lhe: Acha que alguma vez os vou encontrar?
Ele respondeu: Não sei, miúdo, há tantos sítios onde eles se podem esconder."

EVASÕES (Keira Knightley)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

DESABAFOS DE UM REJEITADO (3)

"Posso dizer que os meus pais me odeiam. Os meus brinquedos do banho eram uma torradeira e um rádio"


"A minha mãe nunca me deu de mamar. Ela dizia que só gostava de mim como amigo"


"Quando eu nasci, o médico foi à sala de espera e disse ao meu pai: - Tenho muita pena. Fizemos tudo aquilo que podíamos, mas mesmo assim ele conseguiu saír"

ET PLURIBUS UNUM


Um resultado brilhante permitiu a uma equipa do Benfica recheada de ausências mas heróica no estoícismo demonstrado eliminar uma constelação de estrelas oriunda de Manchester e prossegui contra as previsões mais optimistas a sua caminhada na Liga dos Campeões, através de dois golos de dois dos seus jogadores mais mal-amados pelos adeptos (Geovani e Beto) contra um de Scholes a abrir o marcador. Por este momento especial: Obrigado, Benfica!

terça-feira, dezembro 06, 2005

LÁ COMO CÁ



Antes do casamento Depois do casamento

PORQUE NUNCA É TARDE...

Queria deixar aqui o meu agradecimento especial ao amigo Paulo Tadeu, pelas felicitações aquando do meu aniversário e pela especial dedicação que devota a este meu humilde e tosco jardim literário. Espero poder continuar a ser merecedor de uma vista de olhos assídua não só da tua parte, mas de todos os que por cá já passaram. São vocês que me dão forças para prosseguir, para extrapolar as vossas expectativas dia após dia, tentando manter o vosso interesse e assim retribuir os incentivos que tenho recebido da vossa parte. Obrigado e um abraço do tamanho do mundo!

TENHO MEDO


Tenho medo do meu corpo, do teu, dos teus olhos nos meus olhos onde sem querer me perco da razão. Tenho medo da minha boca, da tua, e do meu nome nos teus lábios. Tenho medo do coração, faminto que anda de paixão e do que podem fazer as minhas mãos se as deixar (à solta p'lo escuro)... se as deixares (passear em ti)... Tenho medo do que sinto se tudo o que sinto for só desejo, se tudo o que sinto for só... tu sabes... tesão. Tenho medo do desejo, dum beijo que seja, das loucuras que fazemos quando não devemos e das mentiras que inventamos - e nas quais acreditamos - quando perdemos o medo do medo que temos.



15AGO03

DESABAFOS DE UM REJEITADO (2)

Tem sido um dia difícil. Levantei-me de manhã, vesti uma camisa e saltou um botão, peguei na minha pasta e a pega partiu-se... estou a ficar com medo de ir à casa de banho.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

FALTAM 20 DIAS...


Daqui por 20 dias vamos ter a mesa cheia de doces, a casa cheia de amigos, e estes vão trazer prendas que vão tornar mais coloridos os sorrisos das nossas crianças e mais brilhantes os seus olhitos, faíscantes de felicidade. Na noite de 24 para 25 vamos ter de escolher por onde começar, se pelo bolo-rei, se pelas filhozes ou pela torta, que vamos regar com champanhe e vinho do porto. No dia seguinte ainda haverá bolos e outras iguarias. E no outro, talvez ainda no outro a seguir... até que alguém diga que já não estão bons e os deitem fora, porque o final do ano está a aproximar-se e com ele uma nova remessa de doces. Nessa altura alguém vai falar de esperança num ano melhor, porque os nossos ordenados são baixos e o custo de vida elevado, porque há desemprego, políticos corruptos e há a camada de ozono. Vamos falar de consciência, de solidariedade, até em deixar de fumar. Vamos críticar os políticos e as promessas que ficam sempre por cumprir e por fim arcar ao governo as culpas por a nossa vida não ser melhor, apesar de toda a nossa inércia, de todo o nosso egoísmo. Porque para alguns, os problemas do mundo estão entre um aumento de 2 ou de 5% no ordenado, em trabalharmos horas extras que raramente nos pagam, em saber se este mês vamos poder comprar um ou dois jogos de playstation, em decidir se o almoço vai ser bacalhau ou bife com batatas.

EVASÕES

DO TEMPO QUE PASSA


Assisto ao tempo que passa com a serena amargura de quem se sabe impotente no seu resgate; tão inevitável como implacável o tic tac monocórdico dos ponteiros pende sobre a minha vida perdida como uma guilhotina afiada desmembrando o meu futuro. Tanta coisa por fazer, tantos lugares onde ir, o que quis ser e não fui, tudo o que ficou por dizer e o tempo tão curto passa frenético numa correria constante que me encontra invariávelmente parado, sistemáticamente... calado.

A VERDADE


A caneta desliza como uma bailarina embriagada no palco secreto de uma infundada esperança, as palavras às cegas, muito embora certas, a reboque de uma memória ainda fresca, que não quero ver tão cedo esquecida. Pela enésima vez repito-me, perco a graça, naquilo que escrevendo não ouso dizer-te, mas perto de ti sinto a premência d'encontrar palavras novas, d'inventá-las, d'adulterar um vocabulário assaz limitado no que ao adjectivar-te diz respeito. Desgasto-me baldamente em loas que fraquejam no intuíto desastroso de t'enredar na minha teia, porque a verdade é uma arma que nos mata e se não mata fere, e se fere afasta-nos.
30SET03

MORRER NA PRAIA


Quis morrer na praia, os pés descalços na areia ardente entre o céu imenso e o mar intenso, naufragar no fulgor dos teus olhos negros como duas conchas raras, nuas, prenhas duma felicidade latente. Quis mergulhar nas profundezas do teu corpo, conhecer-lhe os seus segredos, as correntes e os afluentes, afagar-lhe as formas, lamber o sal das das tuas feridas com o mel dos meus beijos, e abandonar-me ébrio ao sabor da maré p'ra desaguar no leito perfeito dos teus seios, onde amarro o meu barco ao cais, solto a âncora, fecho a porta e jogo a chave fora.

07MAI04

DESABAFOS DE UM REJEITADO (1)

No outro dia uma rapariga telefonou-me e disse:
- Queres vir cá a casa? Não está cá ninguém!
Eu fui lá a casa... ninguém respondeu. Não estava mesmo ninguém.

PENSAMENTO DO DIA

"Só os castos são verdadeiramente obscenos"
escritor holandês

domingo, dezembro 04, 2005

LAR

Tem que haver um lugar onde
alguém com quem
possa eu um dia ser feliz,
alguém com quem partilhar,
a quem dizer:
contigo estou vivo
e onde tu estiveres...
Estou em casa

RENDA ou SEDA (do lado errado da porta)


Para lá dessa vil fronteira que nos separa ouço os teus pés que me fogem andarilhos, como um vento que me fustiga a alma; sinto a lenta agonia de quem perde o melhor do dia (todos os dias), a oferenda de um corpo orgulhoso em todo o seu esplendor, liberto de quaisquer trapos, vestido de promessas, néctar dos deuses, colírio que nos faz crentes. No inquietante roçagar do tecido sobre a carne esvai-se-me o coração em lágrimas de sangue e eu pressinto o suplício de uma quimera vã, em que aos meus olhos surges já vestida, no despertar de uma estéril espera. Não, imploro, não te vistas!, ainda não! Não te cubras num despudor despropositado, não omitas a estes olhos por norma tristes e cansados a alegria da harmoniosa simetria das tuas formas, dos teus seios, de ouvir dizer e adivinhar, perfeitos, do fruto maduro e pronto a colher ousando sob o ventre desnudado, o gracioso embaraço de uma sardenta Vénus reínventada. Do lado de cá dessa linha que por instantes nos afasta em silêncio me declaro e expío, sofro calado por cada um dos meus pecados e suspiros mais ousados. Não, imploro, não te vistas! Não ainda! Não por mim!, se acaso algo conto, se acaso mereço, para ti o privilégio da cedência dos teus encantos. Não te vistas!, não me magoes uma vez mais com o desprezo em que a tua natureza é fértil, qué um tormento cada minuto desse tempo em que um pedaço do teu corpo do meu se esconde, atrás de portas e botões, generosos decotes de promessas que ficam por cumprir adiadas. Chega de fugir, de ter medo de ousar, satisfazer! Rasga os disfarces que te prendem à raíz do medo, faz-te à vida p'la vida, faz-te presente, despe a vergonha, o orgulho e o preconceito, fica livre, fica nua, sempre e só em pelo, na símbiose mais que perfeita de dois corpos que se precisam e se querem... conhecer. Não, não te vistas! Nunca te vistas senão de amor, qué um sacríficio inglório, tamanho tormento imaginar-te às pressas, peça a peça, dos pés quase à cabeça, e em segredo imaginar-me renda... imaginar-me seda.


31AGO03

PEQUENAS COISAS


Há pequenas coisas em ti
pequenos gestos, pequenas palavras
momentos sinceros
de que não te dás conta
e que me fazem sentir tão grande, enorme
vivo.
Um sorriso, um olhar
que para ti nada vale,
o silêncio
o toque ainda que breve dos teus dedos.
E eu deixo-te fugir por entre as mãos
carícias breves, confidentes
abraços e beijos, o teu corpo (sonhado)
como um golo impossível
que todavia sofro,
um frango.
07ABR04

COISA POUCA, COISA NOSSA


Roubaste-me a incerteza expectante das manhãs em que enfiados na cama, desencontrados dos lençóis, libertava o teu corpo das amarras do teu pijama, confundíamos as nossas pernas, misturávamos os nossos sexos, masturbávamo-nos um ao outro vezes sem conta, como se o tempo fosse coisa pouca, coisa nossa. Levaste a luz diáfana do glamour da minha insensatez, quando te descobria íntima nos caminhos escusos da minha nudez, quando a inquietante ternura dos meus beijos húmidos lambuzava a tua boca dos restos de uma fálica sede. E tu fingias que gostavas, como fingias que me amavas, como as juras de amor levianamente sussurradas com que tantas vezes me levavas, me enganavas, deixando-me desmistificar os meus tabus, desbravar o sentido proíbido, fazer de herói... na tua selva como um Tarzan, primata no emaranhado dos teus cabelos púrpuros que acariciava sem despentear, quando me beatificavas em águas douradas saciando a minha sede e a minha fome na perene serenidade dos teus compassos como versos de uma poesia indescrítivel, como se o tempo fosse coisa pouca... coisa nossa.


30SET03