sexta-feira, dezembro 02, 2005

NOITE ESCURA

Noite escura, companheira vadia de velhas vielas e do frio nas costelas; plangem guitarras tristes, gemidos ardentes duma voz castiça, fado de canalhas e coristas; procuro num corpo aconchego e num corpo de meretriz poesia; nos ladrilhos da minha rua já não roda o pião, joga-se vida e morte, azar e sorte, esconde-se o ás; esposa fiel e amada em noite escura deitada nua noutra cama que não a sua; sobe a parada, uma bala perdida, ferida rasgada em peito aberto, vida roubada... desce o pano, vence a morte. Fosse minha doce sorte e meu medo menos forte, de morte matada mataria, de morte morrida morreria, do que envolto em noite escura, fugitivo sem qualquer destino. Houve um dia... todos nós fomos heróis, matámos índios, fomos cowboys, fomos polícias e ladrões, fomos crianças com ilusões.


1994

quinta-feira, dezembro 01, 2005

SEM COMENTÁRIOS

SEM TI

Sem ti sou um corpo cheio sem vazão,
um coração enfermo sem razão,
uma causa na gaveta esquecida,
um filho bastardo da desdita.
Sem ti sou um Che sem Cuba nem revolução
perdido à sorte p'las ditaduras da vida
como num beco escuro e sem saída,
um barco já sem remos, à deríva no mar
sem saber como amar, um velho tonto,
cansado, amargo, um ébrio céptico
nos braços duma ilusão, uma pedra
à toa p'lo chão
18ABR03

EM SEGREDO


Mentiria se dissesse que não me dá prazer olhar-te, observar-te em segredo, de soslaio, imaginar-te, os teus braços e as tuas pernas como amplexos, embrulhados nos meus braços, nas minhas pernas, as bocas síamesas, as línguas esfomeadas dum tesão sem travão, num duelo devasso p'lo sofá, p'lo chão da sala, numa cozinha mal-iluminada, p'los lençóis anelantes de uma cama desarrumada, bandeira branca que tu ergues, desfraldada, querúbinica musa qu'ao poeta se entrega entre odes, suspiros e estrofes. Invento-te, uma e outra vez no deleite de uma febre que me consome, no lânguido roçagar da tua nudez na minha tez. Calo-te do meu corpo frio, duma memória ainda quente onde sem saber estiveste presente; calo-me das mãos suadas e da ausência do teu corpo no meu, da guerra que ninguém venceu. Em segredo, largo um beijo húmido no vazio do teu sexo.

5JAN03

TENHO UMA CANETA

Sou um amante de amores imperfeitos,
um náufrago à beira da praia, afogado;
não tenho bandeira, não tenho namorada,
tenho uma caneta, invento amor.
Sou um rebelde sem causa, sem arma
e com palavras carregadas de fel
com que a pena pinta a minha vida.
Não tenho metas, não busco compromissos,
tenho uma caneta e invento a minha história.


quarta-feira, novembro 30, 2005

IDEIAS QUENTES PARA UM INVERNO FRIO

BALLET


Poesia é o ballet da escrita,
é ter a boca e o coração
na palma das mãos,
é o riso sem gargalhada,
chorar sem lágrimas no olhar,
a voz de quem sofre
por sua própria vontade calado;
é falar sem precisar de ter com quem,
sem precisar de ter de quê,
é o grito silencioso, a raiva surda
de quem vive na ponta dos dedos,
de quem pensa que ama, mas que apenas sonha,
sonha que vive, morre, sem dar conta
de ter um dia sequer nascido.


DEIXEI VOAR OS SONHOS

DEIXEI VOAR OS SONHOS


Perdi o desejo d'ir p'ra cama sem dormir, d'olhar pró lado e procurar-te em vão no aconchego dum abraço mais apertado; perdi-me dos caminhos do teu corpo, do gosto, desse gosto que tinha da tua boca na minha (leite e mel), quando me fazias acreditar que tudo era possível (mesmo o impossível); quando ainda me beijavas, quando ainda me querias, quando em ti me despojava do cansaço e me encontrava no afago dos teus olhos nos meus. Já mal nos olhamos sequer, sofremos baldamente em noites dúbias de um prazer efémero e desleal, em lacónicos túgidos de um deleite velado e estéril. Perdi a vontade de acordar, a insistência em existir, a liberdade individual, uma réstea de respeito, os nossos direitos ferozmente fornicados na cúmplicidade ambígua dos nossos orgasmos simulados. Perdi a pressa de chegar sem saber onde nem porquê, a vontade de lutar, a adrenalina de ganhar; abri as janelas da alma sem lágrimas e deixei voar os sonhos de um amanhã por descobrir, nas asas dum fado tido como certo.

21ABR03

PORQUE HOJE SÃO BEBÉS

Os aniversariantes de hoje:

Pedro Vidal, grande profissional, uma excelente pessoa. Aqui envio a minha estima e os desejos de um dia feliz na companhia dos que lhe são mais próximos.

Sónia Santos, uma amiga com A grande, sempre disponível para ouvir os meu problemas. Que o futuro, para além do dia de hoje lhe traga bastantes motivos para sorrir.

terça-feira, novembro 29, 2005

ONTEM FIZ ANOS

Ontem não vos respeitei com a minha presença. Não que sirva de desculpa, mas fiz anos. Depois dos 30 deixamos de aguardar o nosso aniversário com tanta expectativa, que vai decrescendo gradualmente à medida que nos aproximamos dos 40. Dizem que a idade nos traz experiência e sabedoria mas não acredito. É a vida vivida que nos ensina e não a cronológica. Na vivida, sinto que ainda sou um adolescente, tanto que tenho ainda para aprender, essencialmente sobre mim. Pouco ou nada sei. Sei que tenho o mais importante, alguns amigos que ontem fizeram questão de sublinhar a sua amizade e isso é algo que não tem preço. Obrigado à minha família, fundamento da minha estabilidade emocional, obrigado Paulo ao provares que a distância é apenas um pormenor, obrigado Sónia, Nusrat e Farah, vocês são nota 10.

segunda-feira, novembro 28, 2005

FELIZ ANIVERSÁRIO


Hoje faz anos o Nuno, grande lagarto!
Que recebas tudo de bom, porque tu
mereces! Felicitações leoninas.

SUGESTÕES

Para quem gosta de boas imagens e não só aqui vão 3 sugestões:

www.olhares.com/galerias
www.drawings.love.ecards-free.fr/ulybka-art/main-menu-frames-EN.htm
http://opequenomundo.blogspot.com/ (obrigado pelas palavras!)

A TUA SAUDADE

Há marcas que não se apagam nunca,
estacas profundas que fizeram sangrar
este coração estilhaçado, em cacos.
Há feridas que nunca cicatrizam
olhares que ficam, gestos e palavras
que nunca se esquecem, nunca se esperam.
Todos nós um dia, por mais ateus, fomos Cristo
às mãos de um Judas qualquer, todos nós
um dia nos crucificámos de livre vontade
na cruz da nossa ingenuídade e fé,
e de lá saímos, o orgulho ferido, cabisbaixos,
o corpo em chaga ardente de mil estigmas
e na cabeça coroada de espinhos a lembrança
de um pecado agrídoce que por vezes me assalta,
me toma nos braços da penitência e me flagela
no castigo da tua saudade.
19OUT02

ÍCAROS SUÍCIDAS

A noite mais escura e sombria de todas as noites tombou sobre mim nessa manhã dos anos teus como torres de babel em cinzas e ícaros suícidas em queda-livre. No teu bolo despido de velas, o sopro dum anjo negro; o ar escoa-se num medo incerto, kamikazes em céu aberto, e os parabéns confundem-se desafinados em gritos pungentes de morte prematura, nos embrulhos desventrados sem presentes, nas entranhas fedidas dum monstro de pedra e aço com alma de gente. Repito-te que os Homens não podem voar, mas não acreditas. Se não voam, perguntas-me: então porque se atiram eles?, como heróis de ficção, mascarados da bd, aracnídeos lançadores de teias, desses que velam o sono do teu herói-menino. Ilumina a noite mais escura e sombria de todas as noites, o menino de uma avó que ainda canta na hora do óó, reacende a chama no embalo de um sorriso e faz da esperança o meu caminho, na noite mais fria o calor do teu abraço.

15SET02

A todas as vítimas e aos heróis anónimos de 11 de Setembro de 2001

SEM COMENTÁRIOS

domingo, novembro 27, 2005

AS PALAVRAS DOS OUTROS


"Invoco-te para preencher o vazio das noites em que a solidão morde o meu corpo magoado. E deito-me, inventando-te, no espaço preciso da tua ausência."

Tito Lívio

GRIPE DAS AVES


sábado, novembro 26, 2005

TRÊS LETRAS

Três letras, três apenas
mas como as noites dos poetas imensas,
palavra com cor
com cheiro de amor
amor eterno
ternura
sentimento
sentimento que perdura
nas asas de um sonho à solta.
Imaginação ou realidade
rendo-me,
à verdade do que sinto
das palavras que escrevo
singela homenagem que presto
à vida que a vida me deu.
2001

sexta-feira, novembro 25, 2005

PENSAMENTO DO DIA

As palavras que não foram ditas, o gesto imobilizado antes de nascer, o sorriso desfeito ao menor obstáculo... ah, é preciso ter coragem para ser feliz!

Álvaro Pacheco

HISTÓRIAS DE FANTASMAS


Andava eu a navegar pela internet quando deparei com a história de Lay Dorothy Townshend, uma senhora que viveu no início de 1700 e que após a sua morte foi supostamente vista num traje transparente, claramente avançado para a época, por mais do que uma pessoa, em épocas e locais distintos, ficando conhecida na história como The Brown Lady. A dama em questão, a quem provávelmente esqueceram de lhe informar do seu falecimento foi "capturada" em setembro de 1936 pelas lentes de dois fotógrafos incrívelmente bafejados pelo infortúnio, apesar de terem podido contemplar a senhora nas suas vestes diáfanas, ela estragou-lhes o que seria mais uma bela fotografia de umas escadas. Verdade ou não, acho estas histórias deliciosas, pelo que decidi partilhá-las convosco. E vocês? Acreditam em fantasmas?