quinta-feira, março 28, 2013

O PAPA DO POVO

Acho que o povo deve ser a melhor coisa já criada pelo Homem ou por qualquer Deus, uma força omnipresente em que raramente acredito, mas que mesmo assim não deixo de respeitar. Pelo menos, seria esse o meu pensamento se fosse um ser alienigena acabado de chegar a este nosso planeta azul, minado por revoluções, guerras. pobreza e fome, como se o povo - esse do qual te dizem Papa, seu representante - não fosse ele próprio constituido por homens e estes, como seres imperfeitos que são, não fossem movidos quase sempre por fartas pitadas de egoísmo e inveja e uma acentuada falta de carácter. Mas tu, Francisco, o primeiro, afável, de palavras bonitas e sonhos tão puros, quiçá ingénuos - o mesmo Francisco que tão bem se moveu nas areias movediças do regime opressor do ex-presidente argentino Jorge Rafael Videla -, és do povo, como antes fora Diana, pessoas ímpares de sentimentos nobres. Falas em mudança, um discurso semelhante ao de Obama antes da primeira eleição, como qualquer político antes de ser eleito, conhecedor exímio de todos os defeitos da sociedade e com o regaço cheio de ideais e boas intenções. "São rosas, senhor, são rosas". Discurso de oposição - chama-se -, em contraponto com o do governo, quem quer que esteja num como noutro. Foi sempre assim, Francisco, sempre será, a não ser que sejas o que pareces, característica pouco comum entre os homens. Quero com isto dizer que o Papa é um político? Não somos todos? E pior, economistas, uns piores do que outros. Somos quando fazemos opções, quando consumimos, a toda a hora. Não gostaria de te ver outro Pedro Mota Soares, tu sabes, aquele que entrou de mota e já se move num carro topo de gama, inacessível à maioria dos mortais. Será que também tu, Francisco, vais ceder , senão à luxuria do Vaticano, às exigências e interesses daqueles que realmente mexem os cordelinhos? Torço por ti, mas espero para ver. Quero acreditar, senão em Deus, em ti, num homem que não use máscaras de cada vez que se dirige a um seu semelhante, que não seja movido por outros interesses que não o amor ao próximo. Obama aprovou recentemente uma lei com a qual discordava, em nome dos interesses financeiros e ideológicos de uma América melhor. Contrapartidas, o sapo sempre difícil de engolir, o passo atrás antes dos dois em frente. Não foi a primeira vez, nem dele, nem de tantos outros políticos e cidadãos anónimos, vergados à impopularidade de tantas decisões difíceis e incompreendidas. Caro Francisco, não vai demorar a saber que é mais fácil prometer do que cumprir e que os sonhos são tão frágeis que até o vento os leva. Ao contrário do que diz a canção, não é o sonho que comanda a vida, mas o poder económico capaz de sustentar e erguer os sonhos de uns quantos, esse vil metal que sem ele os sonhos sucumbiriam como um castelo de areia à primeira onda mais agreste. Os políticos, patrões, banqueiros e afins são como nós, são homens, limitados pelas suas imperfeições e desejos, uns mais competentes do que outros, mas poucos com firmeza de carácter capazes de fazerem frente a um mundo capitalista, prático, insensato, imperfeito, onde só os fortes sobrevivem e os fracos padecem. Ingénuos esses poucos, curtas carreiras, trucidados sem dó nem piedade por uma máquina implacável despojada de sentimentos.


 Os milagres sobre cujos alicercers se ergue hoje a tua igreja são tão frágeis, tão inverosímeis como as soluções mágicas para acabar com a crise. Em que fé te baseias, Francisco? Um demagogo, um impostor ou um mágico, para nos resgatar a esperença perdida na humanidade? Não a mesma que tinhamos nas instituições financeiras, nos puros ideais políticos do socialismo ao comunismo, da social democracia, já tantas vezes conspurcados por mãos inábeis e mentes ávidas de poder. Não a mesma que tinhamos na amizade e na solidariedade, palavras vãs onde o respeito e a lealdade, a ética e a moral não têm mais lugar. Em que acreditar? Na cura para o cancro? No champô que vai acabar com a caspa, na lâmpada que não se gasta, no computador que não se avaria, no mecânico da oficina, no amor que não vai acabar? Líricos. Uma solução definitiva acaba com empregos e empresas. Quantos milhares de pessoas estão ligadas directa ou indirectamente a estas indústrias? Qual a repercussão que teria a descoberta da cura definitiva para a sida? Infelizmente, Francisco, vais descobrir que o preservativo salva, mas que ao fazê-lo está a originar um problema ainda maior que é o da sobrelotação, da escassez cada vez maior de alimentos e recursos naturais a que só as guerras ainda conseguem atenuar. Se soubesses quantos empregos são criados pela guerra, quanta gente que vive da morte... O mundo em que vivemos é um mundo hipócrita, que vive de mentiras, interesses e contrapartidas desde o aparecimento de Adão e Eva. Ninguém dá a outra face, ninguém poe a mão no fogo. Vivemos na corda bamba, na incerteza dos dias, cavando estradas com colheres de chá, usando máscaras para não nos tomarem por parvos, gritando de vez em quando só para sabermos que estamos vivos... e cada vez mais aflitos. Tu que viveste a ditadura de perto sabes que mais vale ser um cobarde vivo que um herói morto, que dar esmolas - mesmo quando temos os bolsos cheios - é melhor do que não ter nada para dar e que a melhor maneira de ajudar os pobres é não se tornando um deles.


Faz-me acreditar, Francisco, faz-me acreditar que ainda há esperança, que eu estou errado e tu estás certo.

3 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
Hoje comecei por aqui. Este texto foi a minha entrada no bloguer.
Gostei. Estou como tu um pouco confiante, mas esperando para ter as certezas de que por este Francisco não seremos enganados.

Homem simples. Homem de Deus e Deus fará nele outros milagres que haverão de mostrar os valores que ele defende porque acredita e vive para gloria de Deus e para o serviço dos irmãos do mundo inteiro.

Penso, embora a religião também tenha política, que ele não foi nomeado para esse lado da vida, mas para guiar o povo nos verdadeiros valores da humanidade e da espiritualidade.

Miguel disse...

gostaria de acreditar, meu caro amigo Luis, apesar de não ser uma pessoa muito crente neste ou em qualquer outro Deus, tantas as pancadas que a vida nos dá. Acredito nos Homens, qb, em nós e na nossa capacidade de mudarmos as coisas se assim o entendermos. Um abraço.

Rosa Carioca disse...

Já somos dois!
A ver, vamos!