quinta-feira, março 11, 2010

SÓ ACONTECE AOS OUTROS?



Quantas vezes não se apanharam falando sobre os outros, como se tudo de bom
SÓ ACONTECE AOS OUTROS?

"Os outros", disse-lhe a avó, as palavras semi-amordaçadas numa angustia abafada, tantas vezes as ouvira na experiência dos seus 15 anos. "Os outros pais separam-se e continuam amigos, mais que não seja pelos filhos. Os outros...", lamentou-se pela enésima vez, deixando a frase em suspenso, como costumava fazer. Seriam os outros todos assim ou fora ele que tivera azar? O mesmo azar a que a tia fazia referência de cada vez que não lhe podia comprar aquele jogo novo. Porque a vida estava má, dizia, que não sabia porque os outros, que ganhavam bem menos do que ela tinham todos carro e iam todos os anos de férias para fora, tinham filhos, eram felizes. Era verdade. "Sabes?", contava-me, como se naqueles cinco minutos sentados lado a lado na sala de espera do SAP, nos tivessem criado um vínculo de cumplicidade. "Os outros casam, os altos e os baixos, os novos e os velhos, até os feios casam, a minha tia não, porque o namorado acha que o amor nem sempre é suficiente para seguir em frente e ela, teimosa, insiste em dizer que não, mas vai acabar uma velha melancólica, amarga e solitária. Sabes o que ela diz? Que os outros têm uma vida, que não se limitam a vê-la passar, do lado errado da janela.", dizia-lhe a tia, enquanto prometia o tal jogo para um dia ainda sem data marcada. "Um dia sai-me o totoloto, não pode ser sempre aos outros". Tinha também a criança uma vaga ideia de um dia ter pensado assim, dois, três anos antes, na sorte dos outros cujos pais estavam também separados e que por isso tinham duas casas e recebiam o dobro dos presentes. Tinha invejado - ainda longe de saber que a inveja era um pecado - os actores dos filmes e das novelas, com as suas vidas de sonho e o sorriso sempre estampado na capa das revistas, e os jogadores da bola, que ganhavam fortunas a fazerem o mesmo que ele fazia por prazer, com os amigos da rua, depois dos afazeres da escola. E ainda se queixavam quando tinham de jogar duas vezes por semana. "São uns maricas!", queixou-se. Não percebia. Os outros tinham, os outros eram, os outros faziam, diziam, os outros beijavam de língua, apesar de na altura não saber bem o que isso era e achar só de si a ideia nojenta. Não importava. O que lhe incomodava era que os outros conseguiam... ele não. Aos outros não lhes faltava nada, sorte, grandes carros, mulheres perfeitas, dinheiro e respeito. Para ganhar o respeito dos colegas tinha posto um olho negro no Chico, antes dos pais - como castigo - lhe vedarem por uma semana o acesso ao computador e à playstation. Só que tudo isso fora antes, quando ainda não sabia que "os outros" não são sempre felizes nem sortudos, têm os mesmos desejos e medos, sentimentos e frustrações. Os outros - sabia hoje, e apesar de ainda não ter experimentado os beijos a que chamavam franceses - "são os fantasmas do que não somos", confidenciou-me, satisfeito pelas palavras diferentes que usava, fruto de uma maturidade que a vida cedo lhe concedeu. E eu pensei que ele era capaz de ter razão, que os outros são quase sempre o reflexo da nossa falta de coragem, a desculpa fácil para o insucesso, condicionado pelo comodismo e pelo medo de arriscar, de fazer o dia acontecer. "Hoje", dizia-me num trejeito envergonhado por não querer parecer pretensioso, "sei que sou tão especial como os outros... só que à minha própria maneira.", e piscou-me os olhos, num sorriso maroto, antes de me perguntar se queria conhecer a tia.

6 comentários:

Sonhadora disse...

Miguel
uma história muito linda.
Gostei muito

Beijinhos
Sonhadora

Eva Gonçalves disse...

Quantas vezes, nos referimos aos "outros", como sendo tudo aquilo que não somos? Os outros, nunca são iguais a nós, já reparaste? Ou nós nunca somos iguais aos outros...e depois parece que ficamos surpreendidos, quando afinal, nem tudo era o que parecia(mas que idade temos nós afinal, para ainda acreditar nisso de que os outros estão sempre melhores que nós?) Eu não sei o que os "outros" comentadores acham, mas eu gostei bastante desta história(?) :) beijo

Regina Rozenbaum disse...

Miguelito, duplo anjo, amado!
Essa "história", bacanérrima, dava boas horas no Divã nosso de cada dia rsrs, mas deixa prá lá... Adoreiii, amigo.
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Isa GT disse...

A nossa relação com os outros é deveras interessante, há, como muito bem diz, o hábito de pensar que o bom, só acontece aos outros, no entanto, em coisas de "igualdade democrática" vem muitas vezes o "eu sou igual a você", quando deveria ser "você é igual a mim" e até ver, quem só quer igualdade, em relação aos seus superiores ;-)

Fê-blue bird disse...

Um texto com o qual me identifiquei bastante, porque infelizmente tive uma "tia" assim.
Os outros conseguem porque....
Os outros são melhores....
Chega-se a um ponto em que não sabemos quem somos, de tanto tentar agradar aos outros...quais outros? Afinal descobrimos muitas vezes dolorosamente que os outros seguem as suas vidas sem darem por nós.
Gostei mesmo muito!
Um beijinho

Sam Seaborn disse...

Andei este tempo todo na lua ou não tinhas por hábito escrever pequenos contos… admito ambas as alternativas… em todo o caso gostei.

É um fiel retrato da nossa sociedade, “os outros”, “os outros”, “os outros”… todos humanos, todos com problemas, mas em geral só vemos o que de bom e feliz têm… mas em primeiro lugar, nem deveria ser essa a nossa visão… quanto mais olhamos para “os outros”, menos o fazemos em relação a nós… somos donos do nosso destino, podemos não poder prever um “choque eléctrico”, mas podemos fazer mais pela nossa própria vida, o mundo está à nossa espera, tudo o que temos que fazer é simplesmente e tão só “viver” a nossa vida e não a dos outros.