domingo, março 07, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...


O AMOR EM SEGUNDOS

do prazer da descoberta à monotonia das certezas

Abro os jornais que falam de uma estatística assustadora no que se refere à violência doméstica e crimes passionais. Onde param os poetas de outrora, as grandes obras que exultavam o amor, as paixões de Pedro e Inês e de Romeu e Julieta, tragédias, apesar de tudo. Será que o amor é mesmo fodido?, como nas palavras de Miguel Esteves Cardoso? Serão Amor e Dor apenas duas palavras que rimam ou que além de tudo o mais palavras que nos fazem sangrar de um sangue que não se vê mas que se sente, que dói. Que sei eu sobre o segredo da felicidade ou as regras do amor? Nada, e se soubesse não dizia a ninguém, escondia os sentimentos do mundo numa caixa e jogava a chave fora só para que ninguém mais se ferisse ao usá-los. Como se isso de ser imune à dor até tivesse piada. A verdade é que nós, humanos, sensíveis, somos especialistas na repetição do erro, inexplicavelmente dotados de uma atracção pelo abismo no que se refere à nossa capacidade emocional. Podemos saber que uma pessoa não é a melhor para nós, que uma relação - por mais amor que haja - está condenada ao fracasso, que o passo para a frente significa uma queda cujas consequências podem ser drásticas e mesmo assim avançamos. Cada novo "amo-te" que proferimos nestes dias é quanto muito um descuido do coração a falar mais alto que a razão, mas a verdade é que todo o apaixonado é um cego, que embora podendo se recusa a ver, prefere viver nesse limbo de angustia eterna à certeza boa ou má. Um bom romance sobrevive de mistério. Querem saber as regras do amor? Não ter regras nenhumas. É esse o principal segredo do amor e tantas vezes da vida, a incapacidade que temos de lhe colocar regras, de prever cada passo, de o domar como se fosse um cavalo bravo. Não adianta planear, embora a imaginação e a improvisação sempre ajudem. O casal ideal não dá nada como certo, ele sabe que, a vitória numa batalha não lhe garante a guerra. Esta é ganha em decisões, em detalhes, pormenores, não em promessas, numa flor que se dá sem esperar e eu nunca ofereci uma flor que fosse, nem uma simples rosa. Se quiser manter viva a chama, seja espontâneo sem ser dramático. Surpreender e deixar-se surpreender, conquistar todos os dias como se fossem o primeiro... ou o último, a derradeira oportunidade, seduzir... é essencial e não acontece só nos filmes. Nunca pensei muito a sério como iniciar uma relação, mas apenas quando realmente deixei de pensar no assunto ela aconteceu e eu simplesmente a deixei fluir. É tudo muito bonito no princípio, na chamada idade da inocência, dos desejos mal-contidos, no tempo dos porquês. Só que um dia, sem nos darmos conta, pensamos que já sabemos tudo um do outro e deixamos de lado as perguntas, as descobertas, a subtileza e o galanteio e trocamos o incerto pelo certo. Foi aí que tudo terminou, quando passámos das dúvidas para as certezas e o pouco que sabíamos revelou-se tão frágil como um castelo de cartas ao vento. Os planos e a frieza das datas, o fim das horas que deixávamos voar - tentando em desespero imobilizá-las no tempo dos beijos e das carícias mais ousadas, as mãos trémulas de impaciência e do medo da rejeição -, deram lugar aos minutos cronometrados ao segundo e que acabaram com tudo. Porque temos de ser sérios, de perdermos para a idade adulta e para o casamento a irreverência da juventude? Houve um tempo, eu lembro-me, em que o tempo era sempre curto e o desejo imenso. Hoje sobra o tempo na ausência de ter com quem.

6 comentários:

Olga disse...

Eu acho muito triste que na minha terra, por exemplo, se ache mais chocante um casal aos beijos de um forma intensa do que duas pessoas à porrada! Acho que disse tudo. E só li o 1º parágrafo do teu post, veio-me logo isto à cabeça!

Miguel disse...

perdemos mais tempo a falar mal dos nossos amigos do que bem dos nossos amigos. É um pouco essa a ideia.

Olga disse...

Hummm... não acho! Eu e os meus AMIGOS falamos de tudo e mais alguma coisa. E se é para criticar é de uma forma generalizada, como fiz agora. Mas sim, Miguel, depois também há aqueles "amigos"... Um boa semana! Bjinhu*

Regina Rozenbaum disse...

Miguelito, duplo anjo, amado!
Difícil mesmo as relações...não há fórmulas e muito menos regras...Lá no meu cantinho, no marcador relação a dois, já escrevi algo a respeito (retirado de minha experiência clínica em atendimento de casais)fica aqui o convite.
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Sonhadora disse...

Miguel Gostei do texto
Para reflectir nele.

Beijinhos

Miguel disse...

Olga, confesso que não me expressei da melhor forma. O que quis dizer é que damos mais atenção e importância a valores errados, como a violência, as invejas, a ambição tantas vezes desmedida do que à amizade e manifestações de amor como um casal aos beijos. Um dia também fui assim, mea culpa, essa pessoa que ficava chocada, embaraçada por essas manifestações públicas. Mas isso foi antes de me apaixonar e passar a ser eu o alvo da língua viperina das "alcoviteiras" e dos "desocupados", dos mal-amados. Bjs