domingo, fevereiro 21, 2010

PORQUE HOJE É DOMINGO!...

PLAY IT AGAIN, SAM!

Era impossível não se lembrar de Rick Blaine naquele momento. Curioso que por mais anos que se passassem desde a última vez que vira aquele filme ainda se lembrasse tão bem do nome das personagens. Contudo, não era a famosa cena do piano que lhe vinha tantas vezes à memória, nem a inesquecivel melodia, mas sim a cena do aeroporto onde um fleumático e imperturbável Bogart desejava felicidades a Victor e a Ilsa. Há poucas dores maiores do que essa manifestação latente de altruísmo. Sabia-o perfeitamente, de já ter passado por elas mais do que uma vez, umas vezes com mais sinceridade e dificuldade do que outras. Podem dizer que é um acto nobre o de abdicar da própria felicidade, de uma das poucas razões que nos levam a acordar dia após dia com vontade de seguir em frente, em detrimento da felicidade da pessoa amada. Que se foda a nobreza! Ela chamara-o de complicado, depois de dizer uma vez mais que o amava. Ele sabia que era algo mais, para além de todas as desculpas pouco convincentes que treinara antes de se encontrar com ela. A falta de coragem não era um acto nobre nem altruísta. Parecia fácil para Bogart, hipotecar assim a última réstea de esperança e mesmo assim manter aquela pose que só Bogart tinha e que lhe fazia a ele sentir uma devastadora e redutora sensação de fragilidade. Os homens não choram. Bogart não chorava. Mas ele sim. Fê-lo, por dentro, quando ela lhe perguntou se ele não ía lutar pelo que ambos sentiam. E Rick? Os dois tinham atirado a toalha ao chão, com a diferença que o outro continuava ali, imperturbável, com aquele ar de "não estou nem aí" que agora o irritava solenemente, uma pedra de gelo incapaz de sentir quaisquer remorsos. Foi nessa altura que compreendeu, tantas vezes tinha visto aquele filme e nunca dera por isso: Rick não amava Ilsa, não daquela maneira que ele concebia que o amor devia ser para ser amor, total. "Play it again, Sam!", que bom seria se a vida fosse uma canção que pudessemos simplesmente voltar a tocar.

6 comentários:

Eva Gonçalves disse...

Pois, nem sabes como me identifico com esse filme e com o Rick... por ter feito recentemente o mesmo... precisamente aquela máxima do "if you love someone set them free! "foi o que fiz.. para que pudesse ser feliz sem mim... mesmo sabendo que nunca poderei ser feliz sem ele... não por consciência altruísta.. mas porque o amor é simplesmente assim... Beijinho

Regina Rozenbaum disse...

Miguelito, duplo anjo, amado!
Que lindo...e realmente não podemos pedir para tocar a vida novamente... Talvez seja esse o motivo de termos que vivê-la como diz a música: como se não houvesse amanhã!
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Miguel disse...

É verdade, Eva, o amor é um sentimento simultâneamente tão bom quanto pode ser injusto e doloroso. Compreendo muito bem esse "mesmo sabendo que" de que falas no comentário, mas o amor e as suas decisões têm mesmo razões que a razão não explica. Bjs

Minha amiga Regina, adoro essa frase e acho que todos seriamos bem mais felizes se a seguíssemos, mas algum medo e essa coisinha chamada consciência, o grilo falante que todos temos dentro de nós, nos impedem muitas vezes de sermos mais felizes. De tanto pensar e ponderar o próximo passo acaba sempre por restar menos tempo para a vida vivida. Bjs

Há.dias.assim disse...

Que bom que seria...
mas não tem!
Boa semana

Sam Seaborn disse...

Alguma dificuldade em explicar como é possível ter eu gravado na memoria um filme que não me recordo de ver… ainda assim todo o retrato irrepreensivelmente pintado me é familiar.

Earnshaw disse...

"The fundamental things apply
As time goes by"